
Sejamos bem francos de início: você talvez nunca tenha a notado...
Como um vigilante constante da cidade que originou-se da colônia que criou, passa o dia na mesma pose observadora como quem esperasse ou contemplasse algo naquele correr frenético do blumenauense diante dele.
Dias que alternam entre o frenético da rotina e o silêncio das noites naquela curva de rio onde, do lado dele atualmente, repousam seus restos mortais.
Poético, se não fosse o ponto de partida para um daqueles contos pitorescos que qualquer guia turístico deve saber e qualquer blumenauense conta com indisfarçável ânsia de rir do causo.
Inaugurada em abril de 1940, a estátua em tamanho natural do Dr. Blumenau é um constante vigia de pedra nos lugares onde esteve postada, fruto da arte do escultor Francisco de Andrade, da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, que a esculpiu em cada detalhe sob encomenda do então prefeito e historiador pioneiro da cidade José Ferreira da Silva.
E disse-o corretamente: uma constante vigia "nos lugares" onde ela esteve postada.
A "peregrinação" do monumento ao fundador pela região do chamado "Stadtplatz" é digna de conto a beira de um boteco, quase fantasioso, mas parte de compêndios que registram os movimentos sociais e históricos - dos mais sérios aos mais inusitados - ao longo deste tempo neste feudo.
Ela começou localizada bem no meio da Alameda Rio Branco, mais exatamente nas proximidades do antigo Cine Busch e do atual Edificio Flamingo.
Naquele tempo, o canteiro central da via era bem mais largo e o tráfego de veículos era o de uma típica cidade interiorana: mais carros-de-mola do que veículos automotores.
Difícil, com a lida congestionada da Alameda Rio Branco atual, na esquina com a Rua XV, imaginar que um monumento daquela envergadura e tamanho estivesse postado bem ao meio da via. Mas reflexos de outros tempos, de outros pontos do movimento central de Blumenau.
Uma década apenas, por eventualidade do centenário da cidade, a Comissão dos Festejos sugeriu a mudança do local da estátua para um espaço mais apropriado, tirando-a do centro de uma via que começava a ficar mais movimentada com o passar dos anos.
Própria foi a colocação dela na recém-aberta Praça Dr. Blumenau, resultado das obras de canalização do ribeirão Bom Retiro. À época, uma praça com um aspecto mais classicista do que os tempos modernos, ficando o monumento de costas para o rio, voltado à Rua XV com sua característica pose solene.
Último endereço? É o que parecia...
27 anos depois da instalação na praça que levava seu nome alguma mente brilhante achou mais apropriado que o monumento estivesse no começo de outra Alameda, desta vez a Duque de Caxias, vulgo Rua das Palmeiras (Palmenalle).
Inclusive, uma das razões era que ela estaria na via idealizada pelo próprio Hermann nos tempos que andou por aqui, tendo inclusive plantando algumas das palmeiras que lá estavam no correr da via.
Votada pela Câmara, a ideia passou e... chamem os guinchos e o caminhão!
Em 1967, a estátua saía da praça pra voltar à rua, e naquela posição virou ponto de referencia e parada para fotos por um longo tempo...
Já escrevo assim porque, notadamente, não foi lá que ela iria, enfim, sossegar a caminhada que faziam por ela.
O relógio passa 32 anos, e depois de ver uma Blumenau se transformar em polo de turismo, têxtil, industrial e "cidade da Oktoberfest" com os desfiles saindo dos seus pés, a estátua voltaria a andar pra outro lugar, dessa vez perto de onde jaz o homem da qual tomou emprestado seu retrato.
Para celebrar o centenário de morte do Dr. Blumenau, o monumento seria colocado próximo ao Mausoléu, ao lado do hoje prédio da Secretaria de Cultura (antiga prefeitura).
Antes, porém, a estrutura passou por um processo de recuperação e limpeza no próprio Mausoléu, que também era renovado para aquela celebração.
Assim, em outubro de 1999, enfim, a estátua estava lá ao lado do tumulo do fundador. E de lá, não se ouviu falar mais de ideias para remove-la para outro lugar... pelo menos por enquanto.
Até porque, ultimamente, ideias mirabolantes são mais um daqueles panos ótimos para gerar discussão, polêmica e disse-me-disse nas redes sociais de qualquer blumenauense.
Esta história incomum, de uma estátua peregrinando pelo centro blumenauense como fosse, de fato, o vulto do fundador, foi retirada das linhas escritas pelo veterano da comunicação Carlos Braga Mueller na série de crônicas que publicara há muitos anos no blog do pesquisador e cientista social saudoso Adalberto Day (mentor deste escriba).
Talvez, na próxima coluna, tragar aqui transcrito, uma viagem no tempo através do olhar desta estátua "andarilha", na visão e sensibilidade do "seo Braga", que é um daqueles que guarda e conta da história de Blumenau como poucos ainda nestes correres da vida.
Correres como o da estátua e do vulto do fundador. Que, esperamos, hoje esteja repousando estática e solene, longe de outra mudança.
Assim esperamos...
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