Estava eu na última segunda-feira (5) puxando um ferrinho e queimando os excessos do fim de semana, na VO2 Artes Marciais, quando o professor Everson de Oliveira, o Preto, lembrou da semifinal de Gabriel Medina no surf.
Cortou o som e conectou o computador no Youtube da Cazé TV.
Passamos a torcer pelo brasileiro e secar o australiano.

No treino funcional, a cada sessão, você dá uma respirada de 1 minuto.
Nos intervalos, me aproximei da tela para ver a disputa e também para acompanhar em tempo real (era inevitável porque apareciam aos montes) os comentários dos "especialistas".

Dei muita risada.
Afinal, o brasileiro se supera em pitacos, piadas e memes.
Nisso, somos imbatíveis.

Têm pessoas que entendem do riscado.
Mas, a esmagadora maioria (em quase todos os esportes) não sabe nada de regras.

A melhor revertida que um corneteiro recebeu foi essa:
"O cara mal consegue se equilibrar em um skate e se acha no direito de criticar um tricampeão mundial".

O patrimônio de Medina supera os R$100 milhões.
Fatura por temporada cerca de R$ 11 milhões.
Com prêmios de campeonatos e das campanhas publicitárias que participa.
Em tempo, o surfista é um dos casos fora da curva quando olhamos a trajetória dos nossos 276 atletas.
O simples fato de estar em uma Olimpíada já os torna campeões.
Não fazemos ideia do sacrifício que fazem, do que abrem mão, o que ralam para chegar lá.

Como Matheus Corrêa.
Que terminou a prova de 20km da marcha atlética em 39º lugar.
O blumenauense, que também esteve em Tóquio e foi 46º colocado, tem só 23 anos.
Em tese, tem mais três ciclos para tentar repetir, no mínimo, o feito de Caio Bonfim, medalha de prata em sua quarta Olimpíada.

O atleta do Distrito Federal é a maior referência do gênero no país.
Não por acaso.
Integra o Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR) das Forças Armadas do Brasil (é terceiro sargento da aeronáutica).
É treinado pela mãe, Gianette Bonfim, que foi oito vezes campeã de marcha atlética.
João Sena, o pai, também faz parte do seu staff.
Caio treina nas ruas e no estádio Augustinho Lima, onde o projeto Centro de Atletismo de Sobradinho, organizado pela família Bonfim, é realizado.

Matheus também marcha nas ruas de Blumenau e no Parque Ramiro.
Ao contrário do colega, não tem pista em estádio para treinar, pois a estrutura do Sesi está sem condições de uso.

Fala-se muito em foco, disciplina e persistência.
Contudo, quando um profissional tem melhores condições de trabalho para se aprimorar, as chances de vitória aumentam consideravelmente.

Matheus recebe de Bolsa Atleta do Governo Federal, como atleta olímpico, R$ 3.437,00.
Nas terças, quintas e sextas-feiras à noite é professor de corrida.

O marchador até poderia aumentar sua renda se medalhasse, embora chegar a esse patamar seja tarefa das mais difíceis.
Até porque houve um aumento de 40% na premiação.
O valor para quem ganha um ouro é de R$ 350 mil.
Prata: R$ 210 mil.
Bronze: R$ 140 mil.
Para as modalidades coletivas:
1º lugar: R$ 700 mil.
2º lugar: R$ 420 mil.
3º lugar: R$ 280 mil.

Rebeca Andrade recebeu R$ 826 mil (R$ 350 mil pelo ouro, R$ 210 mil por cada prata e R$ 56 mil pelo bronze).
Quantia que vai ajudar muito, com certeza.
No entanto, a ginasta com seis medalhas olímpicas, já era antes mesmo de Paris, um nome consolidado e cobiçado.
Tanto é que viajou para a Europa com 16 parcerias comerciais firmadas.
Faturamento que pode chegar entre R$ 600 mil e R$ 1 milhão por ano.

Sucesso também refletido em suas redes sociais, onde o número de seguidores da ginasta de 25 anos no Instagram cresceu exponencialmente, passando de 2,5 milhões no início das Olimpíadas para mais de 10 milhões atualmente.

Nada mais justo para quem foi persistente e precisou suar muito quando começou a carreira em Guarulhos SP.
Seu salário no Flamengo é de R$ 20 mil - quando no futebol temos "bagres" faturando R$ 200, 300 mil por mês.

Oxalá Beatriz Souza, 26 anos, a primeira brasileira a conquistar a medalha de ouro para o Brasil na França, receba de alguma forma, a mesma atenção da mídia e dos patrocinadores.
A judoca do Pinheiros SP foi mais uma atleta negra a subir no lugar mais alto do pódio.
Como falou após o feito no tatame: "Mulherada, pretos e pretas, é possível".

"O sucesso delas é um ótimo momento para a gente refletir a questão racial de forma mais ampla na sociedade", diz a professora Doiara dos Santos, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) de Minas Gerais, que pesquisa questões de gênero e raça nos esportes.

Esse é o problema.
O Brasil só reflete e faz promessas de quatro em quatro anos.
Porque o desdém é histórico.
E o escárnio com o esporte não tem nada a ver se o governo é petista ou bolsonarista.
Pois, o Brasil participa das Olimpíadas desde 1920, ou seja, há mais de 100 anos.

Basta ver o que foi feito com Ana Moser.
A blumenauense foi demitida do Ministério do Esporte em setembro de 2023 - ficou no cargo 248 dias.

O presidente Lula colocou em seu lugar o deputado André Fufuca (PP-MA).
Com o objetivo de trazer o Centrão para o governo.

Um médico (mas acima de tudo um político), comandando o esporte na vaga de uma ex-atleta olímpica de vôlei (Seul-1988, Barcelona-1992 e Atlanta-1996).
Não tem como dar certo.



Emerson Luis é jornalista. Completou sua graduação em 2009. Trabalha com comunicação desde 1990 quando começou na função de repórter/setorista na Rádio Unisul - atual CBN. Atualmente é apresentador, repórter, produtor e editor de esportes do Balanço Geral da NDTV Blumenau. Na mesma emissora filiada à TV Record, ainda exerce a função de comentarista, no programa Clube da Bola, exibido todos os sábados, das 13h30 às 15h. Também é boleiro na Patota 5ª Tentativa

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