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A surdez definitiva do orelhão

Em 2026, os velhos orelhões começam a desaparecer das ruas. Um elemento que, em Blumenau, parece já ter dado seu adeus de forma discreta e silenciosa

23/01/2026 às 11h00
Por: Andre Bonomini
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A surdez definitiva do orelhão

"Chamada a cobrar! Para aceita-la, continue na linha após a identificação!"

Esta frase será calada pela força da evolução. E das ruas, o símbolo da praticidade em comunicações de outros tempos, pouco a pouco, vai desaparecer para ser uma mera peça de museu como tudo que o rodeou naquele tempo também o é atualmente.

Dizem que a arte da China é famosa pelos vasos que criara nas várias dinastias que houve por lá. E da arte chinessa também nasceu a forma icônica do dito orelhão. Foi da mão e gênio da sino-brasileira Chu Ming Silveira que nasceu o desenho e funcionalidade do chamado TUP (Telefones de Uso Públicos), criando o desenho que tiraria o aparelho público das paredes e os levaria para calçadas, praças, cidades distântes, onde fosse.

O orelhão, que sempre a mão estava quando necessário ou quando estivesse funcionando. Que foi arte plástica e vitima da cega raiva do vandalismo. Motivo de orgulho em qualquer inauguração interiorana, criador de hábitos, gerador de filas em memórias áureas e motivo de colecionismo para alguns. Ele mesmo, o orelhão de cada dia, está com o fim decretado.

A ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) iniciou neste janeiro a retirada dos ainda sobreviventes 38 mil aparelhos que estão pelas ruas brasileiras, na sua maioria em praças e próximos a prédios públicos. Uma desativação gradual, sendo que até 2028 ele continuará ativo em cidades onde a rede de celulares ainda não exista ou não é estável.

Um par de orelhões em algum lugar de Timbó. Símbolo das ruas e dinamização da comunicação rápida está de despedida oficial em 2026 (Misturebas / Reprodução)

Alias, foi o celular, esta maquina que faz-tudo na sua mão, o responsável lógico pela derrocada da invenção de Chu Ming. Ela, quando diretora do departamento de engenharia da antiga Companhia Telefônica Brasileira (CTB) partia da forma e acústica do simples ovo pra, justo, "pôr o ovo de Colombo" necessário para a dinamização do telefone no Brasil.

O orelhão, como disse, foi pop e se espalhou para além do Brasil. Mas aqui dentro do nosso cercado mesmo ele foi a tacada decisiva para o atraso telefônico que ainda viviamos. O interior do país sempre fez festa nas grandes benfeitorias, e com o achado de Chu Ming não seria diferente, nem mesmo aqui na terra da cerveja.

Orelhão antigo ao pé do Morro da Companhia (Luis Bernardes)

Blumenau é uma das pioneiras da telefonia catarinense. Em tempos onde o serviço telefônico do estado era regionalizado e precário e onde ter telefone era privilégio de muito poucos, com preços exorbitantes para aquisição de linhas e, ainda mais antigamente, a instalação de centrais telefônicas quase particulares entre vizinhos.

O orelhão chegou ao estado em 1974, ainda na consolidação do que seria a antiga Telecomunicações de Santa Catarina (Telesc), nascida das cinzas das ex-COTESC e CTC, responsáveis por unificar as pequenas empresas telefônicas catarinenses. Quanto à Blumenau, o dado é incerto quanto ao primeiro aparelho público de fato. 

A primeira informação que se tem notícia em jornal sobre orelhões na cidade trata-se de uma unidade acanhada e simples, instalada em frente a um supermercado na Fortaleza, em 1981. Ainda assim, poucos são os detalhes sobre o serviço na cidade, a não ser as histórias de cada um que teve de recorrer a um deles quando era necessário, fora os modelos especiais que a cidade criara, seja para a reurbanizada Rua XV ou os temáticos próximos a antiga PROEB.

Posto da antiga Companhia Telefônica Catarinense (CTC), na Av Brasil. Prédio já abrigou o antigo Colégio Vale do Itajaí (Pontinho Estudantil) nos anos posteriores (Antigamente em Blumenau)
Estande da COTESC, outra das antecessoras da TELESC, na VII FAMOSC, em 1972 (Antigamente em Blumenau)
Prédios da TELESC (a esquerda) e da Embratel (a direita) na Ponta Aguda, em 1975 (Antigamente em Blumenau)
Um dos orelhões temáticos instalados na antiga PROEB (Antigamente em Blumenau)

Até 2023, haviam 103 orelhões na cidade, porém 17 destes estavam em manutenção e a Itoupava Central concentrava a maior parte desta quantia em funcionamento. No entanto, ao chegar por este ano, eles sumiram, viraram nota de rodapé na memória de muita gente que nem percebeu o desaparecimento, talvez com as cabeças viradas para as telas dos celulares e suas mil funções.

Aos saudosos, resta um pulinho turistico pelo Vale a lugares como Rodeio, Rio do Cedros e até Pomerode, onde ainda há, pelo menos, um orelhão instalado. Lentamente ele desaparece de nosso cotidiano e passa as páginas de tempos onde plano de expansão, ficha/cartão telefônico, chamada a cobrar e PABX se tornam reflexos de uma evolução no meio e mensagem do ser humano.

A força da evolução vai calando o velho orelhão. A obra de uma chinesa que, por aqui ao menos, está completamente surdo e sepultado.

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Andre Bonomini
Sobre o blog/coluna
Jornalista apaixonado pela memória e identidade local, André Bonomini escreve sobre fragmentos da história de Blumenau. Com sensibilidade e rigor na pesquisa, resgata fatos, personagens e curiosidades que ajudam a entender o passado e refletir sobre o presente da cidade. Seu trabalho busca preservar a memória coletiva e aproximar o público das raízes culturais de Blumenau.

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