
Gilberto Correia transformou a perda total da visão em um novo começo. Aos 71 anos, ele não só coleciona mais de 150 medalhas de corrida, mas também uma história de superação e de inspiração que despertam em outras pessoas o desejo de vencer os próprios limites.
A cegueira causada pela diabetes, que há mais de uma década atrás o levou à depressão e à quase desistência da vida, acabou se tornando o ponto de partida para uma trajetória que hoje impacta dezenas de corredores em Blumenau e região.
A vida de Gilberto mudou em 29 de outubro de 2013. Na véspera, ele ainda enxergava parcialmente a esposa e o filho. Na manhã seguinte, acordou completamente no escuro.
“Acendi uma luz, não acendeu. Acendi outra, também não. Aí ouvi o barulho da geladeira funcionando e percebi que não era a luz... era eu. Eu estava cego”, lembra.
A reação foi de desespero, revolta e tristeza. A perda repentina da visão o levou a um período de mais de um ano em depressão. Gilberto parou de comer, de se cuidar e chegou a desejar que a vida terminasse.
“Eu achava que não tinha mais utilidade nenhuma”, recorda.
A mudança começou quando ele decidiu procurar ajuda na Acevali (Associação dos Cegos do Vale do Itajaí), após insistência da esposa. No início, rejeitou o ambiente, mas logo percebeu que ali existia um novo ponto de apoio.
Com o trabalho dos educadores, aprendeu mobilidade, autonomia e redescobriu a alegria de conviver. Viu pessoas na mesma condição vivendo com leveza, fazendo piadas, cuidando umas das outras. Em pouco tempo, passou a frequentar diariamente.
“Eles me ensinaram a caminhar. Voltei uma, duas, dez, mil vezes. Hoje digo que a Acevali é minha segunda casa”, afirma. Gilberto, que atualmente integra a diretoria da associação e atua ajudando novos cegos na adaptação.
A entrada na corrida aconteceu em 2016. Ao ouvir na rádio que haveria a “Corrida da Virada”, decidiu se inscrever mesmo sem guia e sem treino. Naquela prova, percorreu poucos metros correndo e o restante caminhando. Mas o momento da chegada marcou a vida de Gil.
“Quando faltavam uns 50 metros, anunciaram no microfone, ‘Aplaudam o nosso campeão, senhor Gilberto, deficiente visual, 62 anos’. Comecei a chorar. Ali eu prometi para mim mesmo, enquanto tiver vida e saúde, eu nunca mais vou parar de correr”, detalha.
Desde então, Gilberto realmente não parou mais de correr. Em 17 de setembro de 2023, guiado pela parceira Laura, Gil conquistou a centésima medalha. A prova, segundo ele, foi uma das mais emocionantes que já participou.
“Foi muito emotivo, muito emocionante. Cada medalha é uma história. Não é só uma peça de metal. É passo a passo, é confiança mil por cento no meu guia”, disse.
Em 2025, Gil conquistou a 150ª medalha em Jaraguá do Sul, guiado por Tony, um amigo de longa data. O feito simbolizou não apenas persistência do corredor, mas também o impacto positivo que Gilberto passou a gerar na comunidade.
“Tem mais de 100 atletas que começaram a correr por minha causa. Viram um idoso, cego, correndo amarrado pela mão. Se eu posso, eles também podem.”
Atualmente, Gilberto segue competindo, treinando e ajudando pessoas com depressão, sedentarismo e diabetes. Ele se orgulha do papel que desempenha.
“Deus não me fez ficar cego. Ele permitiu que uma porta se fechasse. Mas, em troca, abriu uma avenida.”
Mesmo com as dificuldades da diabetes, como a necessidade de controlar a glicemia durante as provas, ele continua somando medalhas e incentivando quem o acompanha.
Homenageado quatro vezes pela Câmara de Blumenau, Gilberto mantém o mesmo espírito que o levou da escuridão ao pódio, correr para viver, e viver para ajudar.
“Se um dia eu não puder mais correr, eu caminho. Se não puder caminhar, eu me arrasto. Mas parar, eu não paro."
Mín. 18° Máx. 29°