
No pequeno feudo germânico de Dr. Hermann, há nomenclaturas que representam alguma forma de gênese na rica história escrita ao longo do tempo.
Estes nomes são ecos eternos. Termo exagerado mas não errático, uma vez que, ao repeti-los, emanamos a grandeza e importância de tal personagem na escrita de algo que, hoje, parece tão grande ou, em vezes, tão "do passado" quanto a menção simples pode dizer.
Ano passado, tive a chance primeira, durante o serviço de locução de palco, de chamar ao trabalho uma legenda destas que enche pavilhão de Oktoberfest sem muito esforço ou grito: Banda Cavalinho.
Cinco décadas, inúmeras páginas, sucessos, histórias e algo que beira a apoteose máxima em qualquer esfera da música feita com base germânica neste feudo.
Luzes brilhantes, dançarinas reproduzindo em pés e cintura cada movimento musical.
O vigor dos músicos, a platéia hipnotizada. A calma do Dias, entre feições serias e sorridentes, no correr de plenas quatro horas de mais uma noite.
E na insignificancia de um observador, em meio a este baile quase cósmico regado a chope, viro o livro de histórias com a mesma feição curiosa da origem que paira todas as nomenclaturas da atualidade no filão germânico musical.
Rikobert Döring. Garoto franzino e sonhador, timboense da Mulde Central. Filho de Hermann e Ida Döring. Nascido antes da guerra e cuja curiosidade da vida na adolescencia, talvez motivado por alguma pequena orquestra das noites daquele rincão, o fez trocar uma bicicleta por um acordeon.
O pequeno-grande Rikobert e sua mala cheia de musica e sonho, encontrou guarida musical na Blumenau vizinha, tendo em Franz Baumgarten um grande padrinho. Do aprendizado para a lida de uma banda, o "Conjunto Musical do Studio Universal", os primeiros bailes, as primeiras longas noites de festa e música.
De parte de uma banda para aquilo que podia chamar de "sua banda". Rikobert, o timboense, virou Rigo, e seu nome assinava com referencia a muitos contratantes e ouvintes assíduos dos velhos salões.
Naquele ido de inocencia, Blumenau e o entorno não tinham no horizonte o som possante e as luzes brilhantes para cintilar bailes.
Quem tocava, muitas vezes, o fazia no gogó pleno e no fôlego possível, no movimento muscular que percussionava baterias e marcava a melodia no abre-e-fecha de um acordeon vigoroso.

Rigo tinha o acordeon no peito e puxava bailes com seu vigor e alegria marcantes. Tão raro, podia se dizer, ver um "alemão batata" com riso frouxo e ânimo para puxar bailes ditos inesquecíveis pelos cabelos-brancos ainda vivos de nossos dias.
A simplicidade de melodia parecia uma marca de sua música. Nas pequenas formações musicais que integrava, Rigo dava o brilho em meio ao simples, abrilhantando na raíz o ambiente que devia, por lei, ter o aroma dos pequenos e animados kerbs da Alemanha raíz.
Foi assim que o som animado e ainda de crueza bela chegou aos restaurantes, e de um deles, sairia sua obra maior.
Abril de 1973. A velha materinadade Johannastift trocava o choro de alegria do nascimento pela emoção alegre de uma noite de kerb. O Cavalinho Branco, ou puramente "Im Weissen Rössl" (No Cavalo Branco).
O grande prédio ao fim da Alameda Rio Branco, graças ao idealismo sempre ligado ao teor germânico de Antônio Pedro e Marga Holzmann Nunes, era talvez o primeiro pavilhão típico que a cidade tinha criado.
Escadarias, esquinas decoradas, gastronomia apurada, chope seguindo a lei a risca e música.
Musica de Rigo, dele e mais três companheiros de lida que, na música, fizeram sua profissão e a construção de um nome tão grande quanto o restaurante.
Eles e seus coletes vermelhos se tornaram marca musical tão grande e tão pessoal que estar no Cavalinho Branco não era mais um ambiente, mas a posse de um rótulo nascido de uma opereta alemã (algo mais musical, desconheço).
Cinco anos depois, viria o primeiro LP, ainda de gravação simples e que trazia impressa a marca musical do conjunto: melodias simples, fortemente alemão e que ainda pouco utilizava recursos ditos "elétricos", mas já enchia ouvidos de quem apreciava o filão germanico com ávidez.
Do restaurante, para outros espaços, até mesmo as ruas. A fachada da clássica Moellmann, em fins de semana e dias especiais, não seria mais um simples canto de compras sem ter, embalando o vai-e-vem da Rua XV, os acordes e sons de Rigo e seu conjunto.
O nome do restaurante passou a ser a marca. A referencia ao animado quarteto e sua musica caracteristica. Era como uma extensão do próprio restaurante, um convite ambulante não só a uma experiência gastronômica, mas a verdadeira experiência germânica marcada no som do conjunto de coletes vermelhos.
Rigo chegou ao ápice. De lá até hoje, o nome crescido entre os montes do interior de Timbó era quase uma bênção nas aparições que fazia, e sempre que possível acompanhado do velho colete vermelho.
Conduziu coros, contribuiu com a banda municipal, recebeu louros e merecidas homenagens. E, na roda evolutiva, assistiu, com o passar do tempo, o cavalinho que o acompanhava virar um alazão furioso, ávido por platéias, moderno sem perder a gênese do fundador.

Talvez seja por isso que, para mim ou qualquer outro que ligue os pontos da história de Blumenau a qualquer momento, uma noite de show e apoteose musical da Banda Cavalinho não seja apenas um tempo passado em dança e chope. Seria básico e fulgaz demais pensar assim.
A Cavalinho de hoje é fruto de continuadores que, no mesmo espírito de persistência de Rigo, souberam evoluir sem esquecer de onde vieram. Das bases, das origens, da amplitude ganha com a vinda de pedaços genuinamente alemães dentro de sua formação ao longo do tempo.
E a reverencia a esta nomenclatura não é exagerada e nem deve ser menosprezada por vaidades. Bandas que compartilham trajetória e noites constantes de trabalho e som sabem que a construção de uma história sólida e de referencia nasceram da seriedade e compromisso de um ou mais executores que, nos livros, são o ponto de começo de tudo.
Marquinhos não estaria na bateria há mais de três décadas.
Alois e Michael seriam apenas alemães sonhando com música no Vale brasileiro.
Não nasceria um alemão de Blumenau, uma marreca, um brinde e mil e um hinos para carros alegórios.
A dança das moças talvez não tivesse o mesmo embalo cativante e alucinante.
O Dias não sorriria no antes e depois de um show com a mesma satisfação de ser parte de uma história de uma noite a mais.
E a música tipo germânica de Blumenau? O tal do "chucrute music"?
História tem um referencial, um ponto inicial. Pra um pedaço dela e para tudo.
E Rigo, numa gênese de tanto, é um elemento que jamais será dissociado da construção do que, hoje, você pula, canta, dança e "lava bem, lava bem" toda noite de Oktoberfest e afins.
No pequeno feudo germânico de Dr. Hermann, há nomenclaturas que representam alguma forma de gênese na rica história escrita ao longo do tempo.
E em algum lugar dos setores da Vila Germânica, talvez um colete vermelho circulará mentalmente ou misticamente, diante da obra que ajudou a criar a cada noite de Cavalinho.
Danke, Rigo!

(Fotos e fontes: Antigamente em Blumenau e blog de Angelina Wittmann)
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