A menos de quatro meses das convenções homologatórias, o campo da esquerda em Santa Catarina segue operando em ritmo lento, quase protocolar. O silêncio que predominou nos últimos meses não foi casual: reflete uma acomodação interna que, mesmo após o fechamento da janela partidária e o prazo de desincompatibilizações, pouco se alterou — tanto no plano proporcional quanto na disputa majoritária.
Os movimentos mais recentes indicam que, enfim, poderá haver alguma reação. Mas, até aqui, o diagnóstico permanece claro: ausência de protagonismo, baixa mobilização e um desenho político que ainda carece de densidade eleitoral.
Contraste
O cenário municipal escancara essa limitação estrutural.
Dos oito prefeitos que deixaram seus cargos para disputar as eleições — casos emblemáticos como Adriano Silva e João Rodrigues — nenhum pertence ao campo da esquerda.
Mais do que isso: nas eleições municipais de 2024, apenas o Partido dos Trabalhadores apresentou algum desempenho relevante entre as siglas desse espectro, elegendo sete prefeitos, concentrados em municípios de pequeno e médio porte. Nenhum desses gestores abriu mão do mandato para voos maiores.
O contraste é evidente.
Parlamentar
No Legislativo, o quadro é igualmente estático.
Não houve movimentações relevantes de deputados estaduais ou federais vinculados à esquerda durante a janela partidária. Nenhuma oxigenação. Permanecem os mesmos nomes, com os mesmos discursos e posicionamentos, sem renovação perceptível.
Arranjo tardio
A formação da chapa majoritária começa, finalmente, a ganhar contornos — ainda que de forma tardia e tímida.
O PSOL decidiu integrar a aliança estadual após tensões no plano nacional, onde o partido rejeitou ampliar a federação já composta por PT, PV e PCdoB.
Em Santa Catarina, prevaleceu o pragmatismo: a sigla aderiu à composição local.
Chapa definida
O desenho que se projeta — ainda sem formalização oficial — aponta para a seguinte configuração:
Governo: Gelson Merisio (PSB)
Vice: Ângela Albino (PDT)
Senado: Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL)
Merisio, inclusive, já teria formalizado sua filiação ao PSB em Brasília, com aval do vice-presidente Geraldo Alckmin — embora, até o momento, sem manifestação pública consistente.
Fantasma
A ausência de protagonismo é o ponto mais sensível.
Merisio, virtual cabeça de chapa, praticamente não circula politicamente. Falta agenda pública consistente, articulação visível e presença em debate.
A percepção dominante é a de uma candidatura ainda pouco materializada no campo político.
Na moita
Em menor grau, o mesmo vale para Décio Lima e demais nomes da esquerda estadual.
Falta narrativa. Falta presença. Falta disputa.
Fora do jogo
Quem ficou fora da equação majoritária foi Dário Berger.
Após tentar a reeleição ao Senado em 2022, não encontrou espaço na atual composição. Ainda assim, foi politicamente acomodado com a nomeação de seu irmão, Djalma Berger, para uma diretoria na Itaipu Binacional — movimento de evidente peso político.
Foco nacional
No pano de fundo, o objetivo permanece claro: melhorar o desempenho de Lula em Santa Catarina, especialmente em relação a 2022, quando foi amplamente derrotado por Jair Bolsonaro.
A eleição estadual, nesse contexto, assume papel instrumental para o projeto nacional.
Inércia
A pergunta que se impõe é direta:
quando a esquerda catarinense vai, de fato, entrar em campanha?
O calendário é implacável. As convenções começam em 20 de julho e se encerram em 5 de agosto.
E eleição, como se sabe, não se vence apenas com arranjo — exige disposição real de disputar.
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