
"Chamada a cobrar! Para aceita-la, continue na linha após a identificação!"
Esta frase será calada pela força da evolução. E das ruas, o símbolo da praticidade em comunicações de outros tempos, pouco a pouco, vai desaparecer para ser uma mera peça de museu como tudo que o rodeou naquele tempo também o é atualmente.
Dizem que a arte da China é famosa pelos vasos que criara nas várias dinastias que houve por lá. E da arte chinessa também nasceu a forma icônica do dito orelhão. Foi da mão e gênio da sino-brasileira Chu Ming Silveira que nasceu o desenho e funcionalidade do chamado TUP (Telefones de Uso Públicos), criando o desenho que tiraria o aparelho público das paredes e os levaria para calçadas, praças, cidades distântes, onde fosse.
O orelhão, que sempre a mão estava quando necessário ou quando estivesse funcionando. Que foi arte plástica e vitima da cega raiva do vandalismo. Motivo de orgulho em qualquer inauguração interiorana, criador de hábitos, gerador de filas em memórias áureas e motivo de colecionismo para alguns. Ele mesmo, o orelhão de cada dia, está com o fim decretado.
A ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) iniciou neste janeiro a retirada dos ainda sobreviventes 38 mil aparelhos que estão pelas ruas brasileiras, na sua maioria em praças e próximos a prédios públicos. Uma desativação gradual, sendo que até 2028 ele continuará ativo em cidades onde a rede de celulares ainda não exista ou não é estável.
Alias, foi o celular, esta maquina que faz-tudo na sua mão, o responsável lógico pela derrocada da invenção de Chu Ming. Ela, quando diretora do departamento de engenharia da antiga Companhia Telefônica Brasileira (CTB) partia da forma e acústica do simples ovo pra, justo, "pôr o ovo de Colombo" necessário para a dinamização do telefone no Brasil.
O orelhão, como disse, foi pop e se espalhou para além do Brasil. Mas aqui dentro do nosso cercado mesmo ele foi a tacada decisiva para o atraso telefônico que ainda viviamos. O interior do país sempre fez festa nas grandes benfeitorias, e com o achado de Chu Ming não seria diferente, nem mesmo aqui na terra da cerveja.
Blumenau é uma das pioneiras da telefonia catarinense. Em tempos onde o serviço telefônico do estado era regionalizado e precário e onde ter telefone era privilégio de muito poucos, com preços exorbitantes para aquisição de linhas e, ainda mais antigamente, a instalação de centrais telefônicas quase particulares entre vizinhos.
O orelhão chegou ao estado em 1974, ainda na consolidação do que seria a antiga Telecomunicações de Santa Catarina (Telesc), nascida das cinzas das ex-COTESC e CTC, responsáveis por unificar as pequenas empresas telefônicas catarinenses. Quanto à Blumenau, o dado é incerto quanto ao primeiro aparelho público de fato.
A primeira informação que se tem notícia em jornal sobre orelhões na cidade trata-se de uma unidade acanhada e simples, instalada em frente a um supermercado na Fortaleza, em 1981. Ainda assim, poucos são os detalhes sobre o serviço na cidade, a não ser as histórias de cada um que teve de recorrer a um deles quando era necessário, fora os modelos especiais que a cidade criara, seja para a reurbanizada Rua XV ou os temáticos próximos a antiga PROEB.
Até 2023, haviam 103 orelhões na cidade, porém 17 destes estavam em manutenção e a Itoupava Central concentrava a maior parte desta quantia em funcionamento. No entanto, ao chegar por este ano, eles sumiram, viraram nota de rodapé na memória de muita gente que nem percebeu o desaparecimento, talvez com as cabeças viradas para as telas dos celulares e suas mil funções.
Aos saudosos, resta um pulinho turistico pelo Vale a lugares como Rodeio, Rio do Cedros e até Pomerode, onde ainda há, pelo menos, um orelhão instalado. Lentamente ele desaparece de nosso cotidiano e passa as páginas de tempos onde plano de expansão, ficha/cartão telefônico, chamada a cobrar e PABX se tornam reflexos de uma evolução no meio e mensagem do ser humano.
A força da evolução vai calando o velho orelhão. A obra de uma chinesa que, por aqui ao menos, está completamente surdo e sepultado.

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