
Clubes de futebol, principalmente, se endividam e se afundam quando começam a atrasar salários e consequentemente receber processos trabalhistas.
Despesa x receita.
Dois e dois são cinco só na composição de Caetano Veloso.
Interpretada magistralmente por Roberto Carlos.
Qualquer um sabe que, ao se gastar mais do que se ganha, uma hora ou outra a conta vai chegar.
E você vai quebrar.

O time de vôlei feminino que conseguiu o acesso na temporada 2022/2023 era relativamente barato.
A folha mensal custava um terço (R$ 40 mil) comparado com o grupo da Superliga.
As bolsas da Furb tinham um grande peso nos salários das atletas.
Bem como o aporte de dois patrocinadores fixos.

Na época, o Bluvôlei enfrentou as tradicionais dificuldades.
Teve de fazer pedágio, feijoada, rifas...dinheiro aplicado nas categorias de base.
Os repasses mensais da Manplex e da Unimed (respectivamente R$ 5 mil e R$ 10 mil) ajudavam demais.
Tanto é que o salário sempre pingava na conta no 5º dia útil.

O treinador era o mesmo.
Sem alarde, Rogério Portela foi contratado na metade de 2022 para comandar a reformulação.
Que tinha como meta, conseguir a vaga para a primeira divisão nacional.

Feito alcançado com o segundo lugar, atrás apenas do ADC Bradesco, a equipe B do tradicional Osasco SP.

Portela me afirmou certa vez, com todo o respeito as meninas que conseguiram a façanha, que aquela equipe não venceria uma partida na elite.
E naturalmente cairia.
Trazer reforços era uma necessidade, até mesmo uma obrigação.
Para não ser um mero coadjuvante.

De fato, não foi.
O técnico trouxe jogadoras rodadas, com experiência em grandes clubes do Brasil, com passagens no exterior e até pela seleção.
Que ajudaram demais o nosso representante a ter momentos de protagonismo durante a competição.

Que só foi rebaixado porque conviveu com os constantes atrasos de salário.
Até onde foi possível, atletas e comissão técnica foram extremamente profissionais em quadra.
Só que chega uma hora, que perde-se o foco e a motivação.

Tem gente que não sofre tanto - emocional e financeiramente falando.
Contudo, existem pessoas que dependem desse dinheiro.
No fim, todo mundo é afetado de alguma forma.

Independentemente do perfil ou da condição econômica de cada integrante, não há justificativa ou desculpa.
Quem trabalha, tem de receber.
De preferência, em dia.

Seria muito leviano de minha parte afirmar que foi um planejamento inconsequente.
Até prova em contrário, a diretoria conta com pessoas sérias e comprometidas.
Todavia, é inegável que houve precipitação.
Cometeu-se um erro ao acreditar em promessas.
Principalmente de políticos.

Afinal, as contratadas foram chegando, com base no repasse da Fesporte.
De R$ 1,5 milhão.
Que contemplaria ainda Apan e Joinville.

O clube alega que não pediu nada para o governo.
Como o dinheiro foi oferecido, não havia motivos para recusar.
A diretoria chegou a participar de três reuniões em Florianópolis para tentar receber o valor - uma na Fesporte e duas na Comissão de Esportes e lazer da Assembleia Legislativa.
Não deu em nada.

O time masculino chegou a atrasar salário em algum momento.
Só que amparado por um patrocinador master e outros apoiadores fiéis, conseguiu se manter entre os 10 primeiros colocados.

O projeto, pelo visto, segue firme.
Tanto é que na próxima segunda-feira (15), está marcada a apresentação da equipe.

O Bluvôlei tinha um prazo, 20 de junho, para comprovar, por meio de uma carta convite, seu interesse (e condições) em participar da Superliga B.
Esse documento da CBV precisa ter a assinatura de todas as atletas e comissão técnica, para ratificar que todos os compromissos foram cumpridos.
Ninguém assinou.
Veio a punição: o descenso para a Série C.
Esse fato, somado às dívidas fez a diretoria (com o aval do Conselho) tomar a decisão de acabar, temporariamente, com o time adulto.

Fato que considero gravíssimo para o esporte de Blumenau.
Até a prefeitura, que foi a maior patrocinadora do projeto, com o aporte de R$ 245 mil na largada, acabou chamuscada, de alguma maneira.
Afinal, o nome de Blumenau, ecoou de forma negativa pelo Brasil durante a transmissão dos jogos (e não foram poucos).
Vereadores, deputados, empresários, gestores...
Todo mundo tem sua parcela de culpa.
Até a Imprensa (em sua maioria) por fechar os olhos para tamanho constrangimento.

Conversei com algumas atletas, que revoltadas com a falta de retorno e sensibilidade da diretoria, entraram com ações na justiça.
São seis processos, por enquanto.
Também estou em contato direto com o presidente Ruy Dornelles em busca de respostas.
O professor anda de saco cheio comigo, imagino, pois vou atrás das informações com certa contundência.
O assunto é delicado, exige responsabilidade, imparcialidade.

O dirigente não soube (ou não quis) me dizer qual o tamanho do passivo.
Fui atrás de outras fontes.
O débito com fornecedores está perto de R$ 300 mil.
As atletas ainda não receberam 35% de janeiro e o integral de fevereiro, março e abril.
A comissão técnica é um caso à parte.
Rogério Portela, o preparador físico Felipe Uchoa e a fisioterapeuta Milena Crispin estão há oito meses sem pagamento.
No total, o rombo passa de R$ 500 mil.

A propósito, o treinador e sua esposa, a central Edna (formada no Bluvôlei) apostaram tanto na continuidade da proposta, que compraram um imóvel em Blumenau, para a família fixar residência.
Imagina a frustração e a tristeza.

Quando a bomba estourou (o edital da Fesporte foi cancelado), o sonho virou pesadelo.
O primeiro ato para não deixar de depositar o salário foi a antecipação das cotas de um ano dos dois patrocinadores (com isso, os contratos agora só podem ser renovados em setembro).
Nesse ínterim, o técnico Rogério Portela fez um empréstimo de R$ 20 mil para pagar a inscrição das atletas - o presidente me disse que foi devolvido.
O próprio Ruy também pegou R$ 110 mil no banco.
Um membro da antiga diretoria foi outro que emprestou R$ 56 mil.
Até um Pix Solidário foi criado.
O prejuízo só foi amenizado.

Ninguém pensou que isso fosse acontecer.
Com a classificação garantida para a Superliga, foi feita uma leitura que a cidade abraçaria a ideia.
Buscar patrocinadores era só uma questão de tempo, imaginavam.
Mais de 50 empresas foram visitadas - nenhuma sequer retornou uma ligação.
Perderam uma oportunidade incrível de visibilidade.

Também trabalho indiretamente com vendas.
A choradeira é grande.
Assim como as desculpas caricatas.
Poucos empresários têm a dimensão (e a visão) da repercussão que o esporte produz.

O Bluvôlei não acabou, como colocou Ruy Dornelles.
"O fim do time adulto é temporário. Temos 34 anos de estrada. Foi o primeiro ano que entramos na Superliga. Tudo precisa ser estruturado. Temos de pagar as dívidas, ajustar a casa e voltar ainda mais fortes".
Os treinos com as categorias Iniciante, Sub 13, 14, 16, 17 e 19 continuam.
Com 150 alunas.
A base é, sem dúvida, a essência de qualquer programa.
Entretanto, todos precisam de espelho, exemplos e continuidade.

De todo modo, o cenário é preocupante.
Como não há perspectivas, por ora, de estancar a sangria, o grande receio passa a ser um CNPJ trancado.
Que impactaria diretamente no futuro dessas meninas.
Até porque as equipes seriam proibidas de jogar competições oficiais.

Isso, talvez, chamaria a atenção.
Talvez.

Emerson Luis é jornalista. Completou sua graduação em 2009 no Ibes/Sociesc. Trabalha com comunicação desde 1990 quando começou na função de repórter/setorista na Rádio Unisul - atual CBN. Atualmente é apresentador, repórter, produtor e editor de esportes do Balanço Geral da NDTV Blumenau. Na mesma emissora filiada à TV Record, ainda exerce a função de comentarista, no programa Clube da Bola, exibido todos os sábados, das 13h30 às 15h. Também é boleiro na Patota 5ª Tentativa



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