Desde o restabelecimento das eleições diretas para os governos estaduais, em 1982, Santa Catarina jamais elegeu um governador identificado claramente com a esquerda ideológica. Esta é uma constatação histórica, eleitoral e sociológica. Não se trata de opinião. Trata-se da leitura fria das urnas ao longo de mais de quatro décadas.
Em duas oportunidades, contudo, este cenário esteve muito próximo de ser alterado.
A primeira delas ocorreu logo na retomada democrática. Em 1982, Esperidião Amin derrotou Jaison Barreto por apenas 12,5 mil votos. Meio ponto percentual. Jaison era do MDB, mas integrava a ala dos chamados “autênticos”, vinculada a lideranças como Chico Pinto e Fernando Lyra, representantes históricos do campo progressista e de esquerda dentro do antigo MDB. E bem esquerdistas, registre-se.
Onda vermelha
A segunda grande aproximação ocorreu em 2002, na chamada Onda Vermelha. A vitória de Lula da Silva, em sua quarta tentativa presidencial, produziu reflexos profundos em Santa Catarina. O PT elegeu Ideli Salvatti ao Senado com votação histórica, ultrapassando a marca de um milhão de votos, conquistou cinco cadeiras na Câmara Federal e formou uma das maiores bancadas estaduais de sua trajetória.
Por pouco
Ao governo, José Fritsch quase chegou ao segundo turno. Ficou a apenas 27 mil votos de Luiz Henrique da Silveira. A primeira vaga havia sido conquistada novamente por Esperidião Amin, derrotado depois no segundo turno por Luiz Henrique, um feito histórico e lembrado até hoje.
Presidenciais
Nas disputas presidenciais, Santa Catarina oscilou menos do que aparenta. Em 1989, no primeiro pleito presidencial direto pós-redemocratização, Leonel Brizola foi o mais votado no estado. Já no segundo turno, Fernando Collor de Mello venceu Lula por margem apertada.
Realidade
Em 1994 e 1998, embalado pelo Plano Real, Fernando Henrique Cardoso dominou amplamente o eleitorado catarinense. Mas em 2002 ocorreu um fenômeno pouco lembrado: Lula registrou, proporcionalmente, uma de suas maiores votações nacionais justamente em Santa Catarina no primeiro turno. No segundo, teve novamente desempenho extraordinário.
Guinada profunda
A partir de 2006, o eleitorado catarinense voltou a inclinar-se claramente ao centro-direita e à direita. Geraldo Alckmin venceu Lula no estado. Em 2010, José Serra derrotou Dilma Rousseff. Em 2014, Aécio Neves fez votação avassaladora, impulsionando inclusive a candidatura de Paulo Bauer ao governo. Por pouco, o tucano não forçou o round final da eleição contra Raimundo Colombo.
Onda Bolsonaro
Em 2018, Santa Catarina mergulhou na primeira grande onda conservadora contemporânea. Jair Bolsonaro transformou o estado num de seus principais redutos eleitorais do país. No primeiro turno, obteve uma das maiores votações proporcionais nacionais. No segundo, atropelou o poste Fernando Haddad.
Aqui, não
O fenômeno repetiu-se em 2022. Mesmo derrotado nacionalmente por Lula, Bolsonaro voltou a vencer com ampla margem em Santa Catarina. Mais do que isso: o PL construiu a maior bancada estadual, a maior representação federal e ainda elegeu Jorge Seif, um completo desconhecido, ao Senado.
Ou seja, o bolsonarismo deixou de ser apenas uma onda circunstancial para se transformar em estrutura política permanente no estado.
E agora?
E é justamente aí que entra 2026. Tudo indica que Santa Catarina poderá assistir à terceira eleição presidencial consecutiva com um integrante do sobrenome Bolsonaro na disputa nacional. A hipótese de Flávio Bolsonaro representar o campo conservador altera completamente o ambiente político catarinense. O senador saiu ferido pelo episódio Master, mas não morto.
Estado que dá certo
Porque Santa Catarina, gostem ou não alguns setores da elite política e da velha imprensa, continua sendo um estado majoritariamente conservador nos costumes, liberal na economia e refratário à esquerda tradicional.
Dúvida e certeza
A dúvida não é se haverá influência presidencial sobre o pleito estadual. Haverá. A dúvida é o tamanho desta influência. Se Flávio Bolsonaro confirmar candidatura, estará mais próximo do desempenho do pai em 2018 ou em 2022? Terá uma onda mais intensa ou um conservadorismo consolidado, porém menos emocional?
Observando
Ainda é cedo para respostas definitivas. Mas uma conclusão parece evidente: dificilmente o eleitor catarinense abandonará este comportamento político-cultural consolidado ao longo de mais de 40 anos.
Tchau, queridos
Por isso, a possibilidade de um nome identificado com a esquerda conquistar o governo estadual segue extremamente reduzida — ainda que este nome tente reposicionamentos estratégicos ou busque um discurso moderado.
E quanto à Presidência da República, hoje, imaginar Luiz Inácio Lula da Silva vencendo em Santa Catarina soa, no mínimo, como um cenário altamente improvável.
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