Não é de hoje que alertamos para o inferno astral enfrentado por Lula da Silva em sua tentativa de conquistar um quarto mandato presidencial. O que antes poderia parecer apenas uma sequência de problemas começa a se transformar numa tendência política perigosa para o petista. A economia aperta, a corrupção volta ao centro do debate, Alexandre de Moraes entra em desgraça e Flávio Bolsonaro aparece em trajetória de crescimento.
O bolso virou adversário
A primeira ameaça está na economia real, aquela que o brasileiro encontra no supermercado, nas contas de casa e na fatura do cartão. O salário já não permite manter o mesmo padrão de consumo, as famílias estão endividadas e a classe média perdeu qualquer sensação de segurança.
O problema não atinge apenas os mais pobres. Espalhou-se por praticamente todas as faixas de renda. Quando o dinheiro acaba antes do fim do mês, nenhum discurso oficial sobre crescimento, emprego ou inflação consegue convencer. O eleitor pode até não acompanhar diariamente a política, mas sabe exatamente quanto pagava no supermercado e quanto consegue levar para casa hoje.
Corrupção na porta
A corrupção também voltou a ocupar um lugar decisivo na escolha do eleitor. E Lula tem motivos de sobra para se preocupar.
O escândalo dos descontos indevidos no INSS atingiu justamente aposentados e pensionistas, uma das parcelas mais vulneráveis da população. Ao redor das investigações aparecem nomes próximos ao presidente: Lulinha é alvo de apurações sobre suspeita de tráfico de influência; Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete pessoal de Lula, também aparece no radar da Polícia Federal; e o sindicato no qual Frei Chico, irmão do presidente, ocupa a vice-presidência foi alvo de operações.
As situações jurídicas não são idênticas, mas politicamente formam uma nuvem explosiva sobre o Palácio do Planalto. Para quem busca um quarto mandato, ter filho, irmão e ex-chefe de gabinete citados no ambiente de uma investigação envolvendo dinheiro retirado de aposentados é pura nitroglicerina eleitoral.
Lula na defensiva
No 7 de Setembro, Lula conseguiu reunir em Brasília os presidentes do Supremo, do Senado e da Câmara. Tentou transmitir prestígio, estabilidade e união entre os Poderes. O resultado, porém, foi o contrário: passou a imagem de um presidente cercado pelo sistema e colocado na defensiva pela crise institucional.
Enquanto Lula se protegia no palanque oficial, Flávio Bolsonaro acionava a metralhadora giratória na Avenida Paulista. Relembrou as suspeitas envolvendo pessoas próximas ao presidente, atacou o PT e fez uma associação politicamente devastadora entre Lula e Alexandre de Moraes.
“Quem vota em Lula vota em Moraes.”
A frase é simples, direta e extremamente perigosa para o candidato à reeleição.
O abraço de Moraes
Durante anos, Lula, o PT e toda a esquerda transformaram Alexandre de Moraes em herói. Aplaudiram suas decisões, defenderam seus métodos e classificaram qualquer crítica ao ministro como um ataque à democracia.
Agora, quando Moraes enfrenta a maior crise de sua trajetória, Lula não consegue simplesmente fingir que nunca esteve ao seu lado. O abraço político dado ao ministro durante todos esses anos começa a cobrar seu preço.
A relação exposta entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, somada aos contratos milionários do Banco Master com o escritório de sua família, destruiu a imagem de autoridade intocável que o ministro construiu. E tudo aquilo que atingir Moraes, a partir de agora, terá potencial para respingar diretamente em Lula.
2022 ainda está vivo
Também permanece viva na memória de milhões de brasileiros a atuação de Alexandre de Moraes na Presidência do Tribunal Superior Eleitoral em 2022. Para uma parcela expressiva do país, aquela eleição foi conduzida de maneira parcial, sempre em prejuízo de Jair Bolsonaro e em benefício de Lula.
Vieram depois o 8 de Janeiro, as prisões, as condenações e penas consideradas desproporcionais por grande parte da direita. A tese de uma tentativa de golpe sem armas e sem controle de qualquer estrutura do Estado jamais convenceu milhões de brasileiros.
O que para a esquerda foi apresentado como defesa da democracia, para uma parte enorme da sociedade tornou-se símbolo de perseguição, abuso de poder e desequilíbrio institucional.
É justamente essa memória que Flávio Bolsonaro tenta despertar ao colocar Lula e Moraes no mesmo lado da eleição.
As curvas se cruzaram
A nova pesquisa Quaest mostra que o problema de Lula não é apenas político. Agora também é matemático.
A aprovação do governo caiu de 48% para 43% desde julho. No mesmo período, a desaprovação subiu de 47% para 50%. As curvas se cruzaram e abriram uma diferença negativa de sete pontos.
Não se trata de uma oscilação irrelevante. Lula entra na fase decisiva da campanha com metade dos brasileiros desaprovando seu governo e apenas 43% aprovando. Para um presidente que tenta a reeleição, é um sinal gravíssimo.
O Nordeste dá sinais
A deterioração alcançou segmentos fundamentais para a candidatura petista. No Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula, a desaprovação subiu de 29% para 35%. No Sudeste, passou de 50% para 56%.
Entre os homens, avançou de 50% para 57%. Entre os jovens, chegou a 55%. São movimentos importantes porque revelam que o desgaste não está concentrado em apenas uma região ou parcela da sociedade.
Lula começa a perder apoio justamente onde precisa construir vantagem para compensar a força da direita no Sul, no Centro-Oeste e em parte do Sudeste.
Empate em 41 a 41
Em julho, Lula mantinha uma vantagem de oito pontos sobre Flávio Bolsonaro numa simulação de segundo turno. Na semana passada, essa diferença havia caído para apenas um ponto.
Agora, a Quaest mostra empate numérico: 41% para Lula e 41% para Flávio.
A eleição de 2026 chega à reta final mais equilibrada do que a disputa enfrentada por Jair Bolsonaro quatro anos atrás. Lula ainda lidera o primeiro turno, mas já não pode olhar Flávio pelo retrovisor. Os dois estão lado a lado.
Flávio em alta
Todas as ondas mais recentes favorecem Flávio Bolsonaro e pressionam Lula. A economia desgasta o governo, as investigações atingem pessoas próximas ao presidente, a corrupção voltou ao debate e a crise de Alexandre de Moraes colocou o PT no lado mais desconfortável da disputa.
Flávio entendeu o momento. Saiu da defensiva, ocupou as ruas e decidiu associar Lula a tudo aquilo que Alexandre de Moraes passou a representar para milhões de brasileiros: autoritarismo, perseguição e proteção institucional.
É uma estratégia simples, mas poderosa. Quanto mais Lula defender Moraes, mais assumirá o desgaste do ministro. Quanto mais tentar se afastar, mais terá de explicar por que o apoiou durante tantos anos.
Vinte e cinco dias
Ainda restam aproximadamente 25 dias de campanha. Muita coisa pode acontecer, e seria precipitado afirmar que a eleição está decidida.
Mas a direção dos movimentos é clara: Flávio Bolsonaro está em viés de alta, enquanto Lula entra em viés de queda. Um candidato cresce impulsionado pelas ruas, pelo sentimento de mudança e pelo desgaste do adversário. O outro tenta proteger seu governo, sua família política e um ministro do Supremo que começou a desmoronar.
O inferno astral de Lula deixou de ser apenas uma expressão política. Agora aparece no bolso dos brasileiros, nas investigações, nas ruas e nas pesquisas.
E começa a ganhar forma de derrota.
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