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Emerson Luis. Esporte: Ambiente cruel

Emerson Luis. Esporte: Ambiente cruel

16/02/2024 às 19h44 Atualizada em 16/02/2024 às 22h44
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Time de uma escolinha de futebol de Blumenau na disputa de uma competição em São Paulo. Foto: Internet
Time de uma escolinha de futebol de Blumenau na disputa de uma competição em São Paulo. Foto: Internet

Faça a sua tarefa bem feita.

Tendo a certeza do dever cumprido.

A convicção de ter sido extremamente profissional e respeitoso.

Com os entrevistados. 

Com o texto que irá produzir.

"Fora do ar", no anonimato, em contatos privados, recebo alguns elogios de personagens e parentes próximos, envolvidos em uma reportagem.

Fico arrepiado.

Em alguns casos, emocionado.

O melhor dos prêmios.

A convicção de estar no caminho certo.

Até porque precisamos valorizar as pessoas e suas histórias.

Elas precisam ter espaço.

O fato de poder, de uma forma ou de outra, ajudar alguém, é de uma nobreza ímpar.

A mensagem que recebi de Luis Carlos Koch, presidente do Instituto Metropolitano, é o gancho desse artigo.

Pode soar singela, no contexto geral.

No entanto, para mim, tem um grande peso.

Escola de Futebol fica na Itoupava Central. Foto: Reprodução/AEFA-Alvorada

"Fruto de sua reportagem (na NDTV) sobre a Escolinha da AEFA/Alvorada, dois atletas do professor Mateus foram convidados para fazerem avaliações no Sub 17 do Metropolitano".

Os garotos em questão são o zagueiro Gabriel e o meia-atacante Igor.

Gabriel vai ser relacionado para um amistoso neste fim de semana.

Igor, por sua vez, já treinou no Metrô.

Fez testes no Hercílio Luz de Tubarão.

Não deu certo.

Vai tentar a sorte no Juventus de Jaraguá do Sul.

Independentemente do lugar, saber que um desses moleques pode arrebentar e concretizar o sonho da sua vida, é impactante.

Porque milhares de meninos estão à espera de uma chance.

Essa semana apresentei no esporte do Balanço Geral o trabalho de outro projeto bem bacana.

Da Escolinha de Futebol Francis/IAFA.

Fundada e coordenada por Francis Ludwig.

Francis em 1985 na base do Blumenau. Foto: Arquivo pessoal

Ex-goleiro do BEC.

No Estádio do Sesi também em 1985. Foto: Arquivo pessoal

Que fez parte do grupo campeão da segunda divisão em 1987.

E do elenco vice-campeão da primeira divisão de 1988.

Francis foi vice-campeão catarinense pelo Blumenau. Foto: Reprodução/Internet

Desiludido com as injustiças (inclusive naquele quadrangular final de 88, quando chegou a dormir como titular e acordar como reserva) e enojado com o submundo da bola, decidiu parar.

Com apenas 28 anos.

Em 1994.

Francis nos tempos do Concórdia em 1993. Foto: Arquivo pessoal

Foi estudar.

Se graduou em educação física.

Recebendo o diploma de educação física. Foto: Arquivo pessoal

Fundou no mesmo ano a sua escolinha.

O começo foi no campo do Sesi.

Funcionou até 2002.

Resolveu dar um tempo.

Virou treinador (o primeiro) do Clube Atlético Metropolitano.

Francis em 2002 no Atlético Itoupava. Foto: Marcos Porto/Santa

Em 2002, participou do processo de transição do futebol amador do Atlético Itoupava para o futebol profissional do Metrô.

Deu aulas de futsal no Colégio Shalom.

Até que em 2010 refundou a Francis/IAFA.

Desde então, não parou mais.

Orientando os jogadores no treino do Metropolitano. Foto: Reprodução/Internet

Com apoio incondicional dos pais e de patrocinadores, tem incentivado os meninos, por meio de competições, a serem observados por grandes clubes - que têm olheiros em todos os cantos - ao mesmo tempo orientando-os sobre as dificuldades da profissão.

Só este ano são 11 eventos programados.

373 jogos.

Na Copa Mercosul com os observadores de grandes clubes. Foto: Francis/IAFA

Os números falam por si só.

Prova incontestável do sucesso do programa.

333 alunos.

Dos 5 aos 15 anos.

Distribuídos em três núcleos:

O principal, na Associação Karsten, no Testo Salto.

No campo do Atlético, na Itoupava Central.

E no Água Verde, em Pomerode.

São nos torneios que eles têm a chance de mostrar potencial.

Na Copa Mercosul, não foi diferente.

O Fluminense, por exemplo, gostou de cinco jovens.

Preparando entrevista com Nicolas Sasse para a NDTV. Foto: Juh Souza

Um deles é Nicolas Sasse.

O zagueiro de 15 anos, 1,92m de altura, vai inicialmente fazer testes no Desportivo Brasil, em Porto Feliz (100 km de São Paulo).

Infraestrutura do Desportivo Brasil é referência nacional. Foto: Desportivo Brasil

A delegação viajou para Rancharia SP com 73 atletas.

Em quatro categorias.

Destaque para o 3º lugar do time Sub 15.

Eliminado nos pênaltis para o Londrina.

Sub 15 ficou em 3º lugar em Rancharia SP. Foto: Francis/IAFA

Também participou com as equipes Sub 11.

Equipe Sub 11. Foto: Reprodução/Francis/IAFA

Sub 12.

Time Sub 12. Foto: Francis/IAFA

E Sub 13.

Elenco Sub 13. Foto: Francis/IAFA

Sempre lamento que a maioria das escolinhas (sem o envolvimento de especialistas e empresários no mercado) lapidam, revelam, formam jogadores - e não recebem nada em troca, financeiramente falando.

A Francis/IAFA até possui alguns contratos de parcerias.

Geralmente com determinado valor fixado, tipo 10%, em uma futura venda.

Só que há vários fatores envolvidos no êxito de uma negociação.

Francis me contou um caso clássico.

Francis e Tony no Grêmio. Foto: Arquivo pessoal

Do atacante Tony.

Que foi para o Grêmio.

Com 14 anos.

Despontou em Porto Alegre.

Chegou a assinar um contrato de três anos.

Tinha tudo para subir.

Só que teve um azar danado em 2019.

Operou o joelho.

Voltou.

Não foi mais o mesmo.

Não conseguiu se firmar (imagina o tamanho da disputa por espaço em um clube como o Grêmio).

Tony nos tempos do Grêmio. Foto: Reprodução/Internet

Foi emprestado para o Grêmio Sãocarlense SP.

Foi campeão Sub 20 da Série B com o Nação de Joinville (hoje Nação/Araquari).

O contrato venceu em outubro do ano passado com o Grêmio e não foi renovado.

Tony, por ora, com 20 anos, completados em 11 de janeiro, está sem clube.

Propenso a largar tudo.

De quebra, não esquecendo, a escolinha não recebeu um tostão.

Tony foi o camisa 10 do Nação em 2023. Foto: Fernando Ribeiro/FCF

Existem outros jovens atuando fora daqui.

Como o volante Iago, na Chapecoense.

Iago está na Chapecoense desde 2022. Foto: Reprodução/Francis-IAFA

Os meias Vitor Staloc, no Hercílio Luz.

Vitor Staloc atua no Sub 16 do Hercílio Luz. Foto: Reprodução/Francis-IAFA

E Gustavo Uller, que passou pelo mesmo Hercílio Luz e fechou agora com o Barra de Balneário Camboriú.

Gustavo Uller com a camisa do Hercílio Luz. Foto: Francis/IAFA

E o atacante Luan Pitz, no Athletico Paranaense.

Luan Pitz em ação no Athletico. Foto: Reprodução/Francis-IAFA

É um trabalho exemplar, ao mesmo tempo cansativo.

Francis, atualmente com 58 anos, deu um susto na família recentemente.

Passou 20 dias internado com uma embolia pulmonar.

Ainda está se recuperando.

Francis Ludwig e eu na Associação Karsten. Foto: Juh Souza

De qualquer forma, já produziu um discípulo, um substituto natural.

O filho Gabriel.

Que como todo menino, sonhava em ser jogador.

Defendeu o Metropolitano.

Depois de enfrentar dificuldades na concentração e na alimentação no Linense SP, o volante/lateral telefonou para o pai e voltou para casa.

Não queria perder os estudos.

O futuro era incerto.

Decidiu começar um novo ciclo.

Só tinha 17 anos.

Se formou, virou professor.

É o técnico de competições.

Gabriel, seguindo os passos do pai. Foto: Juh Souza

São tantos casos, em todos os cantos, com aposentadorias precoces, que fico impressionado.

A trajetória de Rafael Fonseca, responsável pela categoria de iniciação, me chamou a atenção.

Tinha visto ele na última edição da FluTimbó e fiquei curioso.

Porque, sinceramente, não lembro dele atuando no tricolor carioca.

No próprio Google não há nenhuma menção sobre sua carreira.

Rafael Fonseca na última edição da FluTimbó. Foto: Reprodução/FluTimbó

O zagueiro e volante pendurou as chuteiras com 26 anos.

Mesmo jogando no exterior (Braga/Portugal-Lokomotiv/Rússia).

Me contou um episódio que viveu na base do São Paulo.

Quando um treinador falou para os 25 guris do grupo "que não adiantava só ter talento, era preciso se dedicar ao máximo, ter disciplina, porque daqui, apenas um jovem, no máximo, se destacaria no futuro"

Alguns subiram.

Até jogaram.

Outros largaram.

Porém, nenhum deles ficou famoso.

É o caso de Rafael.

Com o técnico da iniciação, Rafael Fonseca . Foto: Juh Souza

A gente costuma falar muito da concorrência dos cursos de medicina.

Mas não temos como mensurar o tamanho da disputa por um lugar ao sol no futebol.

É um ambiente feroz e bárbaro, implacável e impiedoso.

Emerson Luis é jornalista. Completou sua graduação em 2009 no Ibes/Sociesc. Trabalha com comunicação desde 1990 quando começou na função de setorista na Rádio Unisul - atual CBN. Atualmente é apresentador, repórter, produtor e editor do quadro de esportes do Balanço Geral da NDTV RecordTV Blumenau. Além de boleiro na Patota 5ª Tentativa.  

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