
Quando você tem um rico conteúdo histórico a seu favor, é completamente favorável você utiliza-lo não apenas pela auto-promoção de uma empresa, iniciativa ou evento, mas também como forma de reforçar a imagem tradicional e o que ela simboliza para determinada comunidade.
Não a toa, a difusão de pesquisas e curiosidades históricas tem tido, inclusive, o apoio de grandes empresas e eventos que buscam nisso uma forma de atrelar sua imagem a tradição e trajetória criando a ligação mais próxima na comunidade em que existe.
Mas há coisas que me surpreendem ainda hoje, e creio que não seja apenas eu a ter esta percepção no que diz respeito a leitura e tradução da história de determinadas empresas e eventos para seus adeptos e colaboradores: é quando você tem nomenclatura histórica, comprovações de ligação geracional e, simplesmente, não as usa como deveria ou nem as usa a seu favor.
Não é surpresa pra ninguém que, de fora das linhas jornalísticas, sou torcedor do Blumenau Esporte Clube (BEC). E justamente por ele ter feito parte do universo da minha geração, somada a tradição e história que o nome e seu passado trazem que me fazem gritar gol e defende-lo onde vou.
Ridículo confessar isto ao leitor? Mais ridiculo seria não agir de imparcialidade quando falo do BEC ou quando falo do Metropolitano, seja o elogio ou a crítica, quando necessários.
Mas por que falo do BEC neste contexto? É que é necessário criticar, nesta feita, algo que não apenas este escriba como muitos torcedores tem reparado constantemente: como o clube, cuja continuação histórica legitimada pela torcida que tem, não faz uso da identidade que construiu nos gramados e nas gerações de torcedores que se sucederam.
E falo em "legitimação da continuidade histórica" pois é ridículo e sem fudamento basear uma rivalidade construída com o lado verde da cidade
colocando fatos juridicos (leia-se o CNPJ da atual SAF) como fator de debate. Fosse assim, casos do futebol italiano - que não vê interrupção na história mesmo em casos de falência, como o tradicional Parma - se enquadrariam na mesma fórmula.
Mas nessa análise, isto não importa. O que importa é como o BEC tem deixado de usar a própria história a seu favor. Se tenta usa-la, são inciativas muito pequenas e pouco incisivas para colocar este elemento como verdadeiro fator no meio da rivalidade e no meio da cultura futebolistica da cidade, tão batida como conhecemos há tempos.
Ano passado, o clube deu um tiro certeiro no fator saudosista e geracional que cerca o torcedor tricolor: a tradicional Teka voltou a estampar sua marca na camisa do escrete como fizera nos anos 1980, conquistando a simpatia e a saudade de tantos que enxergam esta continuação histórica como parte da ligação de gerações do clube com sua torcida, da mais "experiente" a mais nova nas arquibancadas.

Mas, ficou nisto. E, recentemente, o lançamento do uniforme para a temporada 2026 nas redes sociais passou bem longe de ligar esta identidade histórica com a história de fato, como se a equipe de marketing baseou sua pesquisa em algo rasteiro e sem ligação com uma trajetória de mais de 100 anos, contando o tempo de Brasil/Palmeiras.
Se a torcida dá direito de uso desta memória, então use-a como deve. Craques e momentos do passado passam literalmente batidos, quando muito lembrados ocasionalmente. Nenhum deles, nem em foto, constam no video de lançamento e pouco se é recordado das passagens do clube pelas redes sociais e nas próprias ações de ativação do time.
Observar uma ação de lançamento na torre da Catedral (que é presente no brasão clássico do Metropolitano) é um dos erros de rota, por exemplo. Numa ação desta, a exploração da memória passada deveria estar na Rua das Palmeiras, mesmo que o velho Adherbal Ramos da Silva não esteja mais lá. É um canto "vazio", mas que ainda mexe com os brios saudosos de qualquer torcedor tricolor, ainda mais os das arquibancadas antigas.
E outro ponto a se observar é, agora, elogiando o trabalho do rival. Usar-se do terno "o clube do povo de Blumenau" foi uma jogada sábia do Metrô, que tem reforçado esse laço entre passado e presente muito bem nos últimos tempos, incluindo uniformes com toques clássicos e o recente resgate do primeiro escudo do time (na opinião deste escriba, bem mais representativo que o atual).
Para um torcedor, é claro que vai soar errático, e quem conhece o passado histórico do BEC sabe que a ligação popular do time tricolor nos tempos de Brasil/Palmeiras é profunda. Uma das principais torcidas do time naquele tempo vinha de uma das comunidades mais marginalizadas da história blumenauense: a Farroupilha, formada nos morros da Ponta Aguda por operários, sobretudo da antiga Estrada de Ferro Santa Catarina (EFSC).
Era no futebol que esta ruidosa massa de torcedores encontrava sua alegria de fim de semana nos derbis de Palmeiras e Olímpico. Era o duelo entre o time do povo contra a elite da Alameda Rio Branco que movimentava e dava canto nas arquibancadas do Deba nas tardes de futebol, seja no citadino ou no estadual, onde o próprio Palmeiras acumulou quatro vices-campeonatos antes da criação do BEC, em 1980.
Mas, por mais duro que seja para qualquer torcedor (ou talvez uma briga desnecessária) o uso da alcunha "time do povo" é parte da identidade de um clube que se pretende identificar-se como "mais próximo da sua torcida". E o Metrô, mesmo com jovens 25 anos de memória, está sabendo muito bem fazer esta articulação entre história e identidade.

Não é algo que não se corrija e não serve apenas de exemplo para o BEC, mas ligar o ontem ao hoje não serve apenas para engajar e chamar seguidores. Numa cidade que carece de iniciativas privadas e de arquivos pessoais para recontar elementos da própria história, explorar antigos livros, filmes e o rico conteúdo de personagens do passado não é exagero, é conteúdo e criação de ligações entre entidade e quem a cerca.
Há tempo de corrigir a rota, valorizar antigos nomes (não só Chicão e Cesar Paulista, claro) e revisitar momentos que façam, de fato, a ligação do ontem com o hoje. Isso não passa por formalismos de CNPJ ou constituição de SAF, trata-se de apresentar a nova geração um passado de boa teimosia no esporte bretão, que ainda persiste numa cidade que pretende ter no futebol o mesmo sucesso que tem em cada JASC da vida.
Envergar a camisa tricolor (a autêntica e histórica, de três cores na estampa) não é apenas torcer para um clube que leva o nome da cidade, mas remontar um passado escrito e legitimado para uso pela própria torcida. Mas contar esta história sozinho às novas gerações não é nada se quem a escreveu não o fizer.
História não fica na gaveta, mas na mente de quem a valoriza. E no campo, o peso dela é igual ao de um gol decisivo, e fica para sempre.
De torcedor para clube, fica a dica, BEC.
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