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30/01/2026 às 16h43 Atualizada em 30/01/2026 às 17h04
Por: Emerson Luis
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Foto: Internet
Foto: Internet

Guga

Terminei de ler esta semana o livro sobre Gustavo Kuerten.

Que história!

O título desta coluna não é por acaso.

É para reflexão mesmo. 

Pois até então, tinha a impressão de que ele não tinha muito com o que se preocupar, a não ser apenas jogar tênis.   

Uma modalidade, que na década de 80, como colocou na sua obra, era "elitista, cara e de gente esnobe". 

“Abonado”

Acredito que a maioria das pessoas tinha ou ainda tem esse pensamento sobre ele. 

Inclusive, dia desses, falando com um professor de educação física sobre as dificuldades que os atletas vêm enfrentando no dia a dia, com o minguado salário (ou ajuda de custo) que recebem, ele próprio me disse que Guga chegou onde chegou, por ser “filhinho de papai”.

Não é bem assim.

Capa do livro de Gustavo Kuerten 

Mãe 

Alice Thümmel nasceu em Blumenau.

Cresceu em Brusque.

Jogou tênis no Bandeirante - foi vice-campeã estadual de duplas. 

Pegou gosto pelo esporte de sua mãe, Olga Schlösser Thümmel, que praticou vôlei na infância. 

O avô de Alice, Adolfo, era sócio e um dos herdeiros da Indústria de Tecidos Schlösser. 

Pai

Aldo Amadeu Kuerten é de Braço do Norte. 

Jogava basquete desde os 12 anos. 

Mas foi em Brusque que se destacou como atleta - foi campeão catarinense. 

Flerte 

Para aprimorar sua técnica no tênis, Alice se inscreveu em um curso de basquete.

Ministrado por Aldo, que era o galã do Bandeirante. 

Foi lá que se conheceram. 

Rolou uma química.

Começaram a namorar. 

Se casaram. 

Aldo e Alice em 1972. Foto: Arquivo pessoal 

Florianópolis 

O pai trabalhava no Departamento de Estradas e Rodagem (DER). 

Decidiu abrir o próprio negócio, uma serralheria. 

A mãe era funcionária da Telecomunicações de Santa Catarina (Telesc). 

Formada em serviço social na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi uma das criadoras da Associação de Funcionários (ASTEL).

Em 1973, coincidindo com o nascimento do primeiro filho, Rafael, a estatal mudou do centro para o Itacorubi. 

Peregrinação

Logisticamente, a transferência não foi boa - moravam no outro lado da ilha, no continente.

Dois anos depois foram para o bairro Trindade, a 4 km da nova sede. 

Em setembro de 1976, Guga nasceu. 

A proprietária pediu a casa de volta. 

Se transferiram para o Córrego Grande, também perto da Telesc. 

Em 1979, Guilherme veio ao mundo. 

O casal decidiu que era a hora de ter a casa própria. 

Aldo fez um serviço grande em troca de um terreno no bairro Itacorubi. 

Em 1980, quando a construção estava pela metade, o dono do imóvel não quis renovar o contrato. 

A solução foi alugar uma casa de madeira, de veraneio, "um casebre congelante" na Lagoa da Conceição, como lembrou Guga. 

Julho de 1981

A casa na SC 401 finalmente ficou pronta.

Foi lá que o manezinho viveu os melhores dias da sua infância.

Foi lá que enfrentou a maior dor da sua existência. 

Família reunida na piscina da casa do Itacorubi. Foto: Arquivo pessoal

Maio de 1985

No Clube Santa Mônica, em Curitiba, viveria uma das primeiras experiências em competições contra adversários mais fortes. 

Carlos Alves, treinador da Astel, teve um contratempo e não pode ir. 

Como a maioria dos pais não tinha como faltar ao trabalho, Aldo Kuerten assumiu a responsabilidade de cuidar da garotada na viagem de ônibus até o Paraná. 

Guga perdeu para um oponente dois anos mais velho.

Ficou chateado, pois queria dedicar a vitória ao pai, que em seguida foi apitar uma partida - nesse tipo de torneio, os pais se revezavam arbitrando os jogos de outros meninos.  

Ao perdê-lo de vista, o jovem tomou outro rumo, foi se distrair, esquecer a derrota. 

De repente, um amigo da família pediu para que ele e o irmão Rafael (que também estava jogando) viessem embora para Florianópolis.

Guga nem imaginava que algo poderia ter acontecido com seu ídolo. 

Super Aldo

Ao chegar em casa, a mãe os abraçou e contou que o pai havia morrido. 

Eu perdi o meu com 23 anos.

Fiquei um bom tempo desnorteado.  

Imagina a dor para uma criança de 8 anos!

“Impossível, super-herói não morre”, soluçava o inconformado Guga. 

41 anos  

No dia seguinte, dona Alice explicou que o marido sofrera um infarto quando apitava um jogo. 

O clube tinha ambulatório, caixa de primeiros socorros, médico de plantão, mas nenhum desfibrilador nem comprimidos destinados a ataques cardíacos. 

Aldo e o pequeno Guga. Foto: Arquivo pessoal

Permuta

Aldo não deixou testamento, nem seguro de vida, não tinha economias. 

O único dinheiro que um dia sobrou, usou para construir e depois melhorar a casa do Itacorubi.

Apesar dos bons negócios, a maior parte dos pagamentos era feita com cheque pré-datado ou, mais comumente, na troca dos serviços por jóias, lote de cobertores, móveis, terrenos, moto, etc.

Foi assim que ele engordou o patrimônio familiar.

Incertezas

Foi difícil para o menino absorver o baque.

Até os 12 anos, Guga queria ser tudo ao mesmo tempo, surfista, tenista e jogador de futebol.

Ele recuperou o foco depois de uma conversa com a mãe e o irmão.

Além de um juramento feito por Larri Passos para seu pai, que organizou um churrasco em sua casa, para convencê-lo a treinar o filho.

Palavra

O técnico gaúcho não tinha condições de abrir mão da sua correria. 

"Não agora Aldo, mas na hora certa. Deixa ele crescer primeiro. Você tem a minha palavra".

Larri Passos em uma clínica de tênis. Foto: Internet

Pires na mão

No momento em que Guga teve certeza do que queria, a família se viu num dilema, já que não tinha como pagar as viagens para participar de torneios em outros estados.

Ele afirma no livro que não sabe quantas vezes deixou de disputar torneios longe de casa por falta de dinheiro.

Em 8 anos, dos 12 aos 16 anos, entre 1988 e 1992, Alice Kuerten visitou quase 50 empresas de todo tipo.

O que mais recebeu, como a maioria esmagadora dos pais, foi "não"!!

Desespero

Como a ajuda era pouca, a conta nunca fechava.

O único jeito de fazer dinheiro era vender as coisas da família. 

Primeiro, foi uma moto que estava meio encostada, depois as joias da sua mãe, o carro, mais tarde o piano entrou na lista.

Só sobrou a casa.

Alice já pensava em procurar uma imobiliária quando o milagre aconteceu.

Patrocínio

Andando pelo centro, encontrou Espiridião Amin.

Ao explicar para o ex-prefeito e senador, que o filho estava indo bem, mas que iria vender a casa para que seguisse em frente, o político a demoveu da ideia e garantiu que falaria com alguém da Sadia.

Deu certo.

O primeiro contrato tinha duração de 3 meses.

Cerca de 300 dólares mensais, quantia que dava para honrar quase todo o salário de Larri Passos. 

Posteriormente foi renovado e reajustado para 30 mil dólares anuais, divididos em 12 parcelas. 

Reviravolta

"Num dia, a gente estava pedindo esmola, no outro podia planejar adequadamente o futuro. Sem me preocupar com o dinheiro, eu tinha tranquilidade só para jogar tênis. Agora estava na minha mão. Tudo dependia só de mim".

1992

Empolgados, Guga e Larri foram para a Europa.

O atleta disputou torneios contra fortes concorrentes, assistiu jogos em Roland Garros e em Wimbledon, ganhou uma grande bagagem, passou a jogar muito melhor.  

1993 

Com 16 anos, já era um dos principais tenistas juvenis da América Latina. 

Tinha sido campeão de uma etapa do Circuito Cosat, a Confederação Sul-Americana de Tênis, e figurava entre os cinco primeiros jogadores do continente.

Naquele tempo, a Cosat recompensava quem se destacava na etapa inicial do ano.

Para os cinco melhores do ranking sul-americano, um de cada país, pagava as despesas básicas de uma viagem de quase três meses à Europa. 

1994

Nessa fase, somando simples e duplas, toda semana Guga disputava entre cinco e dez partidas. 

Jogando contra os melhores do mundo, tinha resultados consistentes.

Com a confiança em alta, subia posições no ranking.

1995

Tudo ia bem até que a Sadia, depois de dois anos, decidiu retirar o apoio para investir em Christian Fittipaldi na Fórmula Indy. 

Guga recebeu a notícia após sua participação no Orange Bowl, em Miami. 

Ficou desnorteado.

Na volta para o Brasil, desmotivado, perdia um jogo atrás do outro.

Foi então que Larri pediu uma pausa.

O descanso coincidiu com a assinatura de dois contratos.

Com a Diadora de 12 mil dólares e com o Frigorífico Chapecó, valor não revelado.

Rico Schlachter, que era patrocinado pela empresa, pediu uma força para o amigo. 

Não havia verba. 

Então o tenista joinvilense, em uma grande demonstração de amizade, abriu mão de uma parte de seu repasse, em benefício de Guga e Larri.    

1996

Os dois patrocínios possibilitaram que a dupla seguisse atuando no exterior. 

1997

Larri e Guga montaram um calendário visando a maioria dos grandes torneios, como o Aberto da Austrália, o Indian Wells, em Miami, e Roland Garros.

Colocavam a maior fé de que desta vez, chegaria pelo menos na terceira rodada, em Paris (no ano anterior foi eliminado na 1ª rodada pelo sul-africano Wayne Ferreira). 

Coadjuvante

Treze dias antes da estreia, na revista diária que circula em Roland Garros, Guga era apenas uma nota de rodapé.

Protagonista 

Ao vencer o espanhol Sergi Bruguera por 3 x 0, com 20 anos de idade, 66º colocado no ranking, Gustavo Kuerten inseriu Santa Catarina no mapa do tênis mundial, inspirou gerações e transformou vidas.  

Guga, campeão de Roland Garros, em 1997. Foto: Internet

Mito

Ao ganhar Roland Garros outras duas vezes, 2000 e 2001, Guga se transformou no maior tenista brasileiro de todos os tempos. 

Foram 28 títulos, sendo 20 individuais e 8 em duplas. 

Em uma carreira de 13 anos como profissional, abreviada por conta de lesões no quadril.

Foi número 1 do mundo por 43 semanas, em 2000. 

Está na calçada da fama do tênis internacional.

No hall da fama do Comitê Olímpico do Brasil (COB).  

Recompensa

De acordo com a Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), ele ganhou 14,8 milhões de dólares em prêmios.

Hoje o Grupo Guga Kuerten (GGK), que gerencia e rentabiliza a marca Guga, no qual o ex-tenista é sócio com Rafael, que depois de se formar em ciências da computação, passou a cuidar da carreira do irmão, fatura R$ 300 milhões por ano.   

Eterno

Quando venceu Roland Garros pela primeira vez, um repórter lhe perguntou se a vitória seria dedicada a seu pai. 

“Não, não precisa. Dedico todos os dias da minha vida a ele”.

Em sua despedida em Roland Garros, em 2008. Foto: Internet

 
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Emerson Luis
Sobre o blog/coluna
Jornalista com ampla experiência na cobertura esportiva, Emerson Luis assina uma coluna de opinião dedicada ao esporte no Vale do Itajaí. Com olhar crítico, linguagem direta e paixão pelo que faz, analisa os bastidores, os destaques e os desafios do cenário esportivo regional. Mais do que informar, busca provocar reflexões e valorizar os protagonistas do esporte local.
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