
Atletas costumam dizer que a aposentadoria é uma das piores sensações que existem.
Depende.
Principalmente da maneira como a carreira foi construída.
Como a de Paulo Roberto Gonzaga.

Que decidiu, no último dia 2 de dezembro, aos 34 anos de idade, se ausentar dos gramados.
Com a camisa do Matsumoto Yamaga.
Clube que mais jogou (2016/2017/2018/2019/2022/2023) e se identificou no Japão.

Paulinho defendeu outros cinco times:
Tochigi (2010/2011/2012/2013).
Kawasaki Frontale (2014).
JEF United (2015).
Shonan Bellmare (2016).
Fagiano Okayama (2020/2021).

Foram 353 jogos (o objetivo era chegar nos 400).
O terceiro brasileiro que mais atuou por lá.
Uma trajetória de sucesso.
Consolidada.

No próximo dia 26, o blumenauense vai estar de aniversário.
Ele poderia, assim como tantos boleiros, seguir "mentindo e enganando".
No mínimo, por mais uma temporada.
Afinal, sempre foi um profissional que se cuidou - apesar das quatro lesões gravíssimas que contraiu.

A primeira, bem cedo.
Aos 15 anos.
Em 2005.
Na estreia do Metropolitano na Série A.
Contra o Tubarão, no Sesi.
Rompeu os ligamentos do joelho - ficou um ano de molho.

No exterior teve duas quebras ósseas.
E ainda estourou o tendão.

Mas Beto, como é conhecido entre os mais chegados, não quis mentir para si mesmo.
O menino criado na rua Guarapari, no Progresso, possui berço, raízes, princípios...
Foi abençoado por ter uma família simples e batalhadora.

O pai, Gonzaga, trabalhou como operador de máquinas na Artex.

A mãe, Ivone, como secretária da Escola Celso Ramos.

A decisão foi tomada em conjunto.
Com serenidade.
Com a sensação de dever cumprido.

Em paz com a sua consciência.
E com a sua rica biografia.

Todo moleque sonha em jogar na Europa.
Paulinho também alimentava esse desejo.
No entanto, quis o destino que sua vida passasse por uma metamorfose, no outro lado do planeta.

Ninguém joga 13 anos e meio em um país com uma cultura complemente diferente da nossa, se destaca e vira ídolo, à toa.

Outra coisa: nem todo mundo consegue manter uma relação de 19 anos com os mesmos empresários (Sandro Glatz Wienhage e Alexandre Kuniy).
Isso chama-se caráter, transparência, lealdade.

Paulinho teve de ralar muito.
Desde os 8 anos.

Na Copa Hering, em 1998, ganhou a primeira medalha.
De artilheiro.

Além do primeiro troféu.
De 4º lugar.

Seu primeiro professor foi Júlio Pitz.

Seguido de Silvio Galassini e Ademar Molon.

Itamar Schülle lhe deu a chance de fazer parte do elenco principal.

César Paulista, por sua vez, conhecia seu potencial na base.

Foi quem lhe colocou para jogar como titular.

Por cerca de três anos, também jogou futsal na Apama, com Reginaldo de Souza.

Paulinho teve uma experiência marcante no Atlético Paranaense (Athletico).
Com 13 anos de idade foi jogar a Copa Votorantim.
Ao menos essa era a intenção.
Junto com o atacante Marco Aurélio.

O pai não queria que ele viajasse para Curitiba.
Entendia que o filho estava no caminho certo, amadurecendo, em casa, seguro, protegido...
Seu Gonzaga chegou a oferecer seu 13º salário para que o jovem ficasse em Blumenau.
Mas o garoto, decidido (que abriu mão de passar as férias na praia com os primos), enxergava a oportunidade como única.
Competição de ponta.
Por um clube grande.
Visibilidade.

A dupla viajou dia 26 de dezembro.
Se apresentou para treinar direto, sem testes, com o elenco Sub-14 do Furacão.
Porém, na capital paranaense, a ficha caiu.
O adolescente enxergou o quão difícil é a vida de um moleque em busca do sonho de ser jogador de futebol.

A saudade bateu forte.
Chorava todos os dias com o pai e a mãe ao telefone.
Não aguentou a barra.
Pediu socorro.
Prontamente atendido.
No dia 31, o paizão e os tios Marcos e Celso pegaram a estrada para "resgatá-lo" no CT do Caju.

Foi um grande aprendizado.
No Grêmio, onde se tornou campeão brasileiro Sub-20, como capitão, se adaptou rapidamente.
Ficou em Porto Alegre por três anos.
Subiu e fez toda a pré-temporada.
Por uma cláusula contratual não ficou.

Rodrigo Caetano, ex-dirigente tricolor, o levou para o Vasco.
Apesar do pouco aproveitamento, foi campeão da Série B do Campeonato Brasileiro e ajudou o time, em 2009, sob o comando de Dorival Júnior, a voltar para a elite.

Em junho de 2010 partiu para Tochigi para jogar a J2 League.
Os pais e a namorada foram visitá-lo em 2011 e 2012.
Em 2013, Cristina Voitena foi em definitivo.
Abriu mão do sonho de ser dentista para ficar ao lado do parceiro.
Sua presença teve enorme influência em seu desempenho.

Os dois estudaram no Padre José Maurício.
Se conheciam de vista.
O flerte, no entanto, começou nos tempos do Vasco.
Por mensagens no Orkut.

Namoraram.
Casaram.
Tiveram dois filhos.
Helena, de 8 anos.
E Samuel, de 6.
Ambos nasceram em Tóquio.

Paulinho não cansa de dizer que sem o suporte da família não chegaria a lugar algum.
A começar pelo pai que considera seu melhor amigo.
O grande incentivador.

Bem como a mãe e a irmã - que mora no Mato Grosso do Sul.
Além, claro, da esposa, que perdeu dezenas de noites de sono, por conta de um problema estomacal da filha nos seus dois primeiros anos de vida.
"Minha mulher foi uma guerreira!"

Em 2014, seu primeiro gesto (material) de retribuição e gratidão foi dar um apartamento para os pais.
Paulinho soube investir e poupar o dinheiro que ganhou.

Em sociedade com os ex-companheiros de Metrô, Fernando Voltolini e Fernando Schmude, inaugurou em dezembro e janeiro, duas franquias de lavanderia.

Por ora, o ex-volante/meio-campo (agora, olheiro do Matsumoto Yamaga) vai despachar do apartamento que tem no litoral.

O desejo da família é morar em uma casa.
O terreno já foi comprado.
Em Blumenau.

Onde tudo começou.
Onde a humildade e a fibra da família Gonzaga permanecem enraizadas.


Emerson Luis é jornalista. Completou sua graduação em 2009 no Ibes/Sociesc. Trabalha com comunicação desde 1990 quando começou na função de setorista na Rádio Unisul - atual CBN. Atualmente é apresentador, repórter e produtor no quadro de esportes do Balanço Geral da NDTV Record TV Blumenau. Além de boleiro na Patota 5ª Tentativa.


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