
Andar com gente de "mente antiga" sobre Blumenau deve ser algo, senão "chato" para os mais impacientes, talvez fascinante e um tanto assustador para os que o acompanham. Tomando a Rua XV como nosso melhor exemplo, é impossível você caminhar com calma e não ficar apontando para vários lugares tomando como referencia antigos nomes comerciais do passado, seja mais recente ou mais antigo possível.
Sem mentir ao amigo e amiga leitores, eu faço a mesma coisa até hoje e deixo qualquer um sem entender mais da metade das minhas colocações: "lá em cima, perto do Cine Blumenau", "ali perto do Periquito", "logo ali do lado da Hermes Macedo", "ali onde era o Probst", e posso piorar cada vez mais, culpa da riqueza histórica que a velha Wurststrasse tem a cada palmo de metro. O Alfred, a Casa Meyer, a Moellmann (para ira velada da Elaine Malheiros), A Lojas Hering…
Lojas Hering! Nome pesado e saudoso até hoje, sobretudo no teor histórico que carrega. Faz algum tempo que os colegas de imprensa deram foco a profunda reforma que o imponente espigão na altura do 759 está passando. Merecida, por sinal, desde muito tempo a estrutura pedia uma modernização, algo que a recolocasse pro futuro e tirasse a maquiagem que ainda carregava da velha loja de departamentos que chegou a ser a maior do estado em seu tempo áureo.
Quem já correu os andares do hoje Shopping H em algum momento talvez não suspeite ou a curiosidade nunca foi tão afundo neste ponto, mas esta gleba de terra da XV é um ponto seminal da lenda dos dois peixinhos alemães que fizeram de um sobrenome sinônimo de camisa e da indústria têxtil dessa cidade: Hermann e Bruno começaram a remar o barco naquele espaço, entre o comércio de produtos vindos da Alemanha e a confecção de camisas básicas de altíssimo esmero.
Era de uma forma totalmente familiar - como tantas outras naquela Blumenau provinciana - que a Hering das camisas e do "básico" que veste meio país começou. O comércio, no entanto, era parte da atividade diária do núcleo familiar e já referencial no centro de uma pequena e pujante cidade, tendo a frente da loja um dos genros de Hermann: Ernest Steinbach, saxão casado com Elise Hering e gerente da casa comercial.


Notavelmente, a tecelagem começava a tomar proporções que não davam se comportavam mais naquela instalação diminuta e reduzida, sobretudo a fama na tecelagem que rendia até prêmios. Próximo ao fim do século XIX, os irmãos começaram a transferência da fábrica para o Bom Retiro, deixando Steinbach com a gerencia da velha casa comercial no centro citadino.
Um breve período denominada "Loja Steinbach" passou-se até adquirir também o sobrenome famoso, mesmo com a separação dos negócios entre a loja e a indústria, em 1950. Aos poucos, o velho casario da Gebrüder Hering dava lugar a um imponente edifício, cuja estrutura total (loja e condomínio empresarial) só seria completa em meados dos anos 1970, justificando o gigantismo do espigão com o referencial comercial que há anos carregava, e hoje era ponto de encontro, do corriqueiro ao turístico.
Hering, naquele passado sem limites, parecia um nome da moda, e não pra menos. O arenque era visto muito além das chaminés fumegantes do Bom Retiro: nas artes, nos brinquedos, nos cristais, na hotelaria e, claro, naquele prédio gigante no 759 da Rua XV. Famílias encontravam utilidades, jovens se antenavam na moda e na música (Toka e Wrangler) ou se encontravam na lanchonete no pós-colégio, turistas (especialmente as marés de argentinos) a tinham como parada oficial para compras.


Era um período de constante crescimento que levava a marca a ter filiais no estado e fora dele. Antes mesmo das franquias Hering Store (não confundir uma com a outra), a empreitada de Steinbach já podia encontrar paradas nas praias de Balneário Camboriú, Itapema e Santo Amaro da Imperatriz; era parte da rotina dos visitantes do Shopping Itaguaçu (São José) e da vida urbana de alguns paranaenses, que contavam com dois endereços nos centros de Curitiba e Londrina, sem contar outras filiais que ainda viriam.
Infelizmente, por mais forte e marcante que fosse o nome e o referencial, a grande loja não sobreviveria as convulsões econômicas de um Brasil instável de fins dos anos 1980. Uma tentativa de venda por catálogo trouxe ainda mais dificuldades a todo um processo e, em 1992, a empresa pede concordata e inicia a mudança de modelo de negócio que a levaria a ser Centro Comercial e, anos depois, o Shopping H de nossos dias, restando apenas um pequeno quadrado do antigo comércio dentro da própria estrutura, uma sombra tímida de um passado enorme.


Talvez por isso, a chegada de uma nova administração e os planos de revitalização do velho edifício venham em uma hora importante. Uma espécie de justiça se faz ao dar uma nova cara ao que, no passado, era o point da juventude e do turismo ainda em ascensão na cidade. Outro 759 vai nascendo lentamente enquanto os dias correm, sem esquecer a referencia que fora no antigamente do velho Centro, da história que permanece nas quatro paredes do novo "habitat", como a nova gerencia anuncia nas peças publicitárias.
Só que, escrevam minhas palavras, enquanto houver algum blumenauense clássico perambulando a XV, sempre haverá um dedo apontando para aquele lugar e o referenciando como Lojas Hering. A marca é forte, não desassocia da noite para o dia, nem de uma rua que respira história e cuja aquela esquina a viu crescer e aparecer.
Referencias não morrem, a Lojas Hering, de fato, não sai da memória. E desde quando o arenque sai da história dessa cidade?
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