Santa Catarina vive uma situação curiosa — e reveladora. O estado conta hoje com sete ex-governadores vivos, todos protagonistas, em algum momento, de ciclos políticos relevantes. Ainda assim, ao que tudo indica, nenhum deles estará nas urnas em 2026. Um esvaziamento que não é casual: ele traduz o encerramento de uma era e a dificuldade concreta de sobrevivência eleitoral fora do tempo de poder. Não existe vácuo na política, onde segue valendo um dito popular bem antigo: rei morto, rei posto.
Eles carregam trajetórias muito distintas, mas com praticamente um ponto em comum: todos, por razões diversas, parecem ter chegado ao limite político. Seja por desgaste, cálculo estratégico ou simples perda de espaço, o fato é que nenhum deles demonstra viabilidade real para enfrentar o crivo das urnas neste momento decisivo, de polarização e possível fim da era Lula da Silva.
Importante frisar, ainda, que dois dos sete sequer chegaram ao governo pelo voto direto.
Mandato-tampão
Eduardo Moreira e Leonel Pavan foram alçados ao comando do governo catarinense em circunstâncias muito específicas, dentro da engenharia política construída por Luiz Henrique da Silveira.
Uma era
LHS, durante 16 anos, foi o grande fiador da política catarinense. Sua estratégia de renúncias calculadas abriu espaço para os vices. Primeiro, Moreira assumindo por nove meses. Depois, Pavan completando mandato após nova movimentação do titular, que deixou o Executivo para disputar o Senado, sendo eleito com grande votação em 2010.
Dupla
Nenhum dos dois, Moreira e Pavan, portanto, foi eleito governador. Ambos herdaram o cargo — o que, em política, faz diferença substancial quando se trata de capital eleitoral próprio.
Pavan, hoje, está fora desse tabuleiro: elegeu-se prefeito de Camboriú em 2024, consolidando uma base municipal, enquanto sua filha, Juliana, venceu em Balneário Camboriú. Movimento claro de reposicionamento familiar localizado, não tem, ainda, abrangência estadual.
Colombo isolado
Raimundo Colombo, eleito e reeleito em primeiro turno (2010 e 2014), é talvez o caso mais emblemático de esgotamento político pós-governo e dos novos tempos de um eleitorado bombardeado constantemente por informações as mais diversas.
Histórico
O lageano acumulou derrotas ao Senado em 2018 e 2022, além de uma tentativa frustrada de reverter o resultado via Justiça Eleitoral contra Jorge Seif, que o suplantou por mais de 900 mil votos há três anos e meio.
Congestionado
A esta altura do campeonato, o pessedista enfrenta um dilema objetivo: disputar uma vaga proporcional, em uma região serrana que representa apenas cerca de 7% do eleitorado, altamente congestionada por candidaturas alinhadas ao atual governo e à prefeitura pilotada por Carmen Zanotto.
Na prática, significaria correr o risco de medir votos — algo que, para um ex-governador de dois mandatos, pode ser politicamente devastador. A tendência para Raimundo Colombo é clara: recolhimento.
Moisés incerto
Carlos Moisés da Silva ensaia uma candidatura a deputado federal. Mas, à luz do histórico recente, a hipótese de recuo também é concreta. O articulista, aliás, aposta que ele não colocará o nome nas urnas.
Moisés já havia sinalizado disputar a Prefeitura de Tubarão em 2024 e desistiu. Agora, tende a repetir o movimento.
Ilustre desconhecido
Sua eleição em 2018 esteve diretamente associada à onda de Jair Bolsonaro. Fora desse contexto, nunca conseguiu consolidar base eleitoral consistente, não teve e não tem cacoete político.
Observação
A avaliação predominante nos bastidores é objetiva: Moisés deve evitar o teste das urnas — sobretudo diante do risco de uma votação aquém do simbolicamente aceitável para um ex-chefe do Executivo estadual. Se for para as urnas, pode ficar abaixo dos 10 mil votos.
Paulo Afonso
Paulo Afonso Vieira representa outro ciclo, bem mais distante. Eleito em 1994, teve sua trajetória profundamente marcada pelo episódio dos precatórios, das letras, que gerou desgaste significativo e culminou na derrota para Esperidião Amin na tentativa de reeleição.
O emedebista ainda chegou à Câmara Federal em 2002, mas, desde então, afastou-se gradualmente da vida eleitoral. Hoje, está completamente fora do jogo — por decisão e por contexto.
Aposentadoria
Há ainda Jorge Konder Bornhausen. Mas ele já se retirou da política há anos, em definitivo, até pela idade avançada.
Solitário
O único que continua na ativa e vai enfrentar as urnas com perspectivas é o senador Esperidião Amin, candidato à reeleição.
Vaticínio
O cenário é cristalino: dos ex-governadores vivos, apenas Amin deve se submeter ao crivo popular.
Novos tempos
É o retrato de uma transição política em curso em Santa Catarina, onde novos atores ocupam espaço enquanto antigos protagonistas enfrentam o peso do tempo, do desgaste e da falta de viabilidade eleitoral. Em política, passado conta — mas não garante futuro. E, neste caso, o passado parece ter ficado definitivamente para trás.
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