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André Bonomini: Café Cometa e o valor de uma lata

André Bonomini: Café Cometa e o valor de uma lata

13/07/2024 às 10h20 Atualizada em 13/07/2024 às 13h20
Por: Tom
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Foto: Reprodução
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Foi em novembro de 2023, no mais puro acaso de uma visita ao já tradicional Mercado de Pulgas de Brusque. Dentre tantas antiguidades que para o mais incauto seriam apenas peça de valor para um reciclador de ferro (o que não é meu caso), estava uma lata tão inocente quanto rica no que ela trazia impresso nela, recoberto de uma sutil ferrugem: "Café Cometa".

Rosangela Pereira, a moça do comercial da União FM que me acompanhava naquela tarde, foi a testemunha dessa loucura. Parecia que estava a beira de um ataque epilético tamanha a surpresa do que segurava nas mãos. Não é sempre que o acaso joga na minha frente um recorte de historia de Blumenau, ainda mais de um nome comercial e de uma família que já correra os olhos em pesquisas.

https://www.instagram.com/reel/CzjQFD8LYTz/?utm_source=ig_embed

Para muitos blumenaueses de "larga experiência", o Café Cometa não é um qualquer estranho. Quem fosse num Kieckbusch da vida encontrava facilmente as latas do produto e as levava junto do rancho do mês. As manhãs de muitos começavam no gole do líquido negro processado na cidade ou até sentiam, ao cruzar a Rua São Paulo, um leve aroma cafeeiro até estranho ao ambiente daquele trajeto ainda tão pouco habitado naqueles idos.

Não fui além de um reels para o Instagram, com os parcos dados que tinha em mente, deixei a lata no mesmo lugar e segui no mercado. O que viria depois seria um belo arremate, até porque a cabeça curiosa não dorme direito até ligar todos os pontos ou, pelo menos, os mais aparentes de uma destas tantas pesquisas ocasionais quando a curiosidade bate: afinal, o que mais aquela lata tinha para dizer?

Vamos lá, aos que não entenderam ainda, estamos falando de uma das tantas moagens de grãos (neste caso, café) que o Vale possuía há muito tempo. Só em Blumenau, produção de café atendia por dois nomes muito bem lembrados até hoje nos compêndios: Uru e Cometa. Da primeira, pouco ainda se sabe embora até hoje seja uma grande referencia de café e que, merecidamente, ganhou espaço em rótulo de cerveja (vide Cervejaria Blumenau, estilo Dark Lager).

“Café Cometa, o Melhor!” A propaganda na parede do Walter Schmidt (canto superior esquerdo). Um café reconhecido pela comunidade há tempos. O mistério era saber como ele parou nas mãos de Arno Bernardes (Arquivo Histórico)

Mas do Café Cometa, alguma coisa já havia aparecido nos escritos da Prefeitura e até nos grupos dos colegas de pesquisa. O que se sabe de concreto: a torrefação era de um certo Walter Schmidt, figura conhecida e histórica do comércio blumenauense. Entre 1910 e 1931 a torrefação de café funcionava junto da pequena fabriqueta eletromecânica que, mais tarde, daria lugar a tradicional loja de ferragens e peças na Rua XV.

Para Walter, cuja entrada em um novo ramo mudou os caminhos de empreendedor que traçava, era hora de passar a moagem de café adiante. Encontrou em Arno Bernardes um comprador em potencial e o novo dono seguiu com os trabalhos da torrefação em meados dos anos 1950 até ele também mudar de ramo: o metalomecânico, donde a família criou raízes e hoje é referencia em parafusos e fixadores, a Arber, hoje localizada em grande área no Badenfurt.

E nossa história podia parar por aqui, com um bonito arremate de texto falando mais sobre o achado e o velho e batido discurso da importância da preservação história. Só que a série saborosa de acasos que quem curte história está sujeito teria mais um capitulo, e dos mais gratificantes. Por intermédio da simpática Adelaide, secretária de Arno Bernardes Filho, conheceríamos muito mais daquela lata, e que foi um encontro por acaso transformava-se numa operação de resgate.

Sim, Arno Bernardes Filho. Ele e a irmã, a amável Sra. Adelina, são os que, hoje, conduzem os trabalhos na Arber, na planta do Badenfurt. Não tendo outro meio para entrar em contato, Adelaide recorreu à União FM atrás deste escriba, recordando do mesmo reels do Instagram. Quase a ignorei, admito, mas não podia deixar de lado, não era só parte faltante de uma memória, era uma família atrás de um relicário que a fazia-se identificar com um passado de labuta e conquistas.

https://www.instagram.com/p/C0F4CnKLrU3/?utm_source=ig_embed&utm_campaign=embed_video_watch_again

Daquele primeiro contato com a Adelaide às conversas com o Sr. Arno foi um pulo temporal. Lembro ainda dos olhos envidraçados da Rosangela cintilando quando soubera da ligação dos pontos. E o pedido de Arno Filho ia além, quase impossível naquele estágio: "seria possível resgatar aquela lata?" Para eles, que pouco tinham do passado empresarial familiar, era um tesouro de valor sentimental incalculável.

Qualquer um poderia me perguntar, displicente, "ora, e por que não doar ao Arquivo Histórico?" Antes que termine, estou falando de uma família atrás da sua própria história, de sua própria memória. Tampoucas tem esta consciência ou ainda a generosidade de compartilha-las com quem tem interesse em desvendar nosso passado citadino como um todo.

A mesma coisa, podemos recordar, foi o sentimento quando o Rogério e a Maria Rita, queridos amigos que conduzem a história da Lotérica Periquito de Ouro (cuja história já fora contada por aqui). Na curiosidade de entender o passado e o significado deste nome para a cidade, mergulhamos fundo na memória e as descobertas ajudaram a valorizar e enriquecer ainda mais um empreendimento carregado de memória e valor.

O resgate da lata, felizmente, deu muito certo. Graças a agilidade do amigo Vilmar Araldi, responsável pelo Mercado de Pulgas, encontramos o Evandro, o expositor que talvez não soubesse do que tinha nas prateleiras naquele dia mas que sabia bem do valor inestimável para a família daquela lata.

Eu, Arno e a Rosangela, depois da aventura de um dia e a emoção pela missão cumprida: a lata está de volta à família (Arquivo Pessoal)

Para quem queira acreditar (e acredite, porque foi assim mesmo), Evandro não cobrou um níquel pelo objeto, que ainda ganhou um trato especial do próprio Vilmar antes de, enfim, chegar as mãos do Sr. Arno, hoje adornando a sala de trabalho nos escritórios da Arber, no final mais feliz que a missão poderia proporcionar.

Hoje, retorno as atividades de história de Blumenau aqui no Portal Alexandre José justamente recordando desta passagem e renovando com o amigo leitor este interesse sedento por contar e redescobrir a nossa história, nosso passado, seja ela bom ou triste. Não se trata, jamais, de reescrever livros, mas de saber verdades e encontrar elementos que montem este quebra-cabeça que chamamos de memória, e nossa cidade carece tanto disto, seja ela pública ou famíliar como a dos Bernardes.

Rememorar pode ser apenas uma recordação simples, mas é carregada de significado para quem relembra, para quem pesquisa e para quem conta. Coisa que aqui sempre fizemos e sempre o faremos.

A história merece, é o nosso objetivo, sempre foi e sempre será.

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