Blumenau completou 175 anos de história e é muito mais do que um pedaço da Alemanha no Brasil. A cidade, hoje conhecida nacional e internacionalmente por sua forte herança germânica e por eventos culturais de grande porte como a Oktoberfest, tem suas origens fincadas em um projeto ousado de colonização que começou em meados do século XIX. Conforme o secretário de Cultura e Relações Institucionaisde Blumenau, Sylvio Zimmermann, à frente desse projeto estava Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, um homem que, mais do que fundador, foi o verdadeiro arquiteto da cidade.
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Formado em química e farmácia, Blumenau não chegou ao Brasil por acaso. Ele fazia parte de um contexto mais amplo de migração promovido pelo recém-independente Império brasileiro, que via na imigração europeia uma estratégia para ocupar territórios, fortalecer fronteiras e consolidar uma identidade nacional. Enquanto isso, na Europa Central, os desdobramentos das Guerras Napoleônicas e as incertezas políticas empurravam milhares de famílias em busca de uma nova vida.
É nesse cruzamento de interesses que surge Blumenau. Diferente de muitos colonizadores que atuaram à distância, o Dr. Blumenau viveu entre os colonos, orientou pessoalmente a organização agrícola, deu suporte à vida religiosa e à educação, e estabeleceu as primeiras bases administrativas da colônia.
"O Dr. Blumenau não foi apenas um observador; ele foi protagonista incontestável e a verdadeira liderança desse projeto. Sua liderança não se limitou à administração distante, mas se traduziu em um papel de mentor e guia incansável em cada etapa do desenvolvimento da colônia. Ele pessoalmente orientava os colonos nas práticas agrícolas mais adequadas, instruía-os sobre os negócios e também sobre o uso do solo. Para além das questões econômicas, seu compromisso se estendia a aspectos como a promoção da educação, a organização da vida social e o apoio às questões religiosas. Dr. Blumenau foi, em sua essência, o arquiteto da colônia que hoje prospera e honra seu legado", explicou o secretário.
Oktoberfest: da tragédia à celebração da identidade
Quando se fala de Blumenau, é impossível não lembrar da Oktoberfest. Mas poucos sabem que essa tradição local nasceu como resposta à adversidade.
Após as enchentes de 1983 e 1984, a cidade buscava uma forma de se reerguer emocional e economicamente. Inspirada nas festas dos clubes de caça e tiro, o Schützenverein, e nos jovens blumenauenses que sonhavam em conhecer a Oktoberfest de Munique, nasceu a ideia de fazer uma festa nos mesmos moldes em solo catarinense. A ideira era "restaurar o ânimo e impulsionar a economia".
A primeira Oktoberfest de Blumenau foi realizada em outubro de 1984 e, desde então, tornou-se um marco cultural.
"A administração havia planejado uma grande festa nos moldes da Oktoberfest em Blumenau, mas, a cidade havia sido atingida por grandes enchentes em 1983 e 1984, que causaram grandes estragos na cidade. Com uma decisão enérgica e até mesmo contra uma parcela da opinião pública a ideia de realizar a festa cancelada em 1983 ganhou força em 1984 como uma estratégia para restaurar o ânimo e impulsionar a economia. A festa caiu do gosto do blumenauense e dos turistas. A Oktoberfest cresceu em popularidade e importância com o passar dos anos".
Uma história construída a muitas mãos
Além do Dr. Blumenau, outras figuras foram fundamentais para o desenvolvimento da cidade, embora nem sempre ganhem o devido destaque. Viktor Gaertner, por exemplo, foi um dos pioneiros na organização social da colônia. Heinrich Krohberger deixou sua marca ao construir prédios icônicos, como o atual prédio da Secretaria de Cultura e a Igreja Luterana Centro. Já Hermann Wendenburg, como secretário-tesoureiro e guarda-livros, foi essencial para o controle financeiro da colônia.
O secretário destaca, ainda, nomes como o médico Dr. Hugo Gensch, que adotou uma jovem indígena e tentou integrá-la à vida colonial; e Rose Gaertner, considerada a primeira dama do teatro blumenauense, que impulsionou as artes cênicas no Vale do Itajaí e realizou seu sonho com a fundação da Sociedade Teatral Frohsinn, em 1895.
De acordo com Zimmermann também tiveram parte da construção da história da cidade pessoas como: Paul Hering, Julius Otto Scheidemantel, Hermann Baumgarten, Elsbeth Koehler, Leopold Franz Hoeschl, Antônio Pedro Pereira Nunes, Harold Letzow, Hellmuth Danker, Heinz Geyer, Max Humpl, Lindolf Bell, entre outros.
A arquitetura que conta histórias
O estilo enxaimel, típico da arquitetura germânica, é um dos maiores símbolos visuais da colonização europeia. Cada casa construída com essa técnica carrega uma história. Para o secretário Zimmermann, "preservar essas casas é mais do que manter prédios em pé; é manter viva a memória afetiva da comunidade".
"Cada casa de enxaimel que ainda sobrevive hoje conta uma história de adaptação, de preservação de saberes arquitetônicos trazidos da Europa e recriados em solo blumenauense. Para a memória da cidade, elas são testemunhos vivos da colonização, símbolos de pertencimento e referências visuais que nos conectam à origem de nossa formação", explicou.
Memória viva para novas gerações
Apesar de seu reconhecimento nacional pela força da cultura, Blumenau enfrenta desafios na preservação de sua memória. Segundo o secretário, essa preservação não pode ser apenas a contemplação do passado, "ela deve ser um processo vivo, pedagógico e inclusivo, no qual a identidade cultural se projeta como o fundamento essencial de pertencimento".
"Um dos principais esforços reside em compreender as novas gerações e fazê-las perceber que são parte integrante da memória coletiva. É fundamental intervir quando essa memória não lhes é apresentada de forma significativa e em diálogo com o presente. Este é um foco central de nosso trabalho: transpor os contextos históricos para a realidade atual e evidenciar a importância de conhecer e valorizar a identidade cultural de nossa cidade, tornando-a acessível à nossa população".
A força que nasce da água
As enchentes do Rio Itajaí-Açu marcaram profundamente a cidade. Desde o início da colonização, quando o próprio Dr. Blumenau perdeu benfeitorias nas cheias, até os grandes eventos de 1983 e 1984, as águas não apenas destruíram estruturas, mas também reforçaram a resiliência do povo.
Esse espírito de superação é hoje parte da identidade blumenauense. A cada cheia, nasceu também uma nova onda de solidariedade, planejamento urbano e fortalecimento comunitário.
A alma da cidade passa pela mesa
Na gastronomia, Blumenau também revela suas origens com um toque local. O secretário acredita que a gastronomia seja um dos mais "perceptíveis ícones do sincretismo cultural da região".
"A cuca sem dúvida é uma exemplo icônico da nossa tradição alimentar, essa receita conhecida na Alemanha como Streuselkuchen, é um doce consumido em muitos lugares daquele país, feito com farofa, com sementes de papoula, com maçã, ou outras frutas da estação. Em Blumenau, embora haja a tradicional receita de farofa, ela também ganhou ingredientes locais. Podemos afirmar que a cuca foi um dos primeiros doces preparados em Blumenau assim que se teve acesso ao trigo e a nossa receita, que é igual a receita alemã é uma das mais pedidas nos cafés e padarias".
Blumenau, um projeto ainda em construção
Blumenau nasceu de um projeto visionário que uniu estratégia política, sonho migratório e determinação comunitária. Com uma história construída por muitos e sustentada pela força da memória, a cidade não é apenas um polo econômico ou um destino turístico. É um símbolo de como tradição, inovação e pertencimento podem caminhar lado a lado.
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