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Mito em xeque

Mas a política, como se sabe, não perdoa excessos.

16/04/2026 às 08h53
Por: Redação
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Durante anos, Gilberto Kassab foi tratado como um dos mais habilidosos articuladores da política nacional. A imagem foi construída — e alimentada — por figuras de peso, entre elas Jorge Bornhausen, seu padrinho político, responsável por projetá-lo no cenário nacional, inclusive com declarações de JKB durante passagens do pupilo por Santa Catarina.

Mas a política, como se sabe, não perdoa excessos. E os movimentos mais recentes do presidente nacional do PSD indicam que o capital acumulado ao longo dos anos começa a sofrer desgaste — não por falta de articulação, mas, paradoxalmente, por excesso dela.

Kassab emerge no cenário nacional sob a tutela do ex-senador e ex-governador catarinense, ainda nos tempos de deputado federal. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela capacidade de composição, trânsito entre diferentes campos e leitura pragmática do poder.

Essa reputação o levou a comandar o PSD com mão firme, ampliando a presença do partido em estados estratégicos, especialmente em São Paulo, seu principal reduto.



Excesso de apetite

O problema começa quando a habilidade vira apetite desmedido. Em 2024, às vésperas das eleições municipais, Kassab promoveu uma verdadeira operação de esvaziamento do PSDB paulista. Capturou algo próximo de 95% dos prefeitos tucanos, especialmente no interior — um movimento agressivo, eficiente no curto prazo, mas politicamente custoso.



Formando inimigos

Para alcançar esse resultado, atropelou aliados históricos e abriu frentes de atrito com MDB, PP, União Brasil e Republicanos.

Criou, deliberadamente, um ambiente de tensão generalizada — e de potenciais inimigos em muitas frentes simultaneamente.



Atritos

A situação se agravou com a filiação em massa de deputados estaduais à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ampliando ainda mais o desconforto entre partidos que estiveram ao lado de Tarcísio de Freitas em 2022 e que esperavam reciprocidade no projeto de reeleição.



Enchendo os ouvidos

O governador paulista passou a receber reclamações constantes — e, mais do que isso, percebeu um problema central: Kassab deixou de atuar como articulador de coalizão para se comportar como operador exclusivo de interesses do próprio partido.

Faltou, claramente, moderação de apetite — algo, aliás, bastante comum na política tupiniquim, sobretudo quando alguma liderança é picada pela famosa “mosca azul”.



Ruptura

Esse conjunto de movimentos produziu um efeito direto: o esfriamento da relação entre Kassab e Tarcísio de Freitas.

O pessedista trabalhava com um projeto claro — ser vice na chapa de reeleição e, numa eventual desincompatibilização de Tarcísio em 2030 para disputar a Presidência, assumir o governo paulista e buscar a reeleição.



Script conhecido

Um roteiro já testado no passado, quando foi vice de José Serra e herdou a Prefeitura de São Paulo.

Mas o plano não prosperou. Tarcísio optou por manter o atual vice — curiosamente, indicado pelo próprio Kassab em 2022.



Nada disso

E a reação foi reveladora: Kassab não aceitou. Exigiu, nos bastidores, que o vice deixasse o PSD caso quisesse permanecer na chapa. Um movimento que, longe de fortalecer, expôs fragilidade política e um olhar apenas para o próprio umbigo — e não para um projeto.



Erro estratégico

Paralelamente, Kassab decidiu lançar o PSD na disputa presidencial com múltiplas opções — uma estratégia que, na prática, revelou indecisão e gerou mais atrito. Desta vez, internamente.

Colocou na vitrine Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.

Ratinho recuou. Caiado foi escolhido, contrariando expectativas. E Leite reagiu negativamente. Ou seja, ao tentar demonstrar força, Kassab criou e expôs fissuras.



Isolamento

A candidatura de Ronaldo Caiado nasce, assim, sob forte questionamento.

Sem capilaridade nacional consistente e, pior, sem apoio integral dentro do próprio partido, enfrenta resistência inclusive entre aliados naturais, muitos dos quais já sinalizam preferência por Flávio Bolsonaro.

É o retrato de uma articulação que perdeu coordenação — e que tem todas as digitais de Kassab.



Revisão de rota

A trajetória de Gilberto Kassab segue relevante, mas os sinais recentes são claros: o mito do articulador infalível começa a ser confrontado pela realidade.

Na política, acumular poder exige, antes de tudo, saber dosar ambição. Quando esse equilíbrio se rompe, o que era força se transforma em vulnerabilidade.

E Kassab, ao que tudo indica, começa a pagar o preço de ter avançado além do limite.

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Prisco Paraíso
Sobre o blog/coluna
Com mais de quatro décadas de experiência no jornalismo político, Prisco já passou pelos principais veículos de comunicação de Santa Catarina. Atuou como repórter, colunista e comentarista em rádio, TV e jornais. Hoje, assina sua coluna também no AJ Notícias com análises precisas e bastidores da política catarinense.
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