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Estratégia e risco

O que se observa é um jogo em andamento, com movimentos calculados, mas também com alto grau de incerteza.

14/04/2026 às 09h18
Por: Redação
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O desenho da disputa eleitoral em Santa Catarina — e, por extensão, no Brasil — começa a revelar contornos cada vez mais claros de estratégia, cálculo e, sobretudo, apreensão, por conta do calendário que vai se afunilando. O movimento da esquerda catarinense parece algo improvisado, concebido em um gabinete do Palácio do Planalto e que não guarda relação com a realidade estadual. Mesmo assim, a propaganda diz que eles têm dois objetivos principais: maximizar resultados onde há viabilidade e minimizar desgastes onde o histórico recente recomenda cautela. Lembrando que Jair Bolsonaro fez 70% a 30% contra a deidade vermelha nas eleições de 2022.

No epicentro dessa engenharia política está ele, Lula, que, ao mesmo tempo em que organiza o tabuleiro nos estados, reavalia a própria permanência como protagonista na disputa nacional.

Não é segredo nos bastidores que a candidatura ao governo da frente de esquerda em Santa Catarina foi gestada a partir de Brasília, com forte influência do Palácio do Planalto. O objetivo central é cristalino: criar as condições para viabilizar a eleição de Décio Lima ao Senado. Simples assim.


Desgaste

Décio, presidente estadual do PT, já testado em duas disputas ao governo — com destaque para 2022, quando chegou ao segundo turno (única e exclusivamente pela pulverização de candidaturas à direita) —, surge como o nome mais competitivo dentro da esquerda para uma vaga majoritária. No entanto, uma terceira candidatura consecutiva ao Executivo estadual carregaria o peso da repetição e da fadiga eleitoral. Sem falar no discurso jurássico da canhotada tupiniquim.



Ressurreição

Daí a escolha de Gelson Merisio. Ex-deputado, com passagem relevante pelo Legislativo e histórico competitivo — o ex-PFL foi ao segundo turno em 2018 —, Merisio oferece o elemento de novidade que, nas cabeças iluminadas do PT, faltava ao projeto. Poderia servir, ainda, como instrumento para reposicionar a esquerda no estado, ampliando o alcance da chapa e, principalmente, pavimentando o caminho para o Senado.



Contexto eleitoral

O pano de fundo dessa estratégia é conhecido. Como já registramos acima, em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro obteve cerca de 70% dos votos em Santa Catarina, contra aproximadamente 30% de Lula. Um cenário amplamente desfavorável, que exige reposicionamento.



Guinada

Curiosamente, esse mesmo estado, Santa Catarina, já foi terreno fértil para o petista. Em 2002, Lula registrou a maior votação proporcional do país no primeiro turno e a segunda maior no round decisivo. Ou seja, há precedente histórico — mas o ambiente político mudou radicalmente.



Sinal amarelo

É nesse contexto que ganha peso a recente declaração de Lula, de que só decidirá sua candidatura em junho. Não se trata de mera retórica.

Pesquisas sucessivas indicam uma tendência preocupante para o Planalto. Aliás, preocupante não — a realidade apavora o Planalto: crescimento consistente de Flávio Bolsonaro e queda gradual de Lula.



Ele, não

Mais do que isso, o presidente enfrenta um fenômeno politicamente delicado: níveis de rejeição superiores aos do próprio adversário, que já carrega um passivo elevado por associação direta ao pai.



Datafolha

Mesmo institutos tradicionalmente questionados por setores mais conservadores, como o Datafolha, começam a apontar empate técnico, com leve vantagem para Flávio em determinados cenários. E, nesse caso, mais importante do que o número em si é a tendência: os levantamentos convergem.



Plano B

Diante desse quadro, cresce a pressão interna no PT por alternativas. O próprio Lula já sinalizou a necessidade de “oxigenar” o ambiente político. Parece piada, mas não é, caro leitor: Lula falando em renovação.



Fraquinhos

Entre os nomes ventilados, aparecem Camilo Santana, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Educação; Rui Costa, ex-governador da Bahia e figura de peso no partido; e Fernando Haddad, nome de confiança pessoal do presidente e já testado em 2018.



Estilo chinês

A lógica é simples: se o campo adversário optou por um herdeiro político, por que não fazer o mesmo? A diferença, evidentemente, está na densidade eleitoral de quem lidera o processo.



Efeito dominó

A grande interrogação, no entanto, está nos desdobramentos dessa possível mudança de rota. Caso Lula efetivamente recue, o impacto será imediato e profundo — inclusive em Santa Catarina.



Insustentável

A estratégia construída em torno de Gelson Merisio se sustentaria? Ou haveria necessidade de recalibrar toda a engenharia eleitoral da esquerda no estado?

Sem Lula na cabeça de chapa nacional, o efeito mobilizador tende a diminuir. E isso pode comprometer diretamente o objetivo maior: a eleição de Décio Lima ao Senado.



Jogo aberto

O cenário, portanto, está longe de definido. O que se observa é um jogo em andamento, com movimentos calculados, mas também com alto grau de incerteza.

Se, por um lado, a esquerda tenta sofisticar sua estratégia em Santa Catarina, por outro, depende de uma variável central: a decisão de Lula.



Matemática

E essa decisão, ao que tudo indica, não será apenas pessoal. Será, acima de tudo, um cálculo frio sobre viabilidade eleitoral — e sobre o risco de transformar uma trajetória histórica em um desfecho indesejado.

O relógio avança. E, desta vez, o tempo pode não estar ao lado do principal protagonista da política brasileira nas últimas décadas.

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Prisco Paraíso
Sobre o blog/coluna
Com mais de quatro décadas de experiência no jornalismo político, Prisco já passou pelos principais veículos de comunicação de Santa Catarina. Atuou como repórter, colunista e comentarista em rádio, TV e jornais. Hoje, assina sua coluna também no AJ Notícias com análises precisas e bastidores da política catarinense.
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