O defeso eleitoral chegou — e com ele, severas restrições para os agentes públicos candidatos à reeleição. A partir do último sábado, a Justiça Eleitoral está de olho em convênios, ordens de serviço, inaugurações e qualquer aparição pública de detentores de mandato que disputam a recondução. A lógica é simples: garantir igualdade entre as candidaturas. Prefeitos que concorrem foram obrigados a se desincompatibilizar. Governadores que permanecem no cargo precisam ser contidos. O jogo muda de figura.
Na prática, isso significa que Jorginho Mello deixa de desfilar pelo estado liberando obras. Esse papel passará à vice-governadora Marilisa Boehm, que não é candidata e terá pela frente um período de interinidade até 5 de outubro — para tocar a administração estadual enquanto Jorginho se dedica integralmente ao projeto de reeleição.
PSD domina as cidades
Feita a introdução, vamos ao que importa. O PSD é o partido que protagoniza, ao lado do PL de Jorginho Melo, a disputa pelos votos conservadores em Santa Catarina. E o partido chega a essa eleição numa posição de força nas prefeituras. Como resultado das eleições municipais de 2024, o PSD elegeu ou reelegeu nomes em cidades-chave: Topázio Silveira Neto em Florianópolis, Orvino Dávila em São José, Vaguinho Espíndola em Criciúma, Juliana Pavan em Balneário Camboriú e João Rodrigues em Chapecó — antes de renunciar para concorrer ao governo. Das dez maiores cidades catarinenses, o PSD controlava cinco. Metade.
Topázio já escolheu
Só que de cara um desses prefeitos já saiu do tabuleiro pessedista. Topázio, hoje no Podemos, declarou apoio a Jorginho Mello. Ficaram quatro sob a bandeira do PSD — e três deles em situação delicada: Orvino em São José, Juliana em Balneário Camboriú e Vaguinho em Criciúma, todos declarando apoio a João Rodrigues, mas rasgando elogios a Jorginho Melo.
Costurou bem
E por quê? Porque Jorginho Melo foi muito inteligente nos últimos meses. Tratou o trio com atenção e arrancou declarações simpáticas dos três. Orvino, aliás, sumiu do mapa. A prefeitura de São José estava inviabilizada financeiramente e, se não fosse o governo do estado, fecharia para balanço. Essa dependência tem um preço eleitoral — e Jorginho cobrou na moeda certa.
Apoio de fachada
A questão agora é: como vai ser esse apoio pessedista a João Rodrigues na prática? É participar aqui e ali de algum evento e ficar de braços cruzados? É aquele apoio meio dissimulado, mais para constar do que para de fato mobilizar? Os próximos três meses vão responder. Mas o sinal que vem dos prefeitos pessedistas é de um apoio morno, de conveniência, sem calor e sem convicção.
João enfraquecido
O resultado dessa costura administrativa de Jorginho é claro: João Rodrigues chega enfraquecido. Os prefeitos que deveriam ser sua base mais sólida estão divididos entre a lealdade formal ao partido e a gratidão real ao governador. É uma armadilha silenciosa — e João está dentro dela.
Esquerda irrelevante
Para efeito de comparação, o PT e a esquerda administram apenas sete prefeituras em Santa Catarina, de um total de 295 — todas de pequeno e médio porte. Nenhuma grande cidade. Nenhum polo econômico relevante. A esquerda não tem base municipal para fazer barulho nessa eleição.
Polarização redesenhada
E é aí que chegamos ao ponto central. Jorginho Mello costurou tão bem o terreno que a polarização que se desenha em Santa Catarina pode não ser entre ele e João Rodrigues — mas entre ele e Gelson Merísio. Direita contra esquerda. Jorginho contra o candidato apoiado pelo PT. Num estado essencialmente conservador, esse é o cenário mais favorável para o governador. E ele sabe disso.
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