
Carnaval...
A palava que traduz, puramente, festa popular no dicionario brasileiro
O motivo de amor e ódio para quem vive no sul, em Santa Catarina, no Vale.
Primeira reação de muitos é não gostar, execrar, odiar e, a mais rasteira e sem respaldo histórico e social: argumentar que "nunca existiu".
Os recentes embates que colocam o suco da política no meio de qualquer resenha semanal ajudaram, com o passar do tempo, a demonizar ainda mais a festa popular de Momo nas rodas da região. E há quem vá ao extremo de defenestrar até mesmo o feriado: odiado pelos puritanos do trabalho mas apreciado pelos chefes que aproveitam a chance de folgar.
Gostando ou não, o carnaval que conhecemos veio da Europa antiga e, como o futebol, teve no Brasil aquilo que se chama de "aperfeiçoamento". Tomou ares de gigantismo, trafega entre a elite e o popular sem ruidos visiveis, congrega aqueles que aguardam ansiosos para pula-lo onde quer que ele aconteça.
E mesmo que, desde o prímeiro parágrafo, você torça o nariz para ele e ainda tenta convencer-me que ele não existe por aqui, de fato não é o caso de não existir, mas transformar-se em algo nichado, isolado e relegado a iniciativa de poucos que ainda levantam a bandeira da festa contra a ignorância das falas sem fundamento.
Blumenau e carnaval já combinaram bem mais do que os tempos de hoje. Muitos de gerações passadas (e não muito passadas disso) ainda recordam as grandes festas em casas como Rivage, Sub e em outros vários salões da cidade, indo dos infantis, dos jovens e mais popular até a elite com seus sofisticados bailes a lá Veneza.
Somam-se as histórias, por vezes contidas, de festas inesquecíveis onde podia não ter tanto confete e serpentina voando, mas o clima de brincadeira e fantasia ainda rolava entremeado por aquela bagunça "organizada" que permeia até mesmo os blocos de grandes centros, dadas as suas proporções.
Virando os livros de história, é possível até encontrar manifestações do carnaval que não se restringiam apenas aos salões clássicos de outrora. Relatos da professora Sueli Petry, matérias do antiquíssimo Blumenauer Zeitung, fotos de época, o que se conta era a aventura dos ditos "Filhos do Inferno" pelas ruas da cidade nos dias da festa de Momo.
Registros pioneiros datam de 1885, quando o grande momento esperado pela jovem cidade era o Baile de Mascaras promovido na Sociedade de Atiradores, atual Tabajara Tenis Clube, com todas as regras de um baile social permeadas pelas cores da celebração.





Logo, os bailes carnavalescos não ficariam exatamente restritos a um lugar apenas. Viraram tradição, costume e motivo de aguardo quando a época chegava. Os "Filhos do Inferno" citado acima furaram a bolha dos bailes e levaram o caranaval ás ruas, primeiro em carroças decoradas, e anos depois em primitivos carros conversiveis com fitas, risos e "puxadores".
A festa de 1897 foi o ponto inicial da folia na rua, e nos anos seguintes lá estava a XV com seu cortejo, seus foliões e sua "bagunça organizada" para satirizar a realidade, rir da vida e festejar sem o compromisso das regras de salão. Era a essência natural do carnaval que o Brasil e a própria Europa seguiam: uma celebração com a critica pública e o riso incontido das fantasias.
O período da guerra freou todo um processo cultural natural. De lá para cá, nem mesmo o ânimo das marchinhas e as novas formas de pular o carnaval sustentaram a festa, relegada a iniciativas isoladas e que, com o passar do tempo, foram ganhando o ar de "subversívas" dentro de uma lógica que fazia crer que a cidade, outrora colorida pelo confete e serpentina, "não gostava e nunca gostou de folia".
O carnaval blumenauense, oculto pela seridade imposta, virou página de história e está sendo exposto, em alguns elementos, no próprio Arquivo Histórico da cidade até o próximo dia 27/02. São documentos, elementos e detalhes do que a capital da cerveja já promoveu - e sem receios - quando fevereiro chegava. Pouco, mas ainda assim necessário para se conhecer sem preconceitos.
Infelizmente, uma exposição não é suficiente quando a festa maior é suprimida das ruas, onde ela é a vedete maior. Enquanto reverenciamos o passado em museu, lamentamos o presente com a notícia da não-realização do desfile anual da já tradicional Mocidade Unidos do Salto do Norte. A única, a resistente, aquela que ainda teima (e no bom sentido) em fazer o carnaval como ele deveria ser.
Relegada as ruas de suas cercanias e sem o apoio concreto da prefeitura (que justifica-se como apoiadora sempre que questionada), a escola não coloca o bloco na rua justo no ano que completa duas décadas de resistência por meio do samba e do carnaval. Um triste descaso que não merece este tipo de tratamento segregado, como um ator diferente no meio do chopp, dos fritz e frida de todo dia.
A expectativa de uma volta da escola em 2027, por mais alentadora, não deixa de permear no ar o receio de que nada aconteça de concreto novamente. Justificar apoio com cifras não é concreto para uma cidade que busca ser mais plural na cultura em todas as suas frentes e não apenas nas demonstrações tradicionais de todo outubro.
A Mocidade não saiu a rua para falar de coisas de Blumenau ou outras mais. Mas Blumenau, que nega o carnaval nas rodas mais radicais, já foi pra avenida em tempos antigos e pela mão de uma escola de samba do Rio. Achado do colega históriador e xará André Cantoni revela a presença de vários grupos folcloricos justamente no palco maior do samba carioca: a Sapucai, no distante 1994.
Embalada pela pequenina Acadêmicos do Engenho da Raínha, escola da zona norte carioca, e que defendia o enredo "Entre Festas e Fitas" (sobre as varias danças do chamado pau-de-fita pelo país), a reunião de grupos folcloricos da cidade levou pra avenida o Bandltanz, a forma da dança das fitas na cultura germânica. Era o desfile do Grupo de Acesso e o enredo, infelizmente, rendeu a escola apenas o 10º lugar geral.
Inimaginável, para o puritano pode soar "blasfêmia", mas nas cores caracteristicas de uma escola de samba carioca lá estavam elementos nossos, do nosso jeito e com o contraste que é fórmula do desfile carnavalesco propriamente dito: friz e frida, elementos da dança germânica e ela, a frente: a bandeira da Oktoberfest.
("Carnaval de Primeira" / CNT, 1994 | Minutos 22:45, 23,50, 28:07, 29:35 e 33:57)
Fitas, confetes, serpetina, Momo, arlequim e colombina. Este papo superado e tacanho de que nunca tivemos carnaval talvez não caia por terra tão cedo. No entanto, provas de que ele existiu, que já foi inspiração e que ainda resiste diante das negativas não deixa mentir que Blumenau, em alguns lugares e pessoas, ainda respira o carnaval que toma conta das esquinas de um país inteiro de fevereiro em fevereiro.
Dos salões, das ruas, da conexão com os centros maiores e das lembranças de quem viveu, por menor que fosse, uma noite de folia não deixam mentir ou ocultar a verdade que a história conta. No entanto, quanto ao gosto, não cabe dedos apontados de censura ou negação, de acusação ou de repreenda para quem se deixa levar atrás do trio elétrico.
Em algum lugar de Blumenau - e do Vale silencioso em algum fevereiro da vida - alguém pula o carnaval em sua fantasia e festa. Gostar não é obrigação, repreender é ignorância e festejar, seja em fevereiro ou outubro, é tão normal quanto.
Atrás do trio elétrico - e da história da folia da capital da cerveja - só não vai quem já morreu.
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