
A quem cruza a cidade, passando pela Itoupava Norte até o Salto do Norte, é impossível não notar a grande mudança que está sendo promovida no tráfego com as obras do chamado "corredor norte". Um pacote extenso que inclui, entre suas ações, a reforma da chamada Ponte Santa Catarina.
Velha, combalida, misto de viaduto e ponte e praticamente esquecida, a estrutura finalmente ganha o "banho de loja" tão esperado, tirando dela mesma o ar frágil e abandonado que tinha com o tempo.
E não, você não leu errado. Poderiamos parar esta crônica por aqui se este não fosse mais um daqueles assuntos que geram discussões sem fim nas redes sociais. Esta ponte em questão sim, por lei oficial, é nominada em homenagem ao estado. No entanto, sua história é tão obscura quando a ponte "homônima", ou melhor dizendo, aquela batizada pela conveniencia da localização em que está.
A estrutura que comentamos no começo desta crônica é, de fato, a Ponte Santa Catarina. No entanto, é uma das passagens com histórico mais misterioso e, por que não dizer, esquecido da cidade. Em consulta a registros diretamente com a prefeitura, não consta nada além do seu nome oficial. Data de inauguração e contexto são algo guardado apenas na memória de quem viu (se é que viu) alguma solenidade ou notícia sobre a obra.
Mas então, André, Blumenau tem duas pontes com o mesmo nome?
Não. e a resposta é tão simples quanto, inclusive já deixei-a implicita no últim parágrafo: a história do "nome por conveniencia", o extra-oficial conhecido coloquialmente por quem trabalha, vive ou passa por ali.
A confusão acontece graças a coloquialidade de chamar de "Santa Catarina" a já antiga Ponte Irineu Bornhausen. Este sim o nome oficial da ponte situada na Rua Santa Catarina e que leva o nome do ex-governador que esteve a frente do poder no estado de 1951 a 1956. Era o tempo em que uma balsa a menos era sinal de (necessário) progresso.
Foi através das ações dele próprio que foi permitida a construção desta estrutura que liga as Itoupavas Seca e Norte através da - agora sim - Rua Santa Catarina. Por confundir o nome da rua ao da ponte, é notório que a conveniencia praticamente a nomina até hoje, causando a clássica confusão dos últimos dias.
E uma curiosidade: o próprio Irineu e a esposa inauguraram a estrutura que leva seu próprio nome.
Esta questão de "nominar por conveniencia" é algo tão comum quanto curioso no meio de uma cidade. Registrar com um termo familiar um ponto específico numa cidade cria um misto de referencia comum e saudosismo dependendo do lugar onde ele é citado. É como olhar para o Shopping H e sempre o chamar de Lojas Hering, ou estar na Rua Friz Spernau e lembrar que está cruzando a "Rua da Coca".
Agora, para quem quiser achar curioso, homenagens repetidas em Blumenau existem, e todas elas apontam a uma pessoa apenas: Bernardo Wolfgang Werner. Empresário, líder industrial e político, foi figura proeminente na vereança blumenauense e da empresa de seu pai, a Electro Aço Altona, e presidiu a FIESC de 1971 a 1986, o mais longo da história da entidade industrial.
Talvez por coincidencia ou por, simplesmente, outro nome não vir a mente, Bernardo Werner dá nome a três locais na cidade. Ele batiza o complexo do Sesi, hoje sob administração municipal e que deve mudar o nome para homenagear Rodolfo Sestrem, como tem ventilado nas cirandas políticas.
Além do complexo, Werner também nomina uma praça na saída da Rua Iguaçu (próxima a Cremer) e o complexo viário do Badenfurt. E um detalhe: hoje proibido, o complexo recebeu seu nome enquanto ele ainda era presidente da FIESC. A estrutura foi inaugurada em 1978, sendo que o terreno era de propriedade da municipalidade e fora doado ao SESI para a construção do complexo.
Entrementes, perguntar ao leitor se recorda ainda de alguma outro lugar que é nominado pela conveniencia ou por algo que lá existiu seria desnecessário. Todos nós temos um lugar que é ponto de referencia no nosso mapa mental graças a conveniência ou a lembrança. E se assim o é para você, tudo bem, é como não perder o referencial da história e memória particular que você guarda daquele cantinho de Blumenau.
No mais, sim: oficialmente, é uma Ponte Santa Catarina. Coloquialmente, são duas, e a vida (e o transito) segue.
Mín. 21° Máx. 37°