19°C 34°C
Blumenau, SC

História: Salto, a ponte, o pioneirismo e o prêmio, por André Bonomini

História: Salto, a ponte, o pioneirismo e o prêmio, por André Bonomini

10/12/2021 às 13h09 Atualizada em 10/12/2021 às 16h09
Por: Tom
Compartilhe:
Imponente, necessária em com o clássico estilo de sua inauguração. Mas, entre as vigas de metal e as colunas de pedra, uma história atribulada: eis a Ponte Lauro Muller e o passado de polêmicas, trabalho, ruína e renascimento. Foto: Reprodução
Imponente, necessária em com o clássico estilo de sua inauguração. Mas, entre as vigas de metal e as colunas de pedra, uma história atribulada: eis a Ponte Lauro Muller e o passado de polêmicas, trabalho, ruína e renascimento. Foto: Reprodução

Uma obra fruto da dívida eleitoral de um governador, uma estrutura pioneira na sua função sobre o rio Itajaí-Açu. Anos de descaso público que levaram ao colapso e uma intensa campanha que representou um dos mais importantes troféus da imprensa blumenauense. Tudo isto está cravado em um único lugar da cidade que, pelo movimento diário, talvez passe despercebido até mesmo por quem conhece todo este rebu criado.

Por vezes rotulada como a primeira grande estrutura sobre o Itajaí-Açu, a Ponte Lauro Muller guarda um passado de intensa atividade conjugada com uma história de renascimento em meio ao esquecimento. A estrutura metálica com cara de "comum" entre no Salto Weissbach foi um símbolo de uma cidade em busca de novos caminhos para seguir em frente, ao mesmo tempo que a sua ruína nos anos 1980 foi a inspiração para um jornalista saudoso lembrar que a história existe num município sedento por progresso.

A questão e a polêmica: Centro ou Salto?

Inaugurada oficialmente em 1913, a Ponte do Salto era uma velha dívida eleitoral do governador Hercílio Luiz, que chegou ao poder no estado em 1896 e tinha um débito moral com a cidade que alavancou sua a carreira política. E nesta onda de gratidão, como se pode dizer, Luz autorizou a liberação da verba e a construção da estrutura por meio de empréstimo federal de 2 mil contos de réis. Uma fortuna para uma Santa Catarina abalada pela revolução federalista.

E como Blumenau já tem aptidão para a polêmica há muito tempo, a Ponte do Salto não escapou de entrar na roda das discussões diárias. Pedia-se uma ponte na região central e a demora para a vinda de recursos deixava qualquer bom judeu sem paciência. Foi a intervenção do então deputado Pedro Christiano Feddersen, que tinha terras próximas a região do Salto, que fez o jogo virar: ter uma passagem próxima às estradas para outras cidades e localidades afastadas era mais vantagem do que gastar os tubos em uma estrutura na parte central.

A ponte em 1913, depois de 18 anos de espera e discussões, enfim concretizada. Foto: Adalberto Day

Era uma Blumenau que ainda batia de costas com os limites de Lages, além de ter a navegação como ponto forte. Houve quem argumentou no prejuízo ao tráfico no rio pela parte central era mais do que um fator capital para se pensar na estrutura no Salto. A polêmica rolou até a decisão finalmente sair, mas era tarde: Hercílio Luiz saiu do governo e a ideia só voltou a tona em 1911, quando os recursos e o material vieram da Alemanha, a exceção das pedras usadas para as colunas da ponte, retiradas do próprio Itajaí-Açu.

Coube a três engenheiros - Heinrich Krohberger, Emil Odebrecht e Rodolfo Ferraz - a tarefa quase hercúlea de levantar a ponte naquele trecho. E como quase tudo em matéria de grande estrutura em Blumenau, em meio a atrasos e discussões, a Ponte Lauro Muller nasceu oficialmente em 1913, 18 longos anos depois das primeiras falas sobre o tema. Uma proposta ousada para a época, contando até com a passagem do leito ferroviário sob a estrutura no lado da Rua Bahia, ainda aquele tempo uma das principais ligações de Blumenau ao Alto Vale.

A ponte em 1938, já com a grande cobertura. Por anos, uma travessia necessária mas que careceu de falta de manutenção. Foto: Adalberto Day

Ruína, ressurgimento e a caneta de Luiz Antônio

Os anos passaram, o constante crescimento daquela região da Rua Bahia e da cidade eram vistos como reflexo no entra-e-sai da velha ponte. Era notável que aquela provinciana Blumenau não era mais tão provinciana quando da primeira ideia lançada sobre a passagem no primitivo 1896. Neste ponto, estamos em 1981 e 68 anos já tinham passado sem grandes intervenções de manutenção. Madeiras do piso soltas, estrutura frágil, trânsito pesado, a ponte precisava de mais do que um "tapa", mas de uma reforma profunda.

Outra vez, o debate e a morosidade começaram. Em dezembro daquele ano, a prefeitura anunciou a tão esperada reforma depois de pressões populares e de uma estrutura em ruínas a olhos vistos. Infelizmente, a ponte não esperou o início das intervenções: em janeiro de 1982, um susto enorme era capa do Jornal de Santa Catarina do dia 6: por volta das 17h40, a cabeceira do lado da Rua Bahia ruiu enquanto passava um caminhão carregado de lajes pré-moldadas. O motorista e os dois passageiros escaparam por sorte, mas não dava mais para esperar para salvar a estrutura.

Janeiro de 1982: um caminhão carregado de lajes é demais para a ponte. O colapso não esperou as obras recém-anunciadas e outro debate irira começar. Foto: Antigamente em Blumenau / JSC

Mas depois do acidente, um dilema se abateu: uma ponte nova ou a recuperação da velha estrutura? O debate, como em 1896, voltou a ser intenso entre as duas ideias. No entanto, quem defendia que a estrutura antiga deveria ser recuperada e recondicionada encontrou guarida na caneta de um jornalista: foi Luiz Antônio Soares, à época na redação do JSC, que tomou as dores e colocou nas páginas do jornal a temática da recuperação da estrutura e das linhas clássicas da ponte. E não faltaram argumentos: o patrimônio, a importância histórica, o que ela representava para a região, de tudo um pouco.

Pressão, pressão, pressão, argumentos e um pouco de sentimentalismo que deram certo: a prefeitura optou pela ideia da preservação e reconstrução da ponte nas características originais. É notável que nem tudo é original, e nem poderia depois da implosão do que restou em pé da estrutura. Em março de 1983, a nova Ponte do Salto, com leito de concreto e totalmente coberta, enquanto que um ano antes, Soares tinha seu esforço reconhecido: pela campanha maciça foi condecorado com o Prêmio Esso de Reportagem (Regional Sul), tornando-se um exemplo de jornalismo pela causa da história.

Em três momentos, a queda de uma velha ponte. Foi assim a implosão do que restou da estrutura da velha Ponte do Salto. Dalí em diante, uma discussão intensa que ganhou contornos na luta diária do jornalista Luiz Antônio Soares pela preservação das características da estrutura. Em 1983, a nova passagem, com as clássicas linhas, era inaugurada. Fotos: Antigamente em Blumenau / JSC

Infelizmente, o teimoso Luiz Antônio não está mais entre nós: ele faleceu em 2013, curiosamente no ano de centenário da ponte que tanto defendeu e que lhe rendeu a maior glória da carreira. Ele tinha 72 anos e se recuperava de um traumatismo craniano depois de uma queda em casa. Já a ponte sobrevive há mais de um século, recebendo manutenções periódicas e sendo passagem vital como sempre o foi por anos e anos a fio.

Mas o que não muda, mesmo que desapercebida, é a marca histórica que a Ponte Lauro Muller tem na história da cidade. Uma proposta ousada, um debate acalorado como tantos em nosso quinhão de terra, uma campanha pela história preservada e uma memória tão pouco conhecida. Passar pela Ponta do Salto não é simplesmente um usufruto do trânsito, é trilhar um caminho recheado de uma história atribulada, valente e resistente ao tempo, e aos descaminhos.

São coisas de Blumenau, da história e de uma ponte pioneira e cheia de causos pra contar.

Foto: Adalberto Day
O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é WhatsApp-Image-2020-09-11-at-11.17.10.jpeg
Texto escrito por ANDRÉ BONOMINI

André Luiz Bonomini (o Boina), filho do Progresso, do Reino do Garcia. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Apaixonado por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como produtor e locutor da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é poeta "de fim de semana”, blogueiro e colunista.

Quer receber as notícias do Portal Alexandre José direto em seu celular, pelo WhatsApp? Então clique aqui e entre em nosso grupo. Informação em tempo real, onde quer que você esteja!

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Blumenau, SC
22°
Tempo nublado

Mín. 19° Máx. 34°

23° Sensação
0.77km/h Vento
86% Umidade
100% (2.98mm) Chance de chuva
06h26 Nascer do sol
06h13 Pôr do sol
Sáb 36° 19°
Dom 29° 20°
Seg 27° 20°
Ter 30° 21°
Qua ° °
Atualizado às 21h01
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,16 +0,00%
Euro
R$ 5,95 +0,02%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 363,250,83 -0,54%
Ibovespa
188,052,02 pts 0.05%