
Houve um tempo em que navegar e apreciar o sacolejo das águas de um rio entre uma garfada e outra no almoço ou jantar era uma atividade concorrida, elegante e divertida.
Não foram poucas as iniciativas que existiram no Brasil de restaurantes flutuantes montados sob barcos possantes que rasgavam rios ou orlas marítimas promovendo este tipo de experiência gastronômica que, hoje, mais soa como símbolo de um tempo passado.
Lembro vagamente do antigo Arca do Iguaçu, um destes barcos-restaurante que era muito procurado na antiga Curitiba e que operou nas águas do Rio Iguaçu entre os anos 1980 e 1990, oferecendo pratos refinados, boa musica a bordo e até diversão para as crianças nas manhãs dos fins de semana.
Época em que, de alguma forma, as grandes metrópoles tentavam não virar as costas para o rio que as cortavam, revelando nas curvas ora calmas ora revoltas um potencial turístico e escrevendo memórias de tantas famílias.
E as vezes, quando esse assunto vem a pampa, me pego observando a região próxima dos pilares da ponte de ferro aqui por Blumenau, imerso numa ambiguidade histórica permeada pela lei dos opostos.
Hoje, o Museu do Planeta Péia é o ponto inicial da rica passagem de pedestres pela margem esquerda do rio, em caminhadas, namoricos, conversês.
Ontem, muito ontem, o primeiro sepulcro de um barco que foi símbolo deste tempo refinado pelas curvas do Itajaí-Açu. Uma espécie de breve volta ao tempo das navegações que ligavam pessoas e mercadorias do Vale ao litoral.

O vapor Blumenau II surgiu das mesas engravatadas do então Conselho Municipal de Turismo em uma reunião em abril de 1970. Talvez sendo, depois de anos, a primeira inciativa turística usando o rio como palco.
O mesmo Itajaí-Açu, longe das enchentes que volta e meia tomavam a cidade de assalto, teve papel importante nas navegações do passado. Era a primeira estrada que ligava agilmente o Vale ao litoral, comercial e popularmente.
Mas o tempo do uso intenso da atividade fluvial desapareceu na evolução dos tempos, restando apenas um antigo vapor permanentemente ancorado na outrora jovem Prainha, sofrendo as ações do tempo e do esquecimento.
Longe do seu "antecessor", o Blumenau II era uma iniciativa empresarial conjunta que o levantou para ser um atrativo turístico que mesclasse uma nova experiência sob o rio com a reminiscência de um passado fluvial mais intenso.
Em dois anos, a empresa "Restaurante Flutuante Blumenau S.A." ergueu o barco: vagamente lembrava um catamarã simples, um vapor comum de barcos europeus e até aquelas embarcações clássicas que cortam o Rio Mississippi, nos EUA, até hoje.
Não tinha hélices, e até não deveria pela navegação numa área de terreno rochoso abaixo como o Itajaí-Açu. Exigiu as rodas laterais para movimentação e um calado baixo, justamente para evitar encalhes em níveis baixos.
Por volta das 10h da manhã de 24 de setembro de 1972, ele ganhou as águas definitivamente. Ao longe, o som do "barril de chope" podia ser ouvido e a curiosidade era inevitavelmente incontida. Quem não queria aquela experiência de um almoço sob as águas do Itajaí-Açu?
Restaurante panorâmico, pista de dança, bar, cozinha (sim, uma cozinha!), sonorização e sanitários. Tudo isso em dois conveses e num espaço aparentemente tão pequeno. O primeiro olhar poderia sucitar um clássico "a física não permite", mas estava lá.


Na programação, três passeios por dia com ingressos que incluíam almoço ou jantar. Apesar de disputadas, é preciso conver: em tempos de economia complicada como a brasileira, não era uma atividade para todos os públicos.
Ao menos, a música era "de graça", animada pelo alegre Paul Einhorn e seu acordeon, misturando repertório alemão, brasileiro e regional. Ele foi o passageiro mais celebrado por anos nos passeios do vapor.
Mas como disse, foi uma época e as dificuldades de se manter um serviço deste porte pelo rio eram visíveis com o passar dos anos. Teve seu auge e, infelizmente, seu declínio, potencializado pelas enchentes de 1983 e 1984.
Ele ainda navegou festivo na primeira Oktoberfest, mas não resistiu aos embalos da economia e a idade, até ser desativado de vez em 1990, onde passou uma década esperando utilidade e destino.
Exigências da Marinha, idade da embarcação, carência de manutenção, o declínio que um serviço desse teve no país, tudo isso era uma espécie de uma pá num sepulcro aquático que se tornara aquela região perto da ponte de ferro, onde estava atracado esperando algum destino.
Não faltaram tentativas de reativa-lo ou de, como foi feito posteriormente, reviver o serviço com um novo barco (vide o Manezinho Schiff). Mas eram outros tempos, e o Blumenau II, longe da história rica do seu antecessor que lutava para não ser abandonado como ele, virou um fantasma em um lento velório.
Em 1998, adernou nas águas do Itajaí-Açu, exigindo que fosse seguro por cabos de aço. Ainda se arrastaram mais dois anos até ser rebocado para Ilhota, onde em fevereiro de 2001, desapareceu de vez sob a turbidez do Itajaí-Açu.
Sem hinos, sem bandeirinhas, sem bandinhas, sem ninguém. Silenciosamente virou foto, memória, uma recordação que dificilmente voltará a tomar conta do rio em dias tão frios e minimalistas para um restaurante flutuante que, hoje, talvez soe mais como extravagancia elitista do que uma boa ideia.
Atualmente, apenas pequenas embarcações, os jet-skis e o remo do América ainda garantem alguma atividade de navegação nas águas do rio que, vez ou outra, diz-se que foi-lhe viradas as costas. A cidade passa incólume acima dele como praxe dos dias atarefados de hoje e a diversão e gastronomia estão, ironicamente, em terra firme e bem secos.
E em algum lugar de Ilhota, jaz silencioso um pedaço de madeira que já foi almoço, jantar, musica e alegria na água do rio. Aquilo que, um dia, já foi um festivo barco.
Jaz o Blumenau II.

(FOTOS: Associação do Arquivo Histórico José Ferreira da Silva)
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