
Exceções.
Quando elas aparecem, não tem como elas não chamarem atenção no contexto de algo.
Se abre exceção, condição, exclui-se algo para benefício ou manutenção. As vezes soam bem, as vezes nem tanto, as vezes coçam a cabeça ou até destacam determinada pessoa, local, fato, o que for.
Exceções, em contexto histórico, mais servem para preservar ou manter o ambiente, o status criado sem a intromissão de algo que, radicalmente, muda o ambiente, cria "algo estranho" que foge do construído com o tempo.
Quem passa pela Rua das Palmeiras, vê a nova megaloja da Havan nascendo. Outro dos pães quentes de Luciano Hang emergindo da terra para, logo logo, tornar-se outro ponto de compras e encontro como tantos que o empresário brusquense tem pelo país.
Admito e claro, fui contra o instalar ali. Sigo a mesma ideia do colega de "infortúnio", Airton Floriani: era lugar para algum aparelho de uso público, mas quem somos nós na roda comercial e do tão falado progresso? Apenas formigas observando.
O projeto foi aprovado, mas nada de uma outra "casa branca" no lugar, com a sua copia-carbono da famosa estátua da liberdade a frente. Outra exceção da grande rede lojista brusquense em nosso feudo.
Outra, claro. Mais uma vez, Hang não terá uma casa branca em Blumenau e nem mesmo a réplica do presente francês aos estadunidenses não adornará uma de suas lojas como o faz por aqui a frente do Norte Shopping.
Alivio, a regulação do projeto arquitetônico da megaloja no Centro Histórico pediu duas coisas principais: algo que seja adaptado a proposta de história (ou seja, um "enxaimel") e nada de uma estátua daquele tamanho por ali.
Isto dito, isto está sendo feito. Nada fora da virgula, e não é a primeira vez que a ideia aparece a pampa no caminho da empresa de Hang. E na última por aqui, também foi uma exceção a regra daquelas que encaixou certinho sem mudar virgulas a bel-prazer da ideia.
A primeira exceção é, até hoje, um daqueles marcos reconheciveis da Rua XV que qualquer um aponta sem muito esforço. Projeto do arquiteto Henrich Herwig segundo a ideia do empresário Udo Schadrack, surgia em 1978 um castelo no meio da "rua da linguiça".
Um conceito pleno, mesmo fabricado em cimento e emulando um enxaimel que, mais a frente naqueles tempos, seria um dos inspiradores da tal lei de incentivo que concedia descontos no IPTU a quem imitasse a técnica de construção típica germânica.
Aos de coração respirando história, observar a Havan instalada no castelinho é um mero detalhe de uso. Referenciar-se a ele ainda hoje como o "castelinho da Moellmann" não é errado, apenas ajuda a reforçar a marca da velha marca lojista que, anteriormente, era a referencia daquele local.
A Moellmann Comercial S.A., empresa fundada por Carl Moellmann na então Desterro (Florianópolis) em 25 de outubro de 1869, era especialistano seguimento de ferragens, tintas, ferramentas diversas e outros produtos de construção e manutenção.
A empresa chegaria em Blumenau quase cinco décadas depois, em 1919, no mesmo endereço do icônico castelinho, em um prédio mais condizente a arquitetura daqueles tempos. E a iniciativa foi tão boa que, dois anos depois, a família Moellmann trocaria a capital pelo Vale e, ali naquele ponto, firmaria sua base principal.
O boom turistico de outros tempos e a rápida modificação da Rua XV para atender aos visitantes de longe como uma via que respirasse também um ar de mais "aconchego como a casa da oma", fizeram a agora matriz da Moellmann estudar um novo caminho: se inserir no ambiente de uma forma única, diferente de tudo.
A ideia de Schadrack e a criatividade arquitetônica de Herwig, que já tinha traçado as linhas do projeto do Restaurante Frohsinn, quase uma década atrás, encontraram referencia no prédio acanhado e típico da prefeitura da cidade alemã de Michelstaedt. Um casebre de 1484 que, até hoje, resiste ao passar do tempo, dos kaisers a moderna Alemanha atual.
Nasceu o castelinho, a loja de presentes, e a Moellmann virou bem mais que referencia comercial. Ela estampava cartões postais, fotos de jornais, matérias de TV e, até mesmo, fazia fundo dramático em tempos de enchente como as de 1983 e 1984.
No entanto, o castelinho ficou e a Moellmann se foi. Em fins dos anos 1990, a empresa do velho Carl não resistia as mudanças econômicas e saiu de cena com tantos outros grandes nomes que corriam a XV naquele período e que revelavam a crise que levou Blumenau a ganhar a alcunha infame de "latinha", sem maiores explicações.



Largado ao ócio, virou residência do Papai Noel nos tempos do "Natal em Blumenau" quando estava sob propriedade da Malwee e serviu de QG para as festividades dos 150 anos. Foi tombado como patrimônio histórico pela Fundação Catarinense de Cultura, mesmo que a ociosidade já dava seus sinais de degradação.
É neste capítulo de incerteza que entra a Havan no caminho da velha casa comercial. Já com a estrutura renovada em uma reforma anterior, a rede varejista brusquense encontrou no castelinho uma chance de colocar a marca em evidencia da forma mais original que o próprio roteiro padrão que vinha escrevendo há algum tempo.
Não era uma casa branca e tampouco teria a estatua da liberdade marcante na fachada (nem poderia). Era um ponto digno de cartão postal, fotografável até os dias de hoje, referencia entre o alto e o "baixo" da Rua XV, com uma história embarcada que carrega consigo vários períodos de uma Blumenau em constante mudança.
O castelo de linhas imponentes e simpáticas, mesmo em “falso enxaimel”, é a marca de uma cidade que, mesmo moderna, não deixa de olhar para trás nas origens que a construíram.
Da visão sonhadora de Schadrack e Herwig, nasceu uma obra que arranca suspiros até dos incautos e enche de orgulho uma cidade que tem, no coração agitado do centro, um recorte de identidade germânica impresso em tijolos, aço, tinta e criatividade.
Uma exceção a regra das casas brancas, como a que nasce no Stadtplatz, mas que Hang não sorria amarelo com elas. Fazer parte da história cotidiana com uma exceção a regra é tão nobre quando uma cópia da propria ideia.
E aqui em Blumenau não há casas brancas. O enxaimel - mesmo o fake - ainda é regra.
O castelinho que o diga.
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