
Um pai de Blumenau esperou um ano e meio por uma consulta de neuropediatra para o filho. Quando enfim conseguiu, veio o encaminhamento para terapia ocupacional. Foi então que ouviu a frase que resume o tamanho do problema: esse profissional não existe na rede pública do município.
Ele não é caso isolado. Um documento dos conselhos tutelares, com dados do próprio sistema de regulação da Secretaria de Saúde, aponta mais de 11 mil crianças e adolescentes na fila por atendimento especializado. Só em neurologia pediátrica são 5.141 pessoas aguardando, e a rede pública tem uma única profissional para todas elas. Em psicologia, 2.102. Em fonoaudiologia, 2.054. Na triagem do centro de reabilitação mental, 1.549. Terapeuta ocupacional na rede: nenhum.
A resposta oficial é que faltam médicos, e que o problema é do estado inteiro. A parte da escassez é real. O resto é álibi. Joinville e Balneário Camboriú vivem no mesmo estado, enfrentam a mesma escassez e, ainda assim, estruturaram serviços públicos para o autismo. Joinville mantém há mais de duas décadas um núcleo municipal voltado ao autismo e à deficiência intelectual, com mais de 28 mil atendimentos em 2025. Balneário Camboriú montou um centro próprio de diagnóstico do neurodesenvolvimento, com protocolo e equipe multidisciplinar, para atacar a fila na origem. A diferença entre elas e Blumenau não é o mercado de médicos. É a decisão de tratar o autismo como prioridade.
Porque uma fila desse tamanho não é acidente. É o retrato de uma escolha orçamentária. Para reduzir os 5.141 na neurologia, a prefeitura buscou um consórcio e conseguiu um médico, que deve fazer mil consultas. Mil, para uma fila de cinco mil. Diz também que abriu 54 chamamentos públicos sem interessados. Repetir 54 vezes o mesmo edital que não funciona não é esforço: é insistir num método falho enquanto a criança envelhece na fila.
E aqui está o que nenhuma planilha registra: o cérebro de uma criança não espera o próximo edital. Cada mês perdido na primeira infância é uma janela de desenvolvimento que não volta. A demora não congela o problema. Ela o agrava e transfere a conta, maior, para depois. Reconhecer a fila, como a gestão fez, não é o mesmo que enfrentá-la. Virou, na prática, o substituto de resolvê-la.
Não é o primeiro alarme. A educação inclusiva do município já foi parar em reunião com o Ministério Público. Agora é a saúde, e o mesmo documento seguiu para a Câmara, o Ministério Público e a Defensoria. O que se repete de área para área não é o diagnóstico. É a inércia de quem tem o mandato e o orçamento para agir.
Abril Azul passou. No mês em que o país inteiro fala sobre autismo, Blumenau não colocou na mesa um plano estruturante para essa fila. Se quer uma postagem falando sobre o assunto. E POR QUE, com números públicos há anos, o autismo ainda não é prioridade no planejamento da cidade?
Enquanto o plano não vem, quem segura a linha de frente é a sociedade civil. O Instituto Vinícius Ian, APAE, AMA e outras organizações acolhem, orientam e brigam por direitos todos os dias. Mas essas entidades não substituem o Estado. Elas cobrem o buraco que a política pública deixou aberto. E cobrir buraco não é ter política pública.
Ainda há tempo, e a saída não é mistério: diagnóstico precoce não é gasto, é a decisão mais barata e mais inteligente que uma gestão pode tomar. A pergunta que fica é direta, e é para quem decide o orçamento de Blumenau: quantas infâncias ainda vão caber nessa fila antes de a cidade sair do reconhecimento e apresentar um plano?
@institutoviniciusian
@rodrigo.gonçalves_mentor
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