
Wolff, meu caro colega, ex-professor, amigo de alguma saudade. Me permita usar das linhas de teu livro para recontar algo que enche os olhos de qualquer saudosista.
E eu sempre digo para mim mesmo: quando recordamos algo que vivemos, sempre arrepia mais. A memória é mais vívida do que algo ainda mais além de nosso tempo de vida.
Era criança, um domingo de manhã, Globo Rural ainda no ar. Toda a casa já acesa, hora do café.
Meu pai, de TV ligada na sala, talvez não tivesse notado o que aparecia no plantão. Notícias de um avião que havia mergulhado no denso verde da Serra da Cantareira com cinco "malucos" a bordo e que, de lá, não mais sairiam.
Dinho, Bento Hinoto, os irmãos Samuel e Sérgio Reoli e Júlio Rasec.
Garotos malucos de Guarulhos, grande São Paulo, desses que o Rock morde quando é cedo ainda.
Cedo também se esbarraram e começaram a bater cabeça no som. Utopia era o nome da trupe. Sonhos mil, fama nenhuma exceto no círculo que tinham consigo.
Utopia talvez fosse sonhar tão alto com agendas recheadas de shows lotados, gravações, merchandising, uma imagem irreverente e descontraída ao extremo, beirando o ácido nas letras e o pesado nas melodias.
Utopia virou Mamonas, Mamonas Assassinas, o maior assalto que a música brasileira teve em últimos tempos. A colocação perfeita da máxima romana do "Veni, vidi, vici" (Vim, vi, venci).
Mas a minha inocencia de infância era superficial demais para entender a profundidade de tudo aquilo. Na mente só circulavam os versos pesados e intensos de "Pelados em Santos", "O Vira" "Robocop Gay" e por ai afora. Tudo muito fresco, muito recente.
Em algum lugar longe dali, tenho certeza que Fabrício Wolff estava mais chocado do que eu. O jornalista gaúcho que fez de Blumenau sua casa e "balão de ensaio" para transformar de vez a cena jovem da pacata cidade da Oktoberfest daqueles tempo.
Ele e Nico, tinhosos e ousados. Bater com Rock na casa do alemão parecia ofensa. Mas não fosse isso, o sempre recordado Skol Rock não teria incendiado a Prainha entre 1994 e 1996. O desafio de quebrar paradigmas e colocar nosso pequeno feudo no mapa do Rock nacional.
Não cabe recordar tudo. O livro escrito por Fabrício já o faz tão bem que este colunista jamais o faria igual. Mas tem passagens que envelhecem quase como escrita fantástica nas páginas blumenauenses. Tudo liga o jovem jornalista roqueiro e o quinteto de Guarulhos.
Skol Rock de 1995, aquele das mil fotos e imagens de Caio Santos (algumas uso aqui).
O auge, agenda cheia, grandes nomes, tudo corre bem. E na mesa de Wolff, os tais garotos de Guarulhos que despontavam nas rádios jovens brasileiras.
Cachê de acordo com o momento: R$ 8 mil, não é pra tanto. Segue o jogo.
E numa tarde para noite, 22 de outubro, naquelas rodas do organizador na área externa do evento, o choque de realdiade que diz muito sobre uma avaliação errática que ainda tinha tempo de virar acerto: carros enfileirados no esquenta, porta-malas abertos, "O Vira" dos garotos paulistas cortando as conversas da juventude transviada nas vielas da Ponta Aguda.
Os recados martelavam Wolff. No rádio, no som, na boca da turma do entono. Não dá pra fugir da prova real: os Mamonas Assassinas eram sucesso, fenômeno, "estava com eles nas mãos e chutei por tão pouco". Hora de virar o jogo.
Dias de negociação e convites. A Skol nega, não tem mais grana, fazer como?
O cachê? repito, "de acordo com o momento". E o momento já pedia R$ 19 mil. O valor subiu. Paga-se o risco?
E foi! R$ 3 pila na catraca e, entre arranjos e uma ponte pós show entre Blumenau e Florianópolis, estava fechado. Os Mamonas viriam a Blumenau no seu auge, no florescer do Rock mais ácido e irreverente que podiamos ouvir.
Chega a trupe, a trupe pisa na Prainha. Praça apinhada de gente, a Praça, as poucas árvores, o silencioso Vapor Blumenau, os testemunhas de que a curva do rio virou um pavilhão da Proeb em noite de sábado do segundo fim de semana da Oktoberfest.
As grades não aguentavam, gritos e choros de emoção. A deliciosa sensação da vitória no tempo certo, nas feições de Wolff, não se viam. A tensão era palpável, começa logo e termina logo.
E Dinho, o Robin nacional, seus comparças, lá vão eles. A loucura, a graça, os "Creuzebeck" diante da alemoada (e afins) que, não duvido, fez a Prainha tremer como nunca.





Quando tudo acabou, fez-se a ponte para os moleques. Solicitos, animados, figuraças e felizes, assim como o povo que deixou a curva do rio num extasio que faz emocionar marmanjos e senhoras de hoje. Aqueles que podem dizer "eu vi os Mamonas ao vivo".
Foram R$ 19 mil que se pagaram com aquela expressão do "fizemos história". Antes, o Utopia que tocava no Morro Azul, em Timbó, em busca de algo anos antes. Agora, os tais Mamonas que arrastavam multidões num acorde simples.
Multidão? Os anais da CNT comprovam o que parece bobagem ao falar por ai: foi aqui, neste feudo, que os Mamonas Assassinas fizeram seu maior público enquanto estavam entre nós. O Diário Catarinense chutou 70 mil com muito exagero, mas não era pra tanto, embora era um mar de gente autêntico.
Dias depois, um favor: na perna de viagem à Rio do Sul para um show, uma parada para almoçar em Blumenau. Já naquela feição de que tinham "contatos e amigos" por aqui.
Em tempo: o cache? novamente, "de acordo com o momento": R$ 40 mil para subir o Vale.
Teve bate-bola no Quero-Quero, mais risos e novidades e um almoço de lorde no Moínho do Vale cercados de fãs, de leveza e de agenda cheia no horizonte daqueles delinquentes da música.
De lá, nunca mais pisaram em Blumenau. E a pacata terra da Oktoberfest talvez não imaginasse, naquela dia na curva de rio mais famosa do Vale, que era mesmo a última vez.
O domingo foi pesado, o país não se acreditava e aqueles alucinados de outrora, gritando no pé do palco na Prainha (e em outros palcos do Brasil) balbuciavam "Pelados em Santos" como uma marcha fúnebre, sem acreditar no choque. Choque de uma geração.
Ouvi, jocosamente, de uma prima minha que "culturalmente, não perdemos nada". Concordo certamente, mas as gerações se movem por sons e momentos, do Rock de Elvis, Beatles, Discotheque, o dito flashback e tudo mais que a musica faz cantar e dançar até hoje.
E o Mamonas Assassinas foi um destes movimentos. Embora efêmero, mas o suficiente para deixar lembranças em quem viveu e curiosidade dos que descobrem o que um louco vestido de Robin e comparsas de trupe trajados de presidiários puderam fazer num palco.
Quis a sorte de um momento, uma reavaliação nas curvas da Ponta Aguda, para que os saudosistas dissessem com um ar de incredulidade e certo revanchismo ante a cidade conservadora de nossos dias: "é, os Mamonas Assassinas tocaram aqui".
Esses tais Mamonas Assassinas na terra da Oktoberfest...
História para sempre.
Valeu, Wolff!
(Fotos / Videos: Caio Santos, Antigamente em Blumenau, Tony Cachorrão, RBS/Santa, Fã Clube Bento Hinoto)
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