
Passados nove anos do incêndio que destruiu o antigo restaurante Frohsinn, no Alto do Morro do Aipim, em Blumenau, no dia 20 de agosto de 2014, o espaço continua abandonado. Em tempos não tão distantes, o local já foi cartão-postal de Blumenau, com uma vista privilegiada do Centro da cidade, da Prainha e da curva do Rio Itajaí-Açu.

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Em novembro do ano passado, após a empresa Indaiá Eventos, de Itapema, vencer uma licitação de concessão do espaço, a Prefeitura de Blumenau anunciou a rescisão do contrato de forma “bilateral, amigável e consensual”, conforme disse a administração pública na época.
Ainda à época, a prefeitura informou que a decisão foi tomada por uma “uma série de cenários que afetaram o setor econômico e turístico de forma mundial. Entre elas estão a pandemia da Covid-19 e o confronto entre Rússia e Ucrânia, que acabaram repercutindo no atraso tanto das análises dos pedidos de licenças e documentos como alvará; quanto na dificuldade para a obtenção de materiais variados e no aumento dos preços cotados para o custeio e concretização das obras por conta da crise econômica inesperada que se instalou mundialmente”.
A reportagem do Portal Alexandre José procurou a Prefeitura de Blumenau para saber se existe algum planejamento para o local, mas a administração preferiu não se manifestar sobre o assunto. Assim, prestes a completar um ano da rescisão do contrato, o local continua sem perspectiva de ser ocupado com um novo empreendimento.

Vale lembrar que cinco dias após o incêndio, uma reunião na prefeitura definiu que o local seria restaurado com um orçamento de R$380 mil, valor da indenização da seguradora, além de ter sido lançado um edital para venda do espaço.

A professora de História da Universidade Regional de Blumenau (Furb), Cristina Ferreira, destaca que todo patrimônio histórico abandonado gera problemas culturais que impactam nos habitantes e na criação de elementos identitários e sociais. “A restauração de lugares históricos integra o rol de deveres da municipalidade e do poder público, responsável por tomar providências urgentes para a resolução da questão do abandono do Frohsinn, participando de editais de fomento à preservação patrimonial ou fazendo licitações para concessão a empresas privadas que utilizem esse espaço histórico para fins culturais e educacionais”, disse.
Para o arquiteto e urbanista Christian Krambeck, professor da Furb, a prefeitura e os responsáveis precisam ter uma visão mais estratégica de alguns locais especiais da cidade. “Precisa ter um cuidado especial com todo o processo licitatório, processo de documentação, a definição de diretrizes, qualificação das pessoas, são intervenções especiais, não podem ser tratadas como licitações normais, como processos padrão da burocracia pública. Outro ponto importante é investir na qualidade e na arquitetura. Da mesma forma, existem situações especiais que requerem mais investimentos, mais qualidade e não sempre com a visão do que é público de economizar, de licitar pelo menor preço, que muitas vezes traz problemas, mais problemas do que soluções”, acredita.
Ele ainda destaca que, apesar de uma arquitetura bonita, com muitas partes em madeira, o mais interessante do local é a relação com a mata atlântica e o mirante que permite visualizar e entender melhor a cidade. “Tem a natureza no acesso, no entorno e Cidades Inteligentes é exatamente isso, cidades que conseguem perceber os seus pontos de destaque, seus lugares especiais e valorizar isso. São locais como o Frohsinn, a Prainha, que precisam ser revitalizados, com muita qualidade, arquitetura, com projetos inovadores, ousados e devolvidos para o uso requalificado da sociedade”, destaca Krambeck.

O incêndio
No dia 20 de agosto de 2014, por volta de 18h, o antigo restaurante Frohsinn, no topo do Morro do Aipim, em Blumenau, foi destruído por um incêndio. O local já estava fechado há dois anos quando o fogo atingiu o local.
Cerca de dez dias após, o Instituto Geral de Perícias (IGP) expediu um laudo técnico confirmando que o incêndio no antigo restaurante Frohsinn, destruindo cerca de 50% do imóvel, foi criminoso.
Na época, a Prefeitura de Blumenau emitiu uma nota lamentando o ocorrido e informando que havia um vigia da prefeitura durante o dia e monitoramento de vigilância privada no local. Além disso, que o local já havia registrado roubo de câmeras de vigilância e até mesmo um foco de incêndio uma semana antes do ocorrido, entre outros vandalismo.

Editais
Até o momento, três editais já foram lançados para tentar dar uma destinação ao espaço do Frohsinn, todos sem sucesso. No primeiro não houve interessados; no segundo, vencido pelo restaurante Indaiá, houve desistência por parte da empresa porque não foi permitida a ampliação do espaço; no terceiro, vencido também pelo Indaiá, o contrato foi rescindido de forma amigável por questões econômicas da época.

História do Frohsinn
O local, que já foi palco de jantares requintados, festas de casamento e confraternizações espaciais, viveu seus dias de glória entre 1969, quando foi inaugurado, até 2012, quando foi fechado. Após 2012, o espaço passou e passa por maus bocados.
A professora do curso de História da Universidade Regional de Blumenau (Furb), Cristina Ferreira, conta que a localização do Frohsinn e seu entorno tem uma história vinculada a uma situação que gerou problemas e desentendimentos entre Hermann Blumenau e o Pastor Gustav Stutzer, resultando em um processo judicial entre ambos. “Posteriormente, as terras pertencentes ao chamado Morro do Aipim foram doadas ao município de Blumenau, compondo uma área com uma localização dotada de imensa representatividade histórica e ambiental, além de uma vista panorâmica privilegiada do centro da cidade”, destaca.

O restaurante começou a ser erguido em 1968, sendo inaugurado em 14 de agosto de 1969, com o nome de Frohsinn, que significa "estado de alegria". Tornou-se um local ideal para visualizar as belas paisagens da cidade e a gastronomia típica alemã, com pratos tradicionais como o Hackapetter, o Eisbein e o marreco recheado.
Em 2003, a Prefeitura de Blumenau lançou um edital para a ocupação do espaço. Uma das cláusulas determinava que o locatário não pagaria aluguel se calçasse a Rua Gertrud Sierich, popularmente conhecida como Morro do Aipim. Em 2004, uma empresa iniciou a exploração do espaço.
Cerca de cinco anos depois, em 2009, a administração municipal enviou uma notificação extrajudicial, pois a concessionária não estava cumprindo com a compensação do calçamento. Já em 2010, como não houve a desocupação do espaço, a prefeitura entrou com um pedido de reintegração de posse na Justiça.
Com o imóvel retomado pela administração municipal, em 2012, o restaurante foi fechado. Em agosto de 2014, o Frohsinn foi atingido por um incêndio que comprometeu mais de 50% de sua estrutura e, logo após, a prefeitura manifestou interesse em vender o imóvel.
As obras para reconstrução começaram em junho de 2015. No decorrer de 2016, a empresa responsável pela obra decretou falência e os serviços foram interrompidos. Contudo, em agosto de 2016, a prefeitura, via dispensa de licitação, contratou uma nova empresa para finalizar os trabalhos, cumprindo com a reconstrução da parte estrutural destruída pelo fogo.

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