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Alfredo, o bom louco

Alfredo de Carvalho deve ser o primeiro exemplo de um blumenauense que está nos livros de história por algo que é quase um crime nesta cidade: ser, de fato, um cidadão “fora da curva”

21/07/2026 às 10h00 Atualizada em 21/07/2026 às 13h59
Por: Andre Bonomini
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Alfredo, o bom louco

"Há quem associe o rock apenas ao peso das guitarras. Eu o associo à liberdade".

Eliz Bueno deixou essa frase estampada em um recorte de sua rede social, ilustrada lindamente com uma daquelas chapas impressas com a arte de Mari Florêncio.

Ficou na minha cabeça essa história de Rock e liberdade ditos com tanta convicção, sobretudo num cercado como o nosso, ainda tão preso a antigas convenções e maneirismos.

Blumenau talvez não fosse o lugar onde estes gritos fora da curva padrão pudessem sobreviver. Arte, atitude, musica, comportamento, tudo que fosse visto fora de uma ótica padrão construída para seguir uma pretensa tradição ao longo dos tempos.

Não falo aqui em liberdade "desenfreada" que permite vandalismo e violência, mas algo que expresse a personalidade, sonoridade e atitude de alguém que não seja, simplesmente, atrás de um traje de fritz ou frida.

Manifestar algo dessa forma é visto como um desafio até hoje. Uma arte brasileira, o próprio Samba, até mesmo o Rock tem suas resistências e olhares atravessados, ou é tratado como um produto que deve ser visto ou praticado fora dos olhares públicos.

Mamonas Assassinas no Skol Rock, em 1995. O Rock é uma daquelas formas de apontar o dedo, contestar e viver "fora da curva" num lugar como Blumenau. A concepção do festival, exaustivamente contada, é prova deste desafio de exercer a boa loucura diante do status quo cultural da cidade (Antigamente em Blumenau)

Ultimamente, talvez o Rock é visto como algo que venda "alguma imagem", mas não necessariamente a visão contestadora, rebelde e fora dos padrões da qual muitos acham não fazer parte hoje em dia.

É muito fácil ouvir Rock em uma região como a nossa apenas pelo apelo saudoso de tempos que não voltam mais, mas soterrando a mensagem de rebeldia e contestação que ela trazia, sobretudo as velhas convenções que vivemos ainda hoje, jovens e velhos.

Sair do quadrado pode soar "criminoso" no status quo blumenauense, mas aqui existe algo assim e não se esconde apenas em casas noturnas, festivais segmentados ou feirinhas. Tem eco na história, e bem antes do que imaginamos.

Muito antes do Rock na Rua, do Vamo Siuni? ou na Prainha de outros dias.

Muito antes do Skol Rock e a ousadia de Fabrício e Nico Wolff

Muito antes das folias de Horácio Braun ou do Blumenalia que irrompia a tradição no pátio escolar.

Muito antes do carnaval que, hoje, é visto como algo "inexistente" na sisudez do dia a dia

Muito antes mesmo dos Brasileirinhos na TV Coligadas ou até do David Cardoso em "Férias no Sul".

Alfredo de Carvalho, um rebelde fora do tempo. 

E alguém há de contestar isto?

Está impresso nos livros de história, e ninguém podia chama-lo de normal na época em que viveu. 

E ele queria isso?

Foto creditada como Frieda Zimmermann e Alfredo de Carvalho. O ex-funcionario de estrebaria casou com a elite e virou agente da Ford. Mas nada que segurasse o espirito livre e brincalhão do "simples caboclo" (AHJFS)

Audácia, carisma e autenticidade: marcas de alguém que trafegou entre os extremos da elite e da simplicidade sem deixar de lado suas características: "desafiar convenções, provocar espanto, ao mesmo tempo, mostrar um senso de responsabilidade pouco comum para alguém tão excêntrico".

Alias, quem disse isso não foi eu, mas o Arquivo Histórico Prof. José Ferreira da Silva, em um de seus posts recentes nas redes sociais.

Alfredo era o tal "caboclo simples". Veio de um lugar onde apenas se apontava como "serra acima". E já no primeiro trabalho da vida mostrou que era fora da curva do tal "normal" daqueles idos

Na fazenda de Paulo Zimmermann, tornou-se um cavaleiro tão hábil que os cavalos de raça do patrão ficaram sob sua responsabilidade.

Era ousado até no amor. Talvez batendo de frente com o elitismo pela primeira vez, teve como esposa "apenas" a primeira Miss Blumenau: Frieda Zimmermann, "Fifi", a filha do "seo Paulo", seu patrão.

Virou representante Ford graças ao sogro. Passou de funcionário de estrebaria a um dos mais ricos e influentes do meio empresarial. 

Mas amarras que não duraram muito tempo diante de um espirito dito indomável e farrista que tinha.

Perdeu a concessão de venda oficial da Ford, que depois passou para a tradicional Casa Hoepke. Mas a liberdade valia bem mais do que as finanças e a ostentação.

A curiosa simulação de um atropelamento. Dizem, nesta foto, estar Alfredo e o Ford que seriam (ou tinham sido) protagonistas do assunto da semana diante da escadaria da então Matriz São Paulo Apostolo, em 1931 (Antigamente em Blumenau)

Em 1931, então, entrou para os livros de história. Talvez a foto mais curiosa de um passado tão "correto e puro" da provinciana Blumenau.

Parou o carro de frente à escadaria da então Igreja Matriz São Paulo Apóstolo. Engatou a primeira, sob os olhares dos populares que se reuniam feito formigueiro em volta da subida.

A rotina era quebrada pelo incomum tornado um sacrilégio prazeroso aos olhos: aquele Fordeco escalando os degraus santos do templo sem que alguém o parasse.

Bem, um padre até tentou parar... mas por amor a vida antes das escadas, saiu de lado sob os gritos de Alfredo: "sai da frente senão passo por cima!".

Assunto pra uma semana inteira naquela cidade que nem emissora de rádio ainda tinha e os parcos jornais tratavam apenas de acontecimentos esporádicos, politica, informes comerciais e afins.

Alfredo era anormal a vista daquela normalidade pacata de uma cidade então pequena. Diziam o ver enrolar notas de 500 mil réis para fumar como um cigarro (caro, por sinal).

Em outra, num baile, quebrou dezenas de ovos e jogou farinha no chão onde o povo dançava. Uma verdadeira massa esparramada no assoalho. Tudo, acreditem, devidamente pago o prejuízo ao dono do baile sem pestanejar.

Loucura controlada? Limite protocolar? As duas coisas.

Perdeu a agência e o prestigio de uma vida confortável. Foi motorista, operário da Altona e até servidor da prefeitura.

Há poucos registros de fotos do farrista histórico, apenas fotos de casamento e uma assinatura de ponto, além da insólita foto da louca subida nas escadarias da Matriz.

Parou, engatou a primeira e subiu: Alfredo de Carvalho não era parado nem por um padre. Tinha seu limite, mas não perdia a loucura e liberdade de espirito presente em si (Antigamente em Blumenau)

Polêmico, brincalhão, mas no seio familiar um trabalhador simples e bom marido. Faleceu aos 67 vivendo a vida fora da curva daquela normalidade engomada, alisada e aplicada que se pedia nas altas rodas.

O tempo passou, e talvez Alfredo de Carvalho fosse só uma nota de rodapé do Arquivo Histórico. Mas talvez os "loucos" que vieram tempos depois, em suas atividades e farras, tivessem um pouco desta inspiração de agir fora da curva da normalidade que Blumenau parece exigir.

Hoje, alguns pintam quadros, esculpem, cantam, ressoam guitarras, apontam o dedo para a polidez de certas rodas fechadas de nossos dias, no poder e na elite.

Lembrando que Blumenau não é correta e certinha. E entre suas vias escondem-se loucos que associam o Rock, o Samba e a contestação à liberdade.

Lamento, meus caros, estes loucos ainda existem.

Loucos como Alfredo, o bom louco.

Loucos como eu, que desafiam contar a história sob outro ponto numa cidade onde o desafio, as vezes, é contar a história.

Sejamos loucos! A certinha Blumenau agradece.

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Andre Bonomini
Sobre o blog/coluna
Jornalista apaixonado pela memória e identidade local, André Bonomini escreve sobre fragmentos da história de Blumenau. Com sensibilidade e rigor na pesquisa, resgata fatos, personagens e curiosidades que ajudam a entender o passado e refletir sobre o presente da cidade. Seu trabalho busca preservar a memória coletiva e aproximar o público das raízes culturais de Blumenau.

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