
"Você está ouvindo o microfone tradicional de Santa Catarina"
Depois que você ler esta introdução, dê play no vídeo no final desta introdução, feche os olhos e deixe a imaginação trabalhar.
Volte ao ambiente de 1964. Os movimentos controversos de 31 de março tinham passado há um certo tempo, mas deixado seus reflexos também por aqui.
Fora a aparente calmaria do resto de ano, uma tradicional loja de tecidos e armarinhos da cidade era o destaque: estava abrindo aos negócios a nova casa. Moderna, monumental e histórica como o próprio nome.
A multidão se aglomerava diante e no interior da nova casa. Entre os anônimos e funcionários sorridentes, autoridades do meio político, eclesiástico e comercial, todas para dar um aperto de mão de sucesso ao novo empreendimento.
O deslumbre enchia os olhos dos presentes. Colunas redondas, vitrines elaboradas no mais fino acabamento, linhas arquitetônicas que não eram vistas iguais numa cidade ainda permeada por casarios clássicos do tempo da jovem cidade do início do século.
E por lá, no tufão social instaurado, microfone na mão, colheita de impressões e o eco das festividades da tarde. Dois repórteres fazendo o papel que lhes cabiam: levar via a onda do rádio o acontecimento da tarde daquela segunda-feira para milhares de ouvintes no Vale do Itajaí.
Quando ouvi a primeira vez, veio a sensação incontrolável de qualquer amante do rádio e da história, no misto dos dois: estavamos ouvindo em voz clara uma Blumenau gravada e registrada em algum momento de seis décadas atrás.
De longe e sem medo de errar: nos registros radiofônicos, o mais antigo guardado (ou salvo) em nossa cidade em todos os tempos (espero, até o momento).
Faz alguns anos que esta fita com cheiro de raridade surgiu nas midias digitais dos nossos dias. Foi descoberta de um músico, o baterista Marcos Basilio de Oliveira, da lendária Grifo, que encontrou o registro em posse de Celso Lungershausen, filho do saudoso Jago Lungershausen, o outrora proprietário da tradicional Casa Peiter.
O já à época tradicional e veterano nome comercial fundado por Richard Peiter em 1925 vivia um momento singular naquela segunda-feira, 9 de novembro de 1964. Anos passados no já acanhado espaço na esquina da Rua Ângelo Dias pediam uma nova instalação, a cara da modernidade que não perdia o classicismo de gerações acostumadas ao referencial do lugar no setor de tecidos, moda e armarinhos.
Em se falando em moda, a Casa Peiter sempre foi vanguarda. Foi por ela que Blumenau se projetou a frente na então jovem alta costura do estado. Na filial, aberta em 1946 no imponente Edifício da Mutua Catarinense de Seguros Gerais (o Edificio Mutua), a seção de modas trazia dos grandes centros os desenhos e tendências, exibidos no vitrinismo e nos sofisticados desfiles nos corredores do espaço.
Era a vez da matriz voltar para o futuro, alinhar-se ao moderno e ser o reflexo de uma cidade que crescia mirando o que vinha de fora. O projeto arquitetônico do novo edifício não deixava dúvidas desta busca pela modernidade, algo nunca visto numa Rua XV ainda tão provinciana.
Adjetivos que iam ao "maravilhosa", "coisa nunca vista", "moderno a altura da cidade" sobravam no microfone do saudoso Nelson Rosembrock que, momentos antes da inauguração, colhia as impressões de funcionários, jornalistas e autoridades que aguardavam a cerimônia de inauguração.
Era o tempo em que o "Picape da Frigideira" era a vedete do dial. A pioneira Rádio Clube de Blumenau ainda operava no prefixo PRC-4, os 1330 do AM ainda eram medidos em kilociclos e o teste de retorno era feito ao vivo, perguntando diretamente ao estúdio sobre o retorno de som.
Um deleite para o misto da história da comunicação. O tempo de ouro das Emissoras Coligadas de Santa Catarina ainda antes da televisão, o trabalho conjunto de Clube e Difusora, a linguagem clássica, maneirismos verbais e o mais precioso: o registro de vozes históricas, personalidades vistas em nomes de ruas e monumentos, incluindo as de Nelson e do saudoso homem do "Salve a Banda", Edemir de Souza.
Aos que leram este intróito confessadamente longo até aqui, o conselho é deixar-se levar pelo clima. Usar a imaginação e criar as cenas de algo que, teoricamente, apenas as fotos nos contariam não fosse Marcos encontrar este rolo de 1h20 recheado de reflexos de história de Blumenau.
Ao dar o play, seja bem-vindo novamente a Casa Peiter e aos 1330 kilociclos da PRC-4.
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