
Na vida é preciso ter um plano B.
Em tudo.

Não dá para depender dos outros.
Nunca.
Principalmente acreditar que algumas promessas vão ser cumpridas.

As quartas de final da Superliga Feminina de Vôlei começaram esta semana.
Melhor de três jogos.
Nos primeiros confrontos:

(8º) Barueri SP 1 x 3 Flamengo RJ (1º)
(2º) Osasco SP 3 x 0 Pinheiros SP (7º)
(3º) Minas MG 3 x 0 Fluminense RJ (6º)
(4º) Praia Clube MG 3 x 2 Bauru SP (5º)

O prognóstico, talvez, soe exagerado.
Especialmente pela disparidade de investimento dos oito concorrentes.
Mas o Bluvôlei poderia estar nos playoffs.
Não chegou - e a trajetória mostra isso - por conta das adversidades enfrentadas fora de quadra.

De qualquer maneira, merecia, no mínimo, se manter na elite.
Pela entrega e profissionalismo de um grupo que chegou ao seu limite.
E o esgotamento emocional, físico, técnico e tático (na visão de quem está de fora) aflorou contra o Fluminense.
Na 20ª rodada.
Na derrota, de virada, dentro do Galegão.
Quando abriu 2 x 0 no placar e poderia ter fechado a partida.

Posteriormente (e naturalmente) vieram as derrotas de 3 x 0 para os dois principais candidatos ao título: Flamengo e Osasco.

Uma vitória.
Foi o que faltou para ficar na primeira divisão.

Para ter a mesma pontuação e superar Brasília DF.
Adversário (com orçamento maior) que foi derrotado nas duas vezes que se enfrentaram na 1ª fase.

3 x 2 no Galegão.
3 x 1 em Taguatinga DF.

No vôlei, quem tem mais dinheiro geralmente vence um campeonato.
Para efeito de comparativo, o orçamento do Praia Clube de Uberlândia MG, campeão da última edição, foi de R$ 15 milhões.
Outro exemplo, embora contraditório.
Em 2020, o Serviço Social do Comércio do Rio de Janeiro (Sesc/RJ) repassou R$ 18 milhões em patrocínio ao time criado pelo técnico Bernardinho, o Rio de Janeiro Vôlei Clube (RJVC), hoje Sesc/Flamengo.
Até aí, tudo bem.
Ocorre que a bolada foi transferida sem que a equipe entrasse em quadra por conta das restrições na pandemia, como apontou auditoria da Controladoria Geral da União (CGU).

Certo ou errado, não há como competir.
São atletas e staff que se concentram apenas em treinar e jogar.
Que não se preocupam com o 5º dia útil.
Alguém do naipe da meio-de-rede Thaisa, 36 anos, bicampeã olímpica (2008/2012), deve ganhar no Minas mais do que todo o elenco de Blumenau.
Que projetou uma média salarial (em 10 meses) de R$ 120 mil.
Tendo como base, o repasse da Fesporte de R$ 1,5 milhão (também contemplado para Apan e Joinville).

Os clubes não pediram esse dinheiro.
Foram chamados para uma reunião em Florianópolis.
A Fesporte ofereceu o recurso.
Prontamente aceito.
Quem recusaria?

Verba que seria repassada por meio de um edital (só descoberto a partir do momento em que o trâmite burocrático foi brecado por problemas apontados pela Ouvidoria da Fesporte e pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Também se comenta que outras modalidades berraram.
Foram cobrar o seu quinhão.
E o processo não foi em frente.

De todo modo, talvez o erro do Bluvôlei tenha sido contar com essa grana.
Bom lembrar que antes mesmo da "garantia" do governo, pelo menos 50 empresas de Blumenau e região foram visitadas.
A busca era por um patrocinador master.
Ninguém teve a noção do tamanho da visibilidade que a marca teria.
Aliás, poucos têm dimensão do impacto e repercussão que o esporte produz.
O SporTV transmitiu 13 partidas ao vivo do Bluvôlei- das 22 disputadas.
Sem contar os jogos mostrados em tempo real pelo Canal Vôlei Brasil e YouTube.

Deu no que deu.
Meses de salários atrasados.
Que começaram a impactar lá atrás, em outubro.

No próximo dia 10 de abril vence o terceiro mês de atraso.
A direção está buscando alternativas para honrar o compromisso com atletas e comissão técnica.

Acredito que tenha sido o primeiro profissional a divulgar o que estava rolando nos bastidores.
Percebia um comportamento estranho.
Antes e depois dos jogos.
Questionei membros da comissão técnica e diretoria.
Que pediam para segurar a informação (poderia atrapalhar ainda mais o ambiente e a liberação do dinheiro na capital).
Por respeito aos profissionais envolvidos, aguentei o quanto pude.
Uma hora não deu mais.

Até que veio a repercussão nacional.
Teve gente que criticou a abordagem.
Na qual o time (a cidade, no geral) não tinha condições de fazer o básico.
Dando a entender que a culpa era fiéis patrocinadores e parceiros.
Que estão juntos há tempos.
Desde a base.
Desde a Superliga B.
O equívoco foi a forma com que o tema foi tratado e ecoado.

Prefeitura e Secretaria Municipal de Esportes (SME) são os maiores investidores.
Além da injeção de R$ 250 mil que foi dada para alavancar o projeto, pagam bolsas de atletas, salários dos treinadores, realizam o transporte até os aeroportos, bancam o aluguel do Sesi e do Galegão...
Não fazem mais do que a obrigação, afinal o time representa o município nos eventos.
Contudo, sem eles, não haveria nem participação.
Tal consequência negativa motivou o Bluvôlei a soltar um comunicado.

"A Diretoria do Blumenau Voleibol Clube vem a público comunicar que os seus patrocinadores estão em dia com o clube. O exposto se refere ao edital cancelado pelo estado de Santa Catarina (FESPORTE), onde seriam contemplados com um valor as modalidades esportivas do estado.
Tal fato, prejudicou a continuidade dos processos financeiros do Clube".

Não tenho dúvidas que a direção vai resolver esse impasse em breve.
As dificuldades maiores ainda estão por vir.
A queda para a Série B e a volta de Brusque para a Série A (ao lado do Mackenzie de Belo Horizonte) não foram nada agradáveis.

O rival deu a volta por cima em um ano (depois de perder os 22 jogos da última temporada).
Manteve o técnico Maurício Thomas (por aqui, o replanejamento passa pela permanência de Rogério Portela).
Reestruturou e rejuvenesceu o elenco.
Média de idade de 22,7 anos.
A equipe cresceu na reta final e superou Recife PE.

O vôlei blumenauense volta ao antigo patamar.
Vai ser preciso muita paciência e apoio para a reconstrução.

Ficou explícito que ter um time na Superliga é viável.
É um case de sucesso.
Desde que a cidade - não só a torcida - abrace e compre a causa.

De todo modo, um representante de uma competição nacional de ponta não pode depender de um pedágio para sobreviver.
O time adulto só não esteve nos semáforos porque na época, em dezembro, jogou em Maringá.
No entanto, em agosto, quando efetivamente começaram a chegar na cidade, as atletas venderam e ajudaram a servir os pratos da feijoada, em outra ação promovida para levantar fundos.

Também não dá para aceitar que um PIX Solidário seja criado para quitar dívidas.

Assim como é um absurdo dois integrantes, o presidente Ruy Dornelles e o treinador Rogério Portela, fazerem empréstimos pessoais para o barco não afundar.

É humilhante!
Para dizer o mínimo.

Há quem ache tudo normal.
E ainda passe pano.

Emerson Luis é jornalista. Completou sua graduação em 2009 no Ibes/Sociesc. Trabalha com comunicação desde 1990 quando começou na função de repórter/setorista na Rádio Unisul - atual CBN. Atualmente é apresentador, repórter, produtor e editor do quadro de esportes do Balanço Geral da NDTV Blumenau. Na mesma emissora filiada à TV Record, ainda exerce a função de comentarista, no programa Clube da Bola, exibido todos os sábados, das 13h30 às 15h. Também é boleiro na Patota 5ª Tentativa.


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