
Rosemeri me contou uma história (felizmente) incômoda...
Há tempos, as mãos coçam para escreve-la de alguma forma, quase num desmistificar de uma velha lenda que corria pelos corredores da imprensa da cidade: por que Blumenau demorou tanto para ter sua graduação superior de jornalismo?
Era um dia de almoço, galeto ao primo canto, raro luxo de um dia.
Professora Rosemeri Laurindo, naquele sobejo de alegria, me encontrou por lá. Cumprimentos e risos até chegar, quase sem querer, ao tema da conversa: "não fui seu aluno direto por pouco.
Sou egresso de jornalismo da hoje Unisociesc, que por anos atendeu pela sigla IBES (Instituto Blumenauense de Ensino Superior). Obra de Anselmo Medeiros e Waldecir Mengarda e que, no meu tempo de acadêmico, estava sendo acionada pela Sociesc, órgão nascido em Joinville e gestor de várias unidades educacionais pelo estado.
Foi do IBES a primazia do curso de Jornalismo em Blumenau. Turma de 2004, donde muitos que empunharam microfones, câmeras fotográficas, redigiram pautas e assessoraram empresas e pessoas saíram. Notável que, pelo mercado aparentemente mais consolidado do que pequeno, muitos daqueles não mais seguiram o rumo da imprensa.
É a lógica de qualquer turma de academia, não sendo exclusiva da comunicação: os que não se inserem no mercado ou não mais se veem encantados com a profissão buscam outros caminhos, e felizmente também são bem-sucedidos em grande parte.
Mas voltando ao tema, Rosemeri foi atuante em duas protagonistas do ensino de comunicação da cidade: esteve no pioneiro quadro de professores do IBES e foi a genitora da pasta na veterana FURB, cujo carinho deste colunista é igual. Por lá, foram oito meses de estágio, o último não acadêmico da casa a ocupar a assessoria de imprensa.
Tive mestres de estágio do naipe do veterano Michel Imme e Giovanna Pietrzacka, famosa pela coluna que assinava no Santa e professora da profissão de mão cheia. Não fiquei por lá por pouco, mas conheci os bastidores da velha universidade nascida do sonho e de uma tombola, um gigante de três campi e um Hospital Universitário, formadora de milhares de profissionais em várias áreas.
Meus primos por lá estudaram: sairam professoras, advogados, psicóloga e biólogo. E eu, egresso do "pequeno notável" IBES, que até 2014 era a única instituição que lecionava o jornalismo como deveria o ser. Um desafio numa cidade que viveu, por anos, abaixo do jornalismo quase informal, feito no peito, na raça e nos calos do dia a dia.
A pergunta mais mordaz sempre batia nas conversas minhas com Rosemeri: "por que a FURB não foi a primeira? Por que Blumenau demorou tanto?"
Estive na aula-magna de jornalismo da FURB. Atividade de aula, Fabricio Wolf "mudou a sala" por aquele dia e viramos representantes da Sociesc naquele momento. Rosemeri estava lá, estampando o semblante de vitória ao lado de sumidades como Antônio Hohfeldt e o saudoso José Marques de Melo, o cara que liamos nas referências dos artigos, primeiro doutor de jornalismo do país.
A FURB demorou, dizem que "ciumeiras" nos bastidores impediram que o curso nascesse bem antes. Outra lenda dá conta de um discurso inflamado (e necessário) do amigo e ex-reitor da instituição, professor João Natel, de que "o faria nem que fosse na pasta de saúde", onde ele era um dos docentes.
As negativas do tempo levaram o privilégio do esperado curso superior no ainda jovem IBES, obra do saudoso Fernando Arteche e de onde grande parte dos atuais profissionais vieram. Era superada a barreira da distância que separava o sonhador jornalista blumenauense das salas da Univali, em Itajaí, a única a manter um curso de jornalismo na região antes da instituição blumenauense.
E esta pergunta, por tempos, correu pelos bastidores da imprensa quase como uma lenda: por que não a FURB ser a pioneira? E não soando como deslize ou negligencia, mas mera curiosidade. Apesar do pioneirismo histórico de Blumenau no rádio e na TV e do nascimento de profissionais históricos em várias áreas da imprensa, foi de Florianópolis a primazia do primeiro curso de jornalismo do estado, na UFSC, em 1979.

Blumenau criou uma fina flor de profissionais, mas o embasamento teórico que as ruas não traziam sempre foi visto como algo desnecessário, irrelevante diante das relações construídas entre imprensa e fontes, sobretudo setores da indústria e comércio que pensavam na mesma forma. Nada que "os incomodasse" em questões mais espinhosas.
Questionar e ir a fundo na pauta, dentro dos preceitos teóricos e da boa prática, sempre foi o objetivo da profissão. Aprende-se na mesa da academia, pratica-se e acrescenta-se os calos da rua e das redações. Era uma preocupação da FURB pelo menos no começo da década de 1990, quando a ideia parecia mais possível.
À época, em matéria do jornal Cruzeiro do Vale de 6 de julho de 1990, discutia-se fortemente a criação do curso na grade de FURB, especialmente com a criação de uma comissão de oito membros pelo reitor daquele período, José Tafner, incluindo o anuncio das primeiras vagas já para o vestibular de janeiro do ano seguinte.
A matéria ainda destacou o "improviso" e o "despreparo" como fatores que justificavam a necessidade de implantação do curso, embora a preocupação com a especialização dos professores e o tipo de habilitação fossem dilemas a serem enfrentados pela dita comissão.
Ainda destaca a matéria a preocupação como o aparelhamento e o conteúdo das faculdades de jornalismo da época, mal condicionadas e vistas como "segunda opção" para quem era negativado no seu conhecimento em casas maiores ou outros cursos mais "famosos". Mas nada disso foi a justificativa que colocou o jornalismo na FURB por terra.
O escolhido na ciranda do futuro curso de comunicação social seria, em vez da raposa, o galo. Nascia o prestigiado curso de Publicidade e Propagada da casa, com todas suas tradições e inúmeros profissionais que por lá passaram. O jornalismo ficou e, segundo as palavras de Rosemeri naquele almoço, as pressões de classes entre a indústria e o comércio podem ter sido os fiéis que colocaram o ensino da imprensa na gaveta da FURB, direta ou indiretamente, por anos.
Resistências, desinteresses, o desânimo só não resistiu entre 2004 e 2014. Foram dez anos entre os acadêmicos que saíram com sua certificação da Sociesc e a criação do sonhado curso de Jornalismo da FURB, hoje o mais procurado da região e que resiste as cruéis oscilações causadas pelo informalismo das redes sociais, as fake news e o questionamento burro de muitos e, o pior, a falta de legitimação do diploma para exercício da profissão.
A revelação da professora colocou por terra a lenda da "proximidade entre FURB e Univali" como impeditivo. Era a própria cidade que, por detrás das cortinas, impedia e mascarava a necessidade de se profissionalizar a imprensa, sem desmerecimento dos que por ela militavam com seu brio antes, mas prepara-la para tempos modernos, de maior consumo das mídias e de questionamento diante da notícia do dia a dia.
Sai do almoço com um galeto no estômago e uma história por contar. Coisa de jornalista, ainda mais quando a história é a pauta pela qual milito até hoje. E a história passa pelo jornalismo que a escreve, registra e preserva, entre suas vitórias e derrotas do dia.
Com isso, são 13 anos de imprensa e contando: o tempo, o rádio e a história de Blumenau, a que se merece preservar e, talvez, aquela que não se quer ouvir.
Espero que, na academia de jornalismo da capital da cerveja, sempre lembrem: seja responsável e trabalhe com simplicidade e retidão, mas não esqueça que seu diploma, por mais que não seja válido ao olho da política, ainda norteia sua ética e sua responsabilidade assimilados em sala.
E felizmente, numa sala de Blumenau, ainda que tardia.
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