
“Professor, vai ter joguinho?”
“Primeiro nós vamos treinar chutes a gol. Vocês precisam aprender a bater certinho na bola. Depois, se todo mundo prestar atenção e for bem na aula, o tio Leonetti pode liberar o joguinho”.

Essa conversa acontece com frequência antes das aulas de Iniciação (a partir dos 4 anos) no Planet Ball.
Meu filho, no caminho da escolinha, faz sempre a mesma pergunta.
"Pai, hoje tem joguinho"?
"Talvez tenha. Antes o Tales tem de saber passar, chutar, ouvir os conselho do professor Leonetti e as orientações do João e do Dudu (seus assistentes)".

Geralmente quando sobra um tempo antes da atividade (como mostra o vídeo abaixo) ou até mesmo nos fins de semana, na quadra do prédio, insisto em rolar ou quicar a bola em sua direção, para que tenha confiança na hora de finalizar.
Esse treinamento de coordenação, posicionamento e fundamento é feito três vezes por semana (segunda, quarta e sexta).

No sábado, o ex-goleiro do Fluminense deixa a galerinha bem à vontade.
É quando os alunos participam efetivamente de um jogo de futebol.
Uma espécie de torneio.
Com a presença dos pais na torcida.
Onde os times vão se revezando.

Movimentação também necessária.
Eu diria até que fundamental.
Para a criança se soltar, perder a timidez, se ambientar, se adaptar com a pressão do lado de fora (a maioria torce exageradamente. Eu não nego. As vezes me passo na euforia, achando que meu pequeno pode resolver um jogo em um passe de mágica).

Aprimorar a individualidade, buscar o drible, o improviso.
E no contexto geral, pensar coletivamente, ter disciplina, respeito ao amiguinho.

O Tales está completando uma temporada de escolinha.
Quando chegou, com 5 anos, não sabia nem correr.
Imagina chutar uma bola.

Tem muito o que melhorar.
É uma criança.
Que antes de qualquer coisa, precisa brincar, se divertir, socializar.

No entanto, a evolução é nítida.
Nos trabalhos táticos.
E nos técnicos.
A propósito, a falta de coordenação motora é geral.
Em todas as modalidades.
Não só em crianças.
Até mesmo com pré-adolescentes.
Temos a geração de apartamentos (meu filho entra nessa estatística).
Que não brinca mais nas casas, nas ruas, no mato...
Que não joga mais bola na grama, na lama...
Que jamais tomou banho de chuva, de lagoa, de rio...
Existem exceções, claro.
Só que os campinhos foram substituídos pelos smartphones.

Os professores raízes estão cada vez mais raros.
Gente que viveu esse tipo de infância.
Que precisou ralar demais.
Muitos já se aposentaram.
Ou cansaram da metodologia atual (queimada, pega-pega congela, pique bandeira, estátua, dragão...).

Uma mudança radical de costumes que está se refletindo (já faz um tempo) em resultados.
Em competições oficiais da Fesporte, por exemplo.
E até no futebol profissional.
Guardada, claro, todas as suas devidas proporções.

De qualquer forma, fiquei estarrecido com a falta de qualidade na pontaria dos jogadores de Metropolitano e Blumenau após os jogos da 4ª rodada da Série B.
Na ausência de uma jogada solo (ou coletiva) para furar o ferrolho do Camboriú, que teve um jogador expulso com 27 minutos de partida (o lateral esquerdo Thiago), o time de Rodrigo Cascca tentou surpreender o experiente Zé Carlos com chutes de fora da área.
A parede do adversário foi muito bem construída.
É um fato.
Mas isso não apaga a falta de habilidade na conclusão.
Nenhum arremate assustou o goleiro.

Com o Blumenau não foi diferente.
O gramado encharcado e pesado prejudicou.
As duas equipes.
Porém, o Caravaggio teve mais força e capacidade para se adaptar ao campo.
A bola foi mal tratada pelo BEC em lances triviais, como passes e, naturalmente, finalizações sem direção.

É regra.
Não dá para exigir muito de uma segunda divisão estadual, sei disso.
Até na Série A do Brasileiro se conclui bem pouco de média ou longa distância.
Só que o básico do futebol, quando se está vestindo a camisa de um clube profissional, precisa ser melhor executado.
No mínimo, com discernimento.

Não consigo enxergar outra resposta que não seja falta de trabalho de repetição na base e no próprio dia a dia.




Emerson Luis é jornalista. Completou sua graduação em 2009 no Ibes/Sociesc. Trabalha com comunicação desde 1990 quando começou na função de repórter/setorista na Rádio Unisul - atual CBN. Atualmente é apresentador, repórter, produtor e editor de esportes do Balanço Geral da NDTV Blumenau. Na mesma emissora filiada à TV Record, ainda exerce a função de comentarista, no programa Clube da Bola, exibido todos os sábados, das 13h30 às 15h. Também é boleiro na Patota 5ª Tentativa.


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