
Quando se fala em trânsito é comum que as pessoas logo pensem em ronco de motor, engarrafamentos e filas, mas o verdadeiro significado é deslocamento. Trânsito diz respeito ao modo como as pessoas se locomovem pelas vias ou até em espaços fechados. Nesses 36 anos vividos em Blumenau foram muitas vezes que vi o trânsito se modificar no dia a dia e, principalmente, nas cheias do Itajaí-Açu que, como de tempos em tempos, voltou a subir.
A sensação é a mesma de sempre: o coração apertado, olhos e ouvidos atentos como os de um Lobinho da tropa escoteira. O foco está nas notícias, nas imagens, na atualização sobre as previsões do tempo e da régua que mede a subida do nível dos rios.
Sim, o trânsito muda. Não só pelos curiosos ou por quem está trabalhando e se desloca para as margens do rio para monitorar, nem só pela interrupção ou desvio das rotas do transporte coletivo. O trânsito muda também no modo apreensivo, mais apressado e menos paciente dos motoristas dirigirem.
Nas áreas de cotas mais baixas conforme o nível do rio vai subindo em algum momento é bem possível que ocorra quedas de energia e alguns semáforos fiquem desligados. É aí que mora o perigo de colisões em cruzamentos importantes.
O modo de se deslocar pelas ruas que vão sendo tomadas pelas águas barrentas do Itajaí-Açu também muda. Nessas situações os condutores precisam tomar a cautela de não avançarem se a água passa da altura da metade das rodas.
Isso porque o cano de escape do veículo ficará submerso e uma parada brusca numa rua alagada ou numa troca de marcha indevida fará com que a água entre pelo sistema de escapamento e atinja o coletor. Daí para um calço hidráulico que pode custar uma retificação ou até um motor novo são dois palitos.
Transitar por ruas alagadas também traz o risco de se deparar com um bueiro sem tampa, buracos e outros objetos submersos que causarão uma parada brusca do veículo ou queda do motociclista. Com a água abaixo da metade da roda o recomendado por segurança é atravessar o alagamento em primeira marcha e sem fazer ondulações na água, pois elas avançam mais depressa para dentro das casas.
Em muitos lugares o carro fica abarrotado dos pertences mais importantes a serem salvos em caso de enchente, mas nem sempre os motoristas chegam ao destino porque são surpreendidos pela subida do nível dos rios.
Em Blumenau como se não bastasse a quantidade de chuvas e as águas que desembocam dos ribeirões os olhos e ouvidos estão atentos para a situação “lá em cima”, ou seja, nas cidades vizinhas, porque essa água toda passará por Blumenau até que siga o curso do rio até desembocar no mar em Itajaí. Preocupação especial com o nível das barragens na vazante das comportas.
Foram tantas as vezes que desde a colonização o Itajaí Açu surpreende mudando o seu curso, o seu trânsito e o trânsito nas cidades. Já passamos por isso tantas vezes, estamos escolados, são feitos treinamentos, simulações, mas a cada centímetro que sobe o rio reatualizam-se todas as emoções, preocupações e precauções.
Tanto nas vias urbanas quanto nas rodovias são os alagamentos, as quedas de barreiras, os deslizamentos e escorregamentos de terra.
Parece óbvio, mas o modo de dirigir em condições tão adversas de clima e ambiente parece não mudar para muitos condutores. A grandeza velocidade continua presente com as outras variáveis quase sempre ignoradas em dias secos.
Se com o rio correndo no mínimo da calha os motoristas conseguem complicar o modo como se compartilha os espaços nas vias imagine com o rio enchendo, alagando ruas principais, desviando rotas, causando engarrafamentos, lentidões e impaciências!
Que continuemos escolados, fortes, com o DNA da resiliência e a incansável capacidade de reconstrução de nossas vidas a cada vez que o rio enche, nos assusta, nos faz alguns estragos e depois volta a dormir.
O fato é que o rio de tempos em tempos vai encher, vai transbordar e vai exigir que mudemos a nossa forma de transitar por entre as dificuldades e os demais usuários do trânsito.
Que possamos aprender cada vez mais sobre como não piorar as coisas com o nosso modo de transitar, de se deslocar em meio a tudo isso.
Força, blumenauenses!
Força, Blumenau!
E que o nosso gigante amarelo não nos castigue tanto dessa vez!
Mín. 10° Máx. 19°