
Já passou algum tempo, o debate parece ter amornado e o único éco que restou é a boa e velha ansiedade por ela, sempre aguardada e que sempre chega, mesmo abaixo da chuva que tanto se prevê: mais uma edição da Oktoberfest em Blumenau.
E todo ano, como é de praxe, apresentam-se novidades, atrações, melhorias, o que faz, de fato, esta edição ser diferente das outras, preservando a tradição que a permeia dentro de um ambiente dito familiar, inovador, alegre e de experiência única.
É procedimento padrão, nunca falha ano após ano.
Mas entre estas novidades, algo que vem de encontro a um tema que a musica vem debatendo com o passar do tempo e que tem, vez ou outra, entrado na minha pauta como profissional de uma rádio cujo produto principal é a música.
São duas letras, causam fascinio, traduzem facilidade mas geram repelencia pelo uso desenfreado e, as vezes, malfeito: IA.
Inteligencia Artificial, ou AI na sigla inglesa. O arrepio na espinha dos músicos, compositores, instrumentistas, produtores. Ao passo que facilita e agiliza também artificializa e marginaliza o trabalho dito humano, verdadeiro, na criação de melodias inesquecíveis.
Ela é realidade, e não digo apenas no uso profissional diário ou em um post jocoso qualquer das redes sociais. A música é, talvez, o maior reflexo do impacto da IA, que ao mesmo tempo que restaura e agiliza processos criativos, também é capaz de substituir o ser humano na criação e execução do som e do show.
E a memória deste escriba volta-se para o telão do setor 4 quando, entre as novidades apresentadas meses atrás, revelou-se a chamada "Banda de IA da Oktoberfest", que, segundo as palavras do próprio diretor-presidente da Blumenau Eventos, Guilherme Guenther, "agrega uma nova experiência ao público, sem substituir o trabalho das bandas que fazem a nossa festa acontecer".
Sua concepção foi conduzida pelo produtor musical blumenauense Leonardo Pimpão Blume, que desde 2020 pesquisa a aplicação de IA na produção musical. E ao mesmo tempo que defende e apresenta a tecnologia, faz questão ele de defender o uso da "mão humana" no processo.
Ela será exibida nos intervalos das bandas "humanas" em apresentações de 20 minutos, substituindo o som mecânico nestes momentos. Lá estarão os animados "Frida un Fritz" (esperava um nome mais criativo, mas faz sentido até), além de uma homenagem ao vulto sempre presente de Helmuth Hogl.
Inovadora, diferente, criativa. Talvez fossem os adjetivos que se esperassem nos dias posteriores a apresentação da novidade. Mas, o que se viu (e se vê cada vez que toca-se nesse assunto) foi um intenso e acalorado debate envolvendo não apenas o folião curioso mas musicos, membros de grupos folcloricos, representantes das tradições e afins sobre a iniciativa.
Não vou dizer que não entrei no olho do furacão. Trabalhando com musica tipica de nossas bandas tradicionais há algum tempo e conhecendo um pouco da história evolutiva do som germânico, tive que matar a curiosidade e ouvir os lados, mesmo em conversas informais.
Ouvi os musicos, principal eixo dessa conversa, que em linhas gerais pareciam um tanto divididos. Há quem aplauda a ideia como um bom complemento as atrações e solução do problema dos intervalos de banda. A afirmativa é de que a tecnologia sempre chega para ajudar o espetáculo e que é bem-vinda desde que não exclua totalmente o trabalho real de criação do som e do show.
No entanto, outro coro - este mais enervado e com sua razão - se preocupa e contesta a necessidade. Em parte, tem a ver com a discussão que já coloquei aqui logo acima: os limites do uso da IA para criação e execução de musica, substituindo o trabalho do musico/musicista/cantores.
Por um lado, também concordo com eles. O uso desenfreado cria coisas audiveis e boas mas também abre caminho pra qualquer criação com pobreza de letra e arranjo, feito apenas pro agito puro e simplista, sem alma ou marca registrada. E ao longo do tempo, letras marcantes (por mais simples que pareçam) foram marca dos "hits" que permeavam a Oktoberfest.
Alias, a linha evolutiva foi justamente focada em agregar ao processo de produção dos musicos que, ao longo do tempo, refinaram o som típico da festa ao nível de quase super-produção de nossos tempos. Desde o estilo mais polido e tradicional de uma Banda Treml ou da Choppmotorrad como também do "chucrute music" ostensivo e irreverente de Cavalinho, Herr Schmitt e Vox 3, por exemplo.
Uma sonoridade que nasceu nos bailes interioranos, muitas vezes puramente "de ouvido" e completamente acústico, com baterias rusticas e a maior presença do bandoneon e gaita do que do naipe de metais, que foi ganhando mais espaço, sobretudo, nos anos 1950 e 1960.
Os anos 1970 trouxeram, em maior escala, algo que já era tendência: a eletrificação do som, com o baixo e guitarra, além dos teclados e a refinação dos estudios que registraram estas melodias nos LPs numerosos daquele tempo. Pioneirismos de gente como Os Montanari, que vieram de Concordia com este refino e foram distribuindo inspiração pelas bandas em volta.
No entanto, a cara própria de se fazer um som para a Oktoberfest blumenauense só começou mesmo a ganhar corpo nos anos 1990 e 2000, com o advento do tão falado "chucrute music" da segunda fase da Cavalinho e da Vox 3, que aplicaram sua criatividade em paródias, versões e temas que remetiam a realidade e o lado cômico da festa plena.
Hoje, essa sinergia entre o clássico e o moderno é o que embala os pavilhões. São rotinas estafantes de criação de "hinos", ensaios e agendas recheadas que não contemplam só a maior das Américas, mas quase todo o sul brasileiro com seus bailes. Desafio a saúde e a resistência dos músicos, mas que entregam espetáculos com real interação da platéia e melodias que ficam coladas na cabeça de todos.
E talvez, por esta entrega e história embarcada, esteja aqui um dos pontos mais doloridos do enaltecimento da IA na Oktoberfest, e é algo que já acompanha o assunto desde os anuncios das atrações germânicas: a falta de uma espécie de consideração, apresentação e divulgação da história das bandas tradicionais nos canais oficiais e, até mesmo, na imprensa especializada.
Claro que toda a novidade é tratada com empolgação, mas é justo reconhecer que não dar o mesmo crédito e importância a estas atrações de todo ano não se trata da chula "ciumeira" que uns e outros podem acusar, mas sobretudo de uma justiça histórica: se eles escrevem suas histórias ano a ano, por que não ganharem o mesmo enaltecimento que VoXXXClub, Hogl Fun Band, Draufganger, Kirchdorfer e outros tantos?
Abrir o livro de história e encontrar nomes como Cruzeiro, Society, Montanari, do Barril e de figuras como Alois Hoffmann, Michael Lochner, Genésio Montanari, Max Lindner, Rigo Döring, Rufinus Seibt e Ingo Penz e tantos outros não é apenas cumprir com a pauta jornalista, mas contar uma história que estes embalam até hoje e que, com razão, sempre é negligenciada com a chegada de temas como a Banda de IA.
Leo Blume é bem vindo e a sua iniciativa encontra espaço mesmo para quem torça o nariz, o que é normal (nem toda musica agrada também). No entanto, que a chegada o inovador não apague o braço do musico e, especialmente, a história de uma evolução que é constante na produção humana: dos riffs, melodias, cozinha, coreografias que fazem as noites de Oktober ser as "langste nacht der welt" de sempre.
Ainda se falará muito da Banda de IA e da sua necessidade. Mas que a história não se restringa as novidades, mas ao valor da música de verdade, dos músicos de verdade e das histórias que são escritas a cada melodia nos palcos da maior festa alemã das Américas.
E que o trenzinho da centopéia continue mais real que o fritz e frida o fazendo no telão. A festa chama a tecnologia pra roda, mas o toque sempre será humano.
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