
Faça a sua tarefa bem feita.
Tendo a certeza do dever cumprido.
A convicção de ter sido extremamente profissional e respeitoso.
Com os entrevistados.
Com o texto que irá produzir.

"Fora do ar", no anonimato, em contatos privados, recebo alguns elogios de personagens e parentes próximos, envolvidos em uma reportagem.
Fico arrepiado.
Em alguns casos, emocionado.
O melhor dos prêmios.
A convicção de estar no caminho certo.

Até porque precisamos valorizar as pessoas e suas histórias.
Elas precisam ter espaço.
O fato de poder, de uma forma ou de outra, ajudar alguém, é de uma nobreza ímpar.

A mensagem que recebi de Luis Carlos Koch, presidente do Instituto Metropolitano, é o gancho desse artigo.
Pode soar singela, no contexto geral.
No entanto, para mim, tem um grande peso.

"Fruto de sua reportagem (na NDTV) sobre a Escolinha da AEFA/Alvorada, dois atletas do professor Mateus foram convidados para fazerem avaliações no Sub 17 do Metropolitano".
Os garotos em questão são o zagueiro Gabriel e o meia-atacante Igor.
Gabriel vai ser relacionado para um amistoso neste fim de semana.

Igor, por sua vez, já treinou no Metrô.
Fez testes no Hercílio Luz de Tubarão.
Não deu certo.
Vai tentar a sorte no Juventus de Jaraguá do Sul.
Independentemente do lugar, saber que um desses moleques pode arrebentar e concretizar o sonho da sua vida, é impactante.
Porque milhares de meninos estão à espera de uma chance.

Essa semana apresentei no esporte do Balanço Geral o trabalho de outro projeto bem bacana.
Da Escolinha de Futebol Francis/IAFA.
Fundada e coordenada por Francis Ludwig.

Ex-goleiro do BEC.

Que fez parte do grupo campeão da segunda divisão em 1987.
E do elenco vice-campeão da primeira divisão de 1988.

Desiludido com as injustiças (inclusive naquele quadrangular final de 88, quando chegou a dormir como titular e acordar como reserva) e enojado com o submundo da bola, decidiu parar.
Com apenas 28 anos.
Em 1994.

Foi estudar.
Se graduou em educação física.

Fundou no mesmo ano a sua escolinha.
O começo foi no campo do Sesi.
Funcionou até 2002.
Resolveu dar um tempo.
Virou treinador (o primeiro) do Clube Atlético Metropolitano.

Em 2002, participou do processo de transição do futebol amador do Atlético Itoupava para o futebol profissional do Metrô.
Deu aulas de futsal no Colégio Shalom.
Até que em 2010 refundou a Francis/IAFA.
Desde então, não parou mais.

Com apoio incondicional dos pais e de patrocinadores, tem incentivado os meninos, por meio de competições, a serem observados por grandes clubes - que têm olheiros em todos os cantos - ao mesmo tempo orientando-os sobre as dificuldades da profissão.
Só este ano são 11 eventos programados.
373 jogos.

Os números falam por si só.
Prova incontestável do sucesso do programa.
333 alunos.
Dos 5 aos 15 anos.
Distribuídos em três núcleos:
O principal, na Associação Karsten, no Testo Salto.
No campo do Atlético, na Itoupava Central.
E no Água Verde, em Pomerode.

São nos torneios que eles têm a chance de mostrar potencial.
Na Copa Mercosul, não foi diferente.
O Fluminense, por exemplo, gostou de cinco jovens.

Um deles é Nicolas Sasse.
O zagueiro de 15 anos, 1,92m de altura, vai inicialmente fazer testes no Desportivo Brasil, em Porto Feliz (100 km de São Paulo).

A delegação viajou para Rancharia SP com 73 atletas.
Em quatro categorias.
Destaque para o 3º lugar do time Sub 15.
Eliminado nos pênaltis para o Londrina.

Também participou com as equipes Sub 11.

Sub 12.

E Sub 13.

Sempre lamento que a maioria das escolinhas (sem o envolvimento de especialistas e empresários no mercado) lapidam, revelam, formam jogadores - e não recebem nada em troca, financeiramente falando.
A Francis/IAFA até possui alguns contratos de parcerias.
Geralmente com determinado valor fixado, tipo 10%, em uma futura venda.
Só que há vários fatores envolvidos no êxito de uma negociação.
Francis me contou um caso clássico.

Do atacante Tony.
Que foi para o Grêmio.
Com 14 anos.
Despontou em Porto Alegre.
Chegou a assinar um contrato de três anos.
Tinha tudo para subir.
Só que teve um azar danado em 2019.
Operou o joelho.
Voltou.
Não foi mais o mesmo.
Não conseguiu se firmar (imagina o tamanho da disputa por espaço em um clube como o Grêmio).

Foi emprestado para o Grêmio Sãocarlense SP.
Foi campeão Sub 20 da Série B com o Nação de Joinville (hoje Nação/Araquari).
O contrato venceu em outubro do ano passado com o Grêmio e não foi renovado.
Tony, por ora, com 20 anos, completados em 11 de janeiro, está sem clube.
Propenso a largar tudo.
De quebra, não esquecendo, a escolinha não recebeu um tostão.

Existem outros jovens atuando fora daqui.
Como o volante Iago, na Chapecoense.

Os meias Vitor Staloc, no Hercílio Luz.

E Gustavo Uller, que passou pelo mesmo Hercílio Luz e fechou agora com o Barra de Balneário Camboriú.

E o atacante Luan Pitz, no Athletico Paranaense.

É um trabalho exemplar, ao mesmo tempo cansativo.
Francis, atualmente com 58 anos, deu um susto na família recentemente.
Passou 20 dias internado com uma embolia pulmonar.
Ainda está se recuperando.

De qualquer forma, já produziu um discípulo, um substituto natural.
O filho Gabriel.
Que como todo menino, sonhava em ser jogador.
Defendeu o Metropolitano.
Depois de enfrentar dificuldades na concentração e na alimentação no Linense SP, o volante/lateral telefonou para o pai e voltou para casa.
Não queria perder os estudos.
O futuro era incerto.
Decidiu começar um novo ciclo.
Só tinha 17 anos.
Se formou, virou professor.
É o técnico de competições.

São tantos casos, em todos os cantos, com aposentadorias precoces, que fico impressionado.
A trajetória de Rafael Fonseca, responsável pela categoria de iniciação, me chamou a atenção.
Tinha visto ele na última edição da FluTimbó e fiquei curioso.
Porque, sinceramente, não lembro dele atuando no tricolor carioca.
No próprio Google não há nenhuma menção sobre sua carreira.

O zagueiro e volante pendurou as chuteiras com 26 anos.
Mesmo jogando no exterior (Braga/Portugal-Lokomotiv/Rússia).
Me contou um episódio que viveu na base do São Paulo.
Quando um treinador falou para os 25 guris do grupo "que não adiantava só ter talento, era preciso se dedicar ao máximo, ter disciplina, porque daqui, apenas um jovem, no máximo, se destacaria no futuro"
Alguns subiram.
Até jogaram.
Outros largaram.
Porém, nenhum deles ficou famoso.
É o caso de Rafael.

A gente costuma falar muito da concorrência dos cursos de medicina.
Mas não temos como mensurar o tamanho da disputa por um lugar ao sol no futebol.
É um ambiente feroz e bárbaro, implacável e impiedoso.

Emerson Luis é jornalista. Completou sua graduação em 2009 no Ibes/Sociesc. Trabalha com comunicação desde 1990 quando começou na função de setorista na Rádio Unisul - atual CBN. Atualmente é apresentador, repórter, produtor e editor do quadro de esportes do Balanço Geral da NDTV RecordTV Blumenau. Além de boleiro na Patota 5ª Tentativa.


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