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Um café no Tönjes

Referencia primeira na tradição confeiteira blumenauense, o Tönjes marcou época com inovações, cardápio único, visitas ilustres e muitas saudades do que lá estiveram

01/10/2026 às 13h00
Por: Andre Bonomini
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Um café no Tönjes

Antes que a Oktoberfest nos roube a paz da correria natural de Blumenau, podemos tomar um café?

Aquele café com nuances de casa de oma, ou até mesmo aquela mesa que entrega que estamos num Vale que respira um pouco de Europa mesmo ele sendo tão brasileiro como sabemos.

O café é pretexto para encontros, resenhas, conversas e, por que não, amores. E pense você que ele se limite apenas as xicaras do liquido negro extraído das sementes que, antanho, eram a força motriz de nossa economia.

O Vale é pródigo de lugares onde um convite ao "café" é um desfile farto de bolos, tortas, pratos salgados, embutidos, sucos e, claro, o café bem tirado, no ponto, com ou sem leite, para aplacar saudades, desejos ou, simplesmente, tomar a tarde de dedos de prosa.

Hoje, um ar de sofisticação, dos mais clássicos aos que tem esse charme de cafeteria rápida, reproduzindo os sabores que, em algum livro empoeirado, eram a receita de velhas confeitarias feitas paradas obrigatórias para o deleite entre doces e salgados.

Não é uma história que nasceu ontem ou virou modinha. Abrir a boca e falar Cafehaus, Torten, Brotland, Benkendorf, Bublitz ou qualquer outro carrega bem mais do que uma referencia no chamado "café colonial", mas um livro completo de história e tradição consolidado com o tempo.

E antes deles, talvez os antigos ainda sintam o aroma quando abrem a boca e relembram o doce aroma que tinha endereço, ambiente, mãos hábeis e uma história que, hoje, tem sabor de saudade: Tönjes.

Primeiros anos da confeitaria no centro de Blumenau: aos poucos a padaria virava referencia (Antigamente em Blumenau)

 

Fala-se de boca cheia, sobretudo os de cabelo branco, cancheiros da vida, que avidamente marcavam na agenda o encontro tão esperado naquele metro-quadrado ao lado da hoje Catedral para uma tarde agradável tendo o Itajaí-Açu em dia calmo como companhia da refeição e da prosa.

A simpática padaria de doces e salgados nasceu do idealismo e necessidade do imigrante Heinrich Tönjes, vindo da distânte Wilhelmshaven, uma cidade independente banhada pelo mar do norte alemão na baixa Saxônia. 

Era um comercio inicialmente simples para cidade que, em 1924, ainda tinha trejeitos simples. Tempos de um ainda jovem município que tinha pouca vida social e era cortado, em maioria, por carroças de agricultores e carros de mola e cujas ruas centrais eram mais de comércio e serviços do que um ambiente para encontros com certo grau social.

O tempo é que tratou de mostrar que Heinrich e seus filhos, herdeiros do negócio, não eram apenas comerciantes simples de pão e afins. A qualidade dos produtos, o espaço com um ar refinado e aconchegante, atendimento impecável e o rio como testemunha tornaram rapidamente a casa uma parada obrigatória em qualquer momento gastronômico do dia: almoço, cafés, encontros, negócios e tantos outros.

O ambiente nos primeiros anos: atendimento qualificado, produtos esmerados, parada obrigatória no almoço ou no café do dia a dia (Antigamente em Blumenau)

 

Páginas do cardápio do Tönjes: o típico alemão mescla-se com o cotidiano, instigando o paladar na primeira leitura (AAHJFS)

 

Se você perguntar aos tios, avós e parentes mais velhos sobre o que era o Tönjes, impossível que estes não o recordem como um referencial tão forte em confeitaria e gastronomia como hoje o é o Cafehaus na Rua 7. Este conceito de café como experiência, com certo ar de refinamento e aconchego parece ter nascido ali dentro do 962 da Rua XV e a cartilha é seguida até hoje.

Mas o Tönjes tinha bossas a mais, e uma delas era uma pintura em vida real. A localização privilegiada e em tempos onde a Beira-Rio era apenas um sonho moderno demais para a cidade, uma vista para o Itajaí-Açu como aquela era um convite para mais alguns minutos, horas ou uma fatia a mais de strudel no prato para aproveitar o momento.

Não só a vista, como a ampliação e reforma da casa lhe deu ainda varandas e um "jardim de verão" que misturava um certo luxo europeu com aquele ar característico da varanda da casa da oma bem no centro blumenauense, sendo um paradoxo entre o crescente fervor diário e o prazer gastronômico.

Detalhe: antes mesmo da Beira-Rio ser realidade, o Tönjes sabia do valor da vista para o rio que, ainda hoje, é tão esquecida e vista como uma mera "rua de desembarque e descarga". Avançado sem mesmo saber do avanço que o era.

Não era apenas o ambiente aconchegante e elegante, mas também a vista que chamava atenção. Antes mesmo da Beira-Rio, o Tönjes já transformava o Itajaí-Açu em parte da experiência com sua varanda e seu "jardim de verão" (AAHJFS)

 

Imagem de 1974: grandes reuniões também movimentavam a casa, bem como visitas famosas a colocavam no mapa de referenciais gastronômicos da cidade para o turismo (AAHJFS)

Ali, o típico brasileiro misturava-se, nos cardápios, a aquilo que representava o germânico à mesa: cerveja gelada escura, o café gelado berlinense, strudel com chantilly, sonhos berlinenses, nomes de pronuncia curiosa que soavam mais como convite a prova, ainda mais vistos no mostruário do balcão próximo as mesas do salão interno.

Entre os anos 1930 e 1970, o Tönjes era o referencial, o modelo a ser copiado e miseravelmente fracassado pelas tentativas. Era a pausa perfeita, a desculpa perfeita para o reencontro, a reunião esperada ou o pedido de amor discreto. Presentes, aromas, risos, conversas necessárias, e tudo isso naquele metro quadrado de uma cidade em crescimento.

Também fora ele a porta de entrada gastronômica da cidade para além dos restaurantes. A localização e cardápio seduziu paladares e curiosidades de gente com gabarito fora das linhas de Blumenau: Érico Veríssimo e Juca Chaves por exemplo, e não duvido que nem mesmo figuras vindas da Alemanha-mãe encontravam algo ali que lembrasse os aromas e clima lá daquele chão distante dos visitantes.

Infelizmente, como uma espécie de "constante" de tantos nomes famosos da Blumenau antiga, o Tönjes encontrou seu ocaso mesmo que parecesse nunca o encontrar. Em dezembro de 1979, o espaço mudou de nome e de dono, e seguiu em trocas de direção até o fim das atividades, em meados de 1986, pouco tempo depois de completar 60 anos da chegada da família à Blumenau.

Fachada da confeitaria na Rua XV, com seus ornamentos na placa e aquele aspecto de vitrine que convida a entrar (AAHJFS)

 

A confeitaria, já com outro nome e depois de vários proprietários, encerrou as atividades em 1986. Até hoje, mantém os indicativos que remetem a família Tönjes: os brasões, o nome da cidade-natal talhado em madeira e o ano de chegada de Heinrich Tönjes na cidade (Reprodução)

Não foi a pioneira, mas também não foi a última. Durante seus anos áureos e mesmo depois deles, o Tönjes foi o ponto referencial para nomes que vieram durante e depois dele como parte desta tradição tão antiga quanto o chope e tão ampla como a gastronomia típica: a do café colonial, dos doces e salgados que carregam o esmero e o amor do início ao fim da experiência.

Um café na Blumenau corrida e cansada do trabalho diário não é apenas uma refeição, mas tornou-se o momento de aguçar o paladar entre um papo e outro, rodeado por um ambiente acolhedor e cercado do que faz estômago e fome sorrirem sem saber o que escolher saborear.

E enquanto a tradição sobrevive, o velho casario dos Tönjes segue em pé no 962 da Rua XV, ostentando o nome da cidade natal, os brasões, o anno domini da família pelo Vale e aquele ar de passado simples e clássico parcialmente oculto por fachadas e letreiros, mas impossível de ignorar para quem tem história nos olhos ou memórias das manhãs e tardes mais saborosas da Blumenau antiga.

E enquanto esta história correu os dedos do escriba e os olhos do leitor, acabei o meu café. Hora de voltar a correria. Quem sabe, um dia, a gente volte aqui pra outro momento.

E quem dera, fosse uma tarde lá no Tönjes.

(Dedicado à memória de Werner Tönjes e família, por tornarem o café em Blumenau aquilo que gostamos tanto)

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Andre Bonomini
Sobre o blog/coluna
Jornalista apaixonado pela memória e identidade local, André Bonomini escreve sobre fragmentos da história de Blumenau. Com sensibilidade e rigor na pesquisa, resgata fatos, personagens e curiosidades que ajudam a entender o passado e refletir sobre o presente da cidade. Seu trabalho busca preservar a memória coletiva e aproximar o público das raízes culturais de Blumenau.

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