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Márcia Pontes: aprendendo a conviver com a dor da perda no trânsito

Márcia Pontes: aprendendo a conviver com a dor da perda no trânsito

26/12/2023 às 10h15 Atualizada em 26/12/2023 às 13h15
Por: Tom
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Foto: Reprodução/Internet
Foto: Reprodução/Internet

Em meio às postagens felizes de mesa farta e gente sorridente nas publicações em redes sociais na Noite de Natal muitos sorrisos tentam aliviar a dor da perda e da certeza de que há alguém especial que nunca mais verá e nem poderá tocar além da saudade. Gente que se foi a muito tempo ou das quais ainda estão se despedindo. Eu mesma na convivência diária com a dor que a perda no trânsito traz vejo momentos de alternância entre tentar aprender a conviver com a dor e reatualizá-la em datas mais sensíveis do ano. Mas, como aprender a conviver com a dor da perda nas vias e seguir a vida?

Aprendizado

Minha avó já dizia que com tudo aquilo que acontece em nossa vida aprendemos alguma coisa. Há quem aprenda com os erros dos outros e quem aprenda com os próprios erros. Cada um vive e realiza o seu luto de uma maneira.

O tempo não espera

O fato é que o tempo não espera ninguém, ele simplesmente corre. Nos movemos pela vida sempre certos de que sempre teremos tempo para rever quem amamos e por conta disso vivemos adiando momentos que nunca mais voltarão. 

Aprendi isso no Natal de 2014 quando em cima da hora avisei a minha mãe que não iria para a ceia e agilizaria tudo para ir no Ano Novo. Trabalhei mal o meu tempo e na primeira semana de 2015 minha mãe teve um AVC hemorrágico. Foram 32 dias morando com ela em hospitais e uma Paralisia de Bell 15 dias depois dela ter partido. Foi aí que aprendi que o tempo muitas vezes não dá tempo da gente se reencontrar. 

“Mãe, abre o portão que estou chegando” e até hoje a Amanda não voltou prá casa. 

“Pai, vai dirigindo na frente que a gente se encontra lá” e o Ismael nunca chegou no ponto de encontro. Seu pai teve de retornar o trajeto e descobrir que aquele corpo no asfalto era do próprio filho. 

“Mãe, não fica acordada a noite toda e vê se não levanta tarde prá gente tomar café da manhã juntos” e o André nunca mais sentou-se à mesa. 

“Vou ali no outro lado da rua rapidinho e já volto” e o Sandro, que era profissional do trânsito, nunca mais voltou para casa. 

É assim: nunca saberemos o dia, a hora nem o quanto de tempo temos ao lado de quem amamos. 

Tempo perdido

Enquanto pelas redes sociais sobravam flashes e registros felizes da noite de Natal muitas pessoas que ainda não entenderam a velocidade do tempo continuavam brigadas. Filhos que não falam com seus pais, irmãos que não se falam faz anos, famílias separadas por desentendimentos que se tornam bobos perto do sofrimento de se perder alguém de uma hora para outra nas vias. 

Como diz a música, a felicidade está no caminho, por isso temos de aproveitar todos os momentos que temos com quem amamos, estejam perto ou longe. Todos temos alegrias, sonhos, projetos, sorrisos, abraços para compartilhar com muitas pessoas e não é no nosso tempo, é no tempo do tempo que não espera ninguém. 

Fé na caminhada

Nesse final de semana de Natal a comoção não foi só dos profissionais da imprensa, dos radialistas e do Vale do Itajaí quando um pai amigo nosso perdeu a filha e o genro na véspera de Natal. O trajeto foi interrompido na BR-276, em de Mato Grosso do Sul, logo após terem participado como artistas em um show de Natal com músicas e melodias que falavam de esperança, amor, vida e fé. 

Aí você lembra de todas as pessoas que perdeu para a violência no trânsito. Lembra que você se tornou uma profissional da segurança nas vias, que o teu dia a dia é isso, mas que justamente nessa hora não sabe o que dizer porque antes de tudo sente a mesma dor. 

Daí, diz o que repete a si mesma todos os dias: acredite nos desígnios superiores que não consegue entender, tenha fé (e ter fé é acreditar naquilo que não se pode ver). Lembre-se do vento e do amor, duas coisas que você não pode ver, mas sente e sabe que existem.

A morte é só uma mudança de endereço, o tempo é um senhor apressado que não manda avisar quando chega a hora de partir. 

Estamos nas vias o tempo todo desempenhando diferentes papéis: ora pedestres, ora motociclistas, ora ciclistas, ora motoristas, sempre se deslocando. Nunca saberemos quando a falha será nossa ou de outro que vai interromper o nosso caminho. Só sabemos o quanto dói essa dor!

Por favor, cuidem-se! Redobrem os cuidados na vida e na via!

Com o máximo respeito à legião de órfãos da violência que se leva para o trânsito!

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