O MDB catarinense vive um daqueles momentos típicos de sua longa e complexa trajetória política: oficialmente dividido, mas organicamente em movimento. Enquanto parte expressiva dos mandatários segue alinhada ao projeto de reeleição do governador Jorginho Mello, o presidente estadual do partido, Carlos Chiodini, opera silenciosamente nas bases para reconstruir a unidade interna em torno de um projeto alternativo ao Palácio Barriga Verde.
E faz isso no velho estilo MDB: no corpo a corpo, município por município, dirigente por dirigente, delegado por delegado. Ou seja, uma movimentação formiguinha.
Convenção
Chiodini sabe exatamente onde pisa. O comando partidário lhe garante relação direta com os presidentes municipais do MDB, que, em última instância, formam o núcleo decisivo da convenção estadual prevista entre 20 de julho e 5 de agosto.
Quem tem voto
É evidente que prefeitos, vices, vereadores e parlamentares possuem peso político relevante. Mas o MDB continua sendo um partido profundamente municipalizado. E nisso reside a força de Chiodini para, muito provavelmente, levar o partido ao repeteco do desastre de 2022.
Cavando fundo
Hoje, o dirigente estadual trabalha não apenas para consolidar maioria convencional, mas também para estimular as bases a pressionarem lideranças regionais e parlamentares ainda simpáticos ao projeto de recondução de Jorginho Mello. A lógica é simples: fazer o MDB de baixo para cima emparedar lideranças.
Militância
Nenhum partido em Santa Catarina possui a capilaridade do MDB. Reafirmamos essa realidade aqui neste espaço várias vezes. Nenhuma legenda tem essa musculatura.
A sigla está organizada nos 295 municípios catarinenses e mantém o maior número de filiados do estado. Trata-se de uma estrutura construída ao longo de décadas, sustentada por tradição, relações comunitárias e presença municipal. E isso, historicamente, sempre teve peso eleitoral.
Tiro n’água
O problema é que militância também depende de perspectiva de vitória. E é justamente aí que começam as preocupações internas. O desempenho de João Rodrigues passou a preocupar parcelas importantes do MDB (no PP a ficha parece que já caiu). Depois de mais de dois anos em pré-campanha, o ex-prefeito de Chapecó ainda não conseguiu romper a barreira que consolidaria sua condição de candidato efetivamente competitivo. Jamais se aproximou de 25% das intenções de voto.
Rival regional
Mais do que isso: perdeu consistência política e eleitoral com a entrada de Gelson Merisio no jogo. Merisio ocupa espaços regionais e eleitorais semelhantes aos de João Rodrigues, especialmente no Oeste catarinense. Chapecó, Xanxerê e arredores compartilham vínculos políticos, econômicos e culturais que aproximam os dois campos. Ali há voto de identificação regional muito antes de existir voto ideológico.
Bala na agulha
E Merisio entra na disputa respaldado por uma estrutura muito mais robusta no campo financeiro, institucional e logístico, sustentada pelo alinhamento com a esquerda nacional, setores empresariais específicos e o governo federal. João Rodrigues terá apoio político relevante, evidentemente. Mas não terá nem a máquina estadual comandada por Jorginho Mello (que também pilota a nada desprezível musculatura do PL catarinense), nem a estrutura partidária nacional que estará por trás da candidatura de Merisio.
Senado
Outro ponto delicadíssimo envolve a composição ao Senado. Hoje, tudo indica que Carlos Chiodini caminhará para formar chapa com João Rodrigues ao governo. Já Esperidião Amin dá sinais claros de que pretende disputar praticamente sozinho a vaga ao Senado. E isso possui uma razão estratégica muito objetiva.
Marcando território
Caso surja um segundo nome competitivo ao Senado dentro da chapa, especialmente um nome do MDB, cresce o risco de divisão do voto conservador e de centro-direita. Mais do que isso. Existe um temor evidente de que o eleitor emedebista priorize um eventual candidato do próprio MDB em detrimento de Amin. E aí reside o problema histórico.
Não se apaga
MDB e PP carregam décadas de rivalidade política em Santa Catarina. Uma disputa estrutural, enraizada nas bases, nas lideranças regionais e na cultura eleitoral do estado. Não se desmonta isso apenas com uma fotografia de aliança. O articulista não consegue visualizar a turma emedebista de cruz na testa pedindo votos para Esperidião Amin e nem os progressistas de quatro costados atuando para eleger deputados do MDB!
Dilema
A grande incógnita passa a ser justamente esta: o MDB conseguirá transferir apoio ao governo sem necessariamente entregar voto ao Senado? Porque uma coisa é apoiar João Rodrigues. Outra, completamente diferente, é convencer o eleitor emedebista histórico a votar em Esperidião Amin. E de graça!
Contas
E essa equação ainda está longe de ser resolvida. As viagens pelo estado, os encontros regionais e o esforço de aproximação entre PP e MDB devem se intensificar nos próximos meses. Amin e Chiodini já começaram a “tricotar” politicamente juntos.
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