
O clássico hino em valsa que ilustra uma das mais famosas cervejarias do mundo nasceu em tempos negros para o alemão médio. Foi composto por Wilhelm Gabriel em 1935 e, até hoje, não existe grupo de blasmusik (estilo rigidamente tradicional da música alemã) que não a reproduza convidando os que estão em volta a irromper o mesmo grito de guerra...
“In München steht ein Hofbräuhaus! oans, zwoa, g’suffa!”
(Em Munique há uma Hofbräuhaus – uma, duas, abaixo da escotilha).
Digo tempos negros pois os anos 1930 eram marcados pela forte crise econômica vivida pela Alemanha do pós-primeira guerra e pela, segundo Bertolt Brecht, "ascenção irresistível" de Adolf Hitler ao poder, no que viria a acabar no segundo conflito global que conhecemos, sendo que muito do que idealizava-se para o "reich" partia de longas reuniões em um dos salões daquela casa bávara.
Criada para suprir uma demanda entre a sede e a exigencia de seus consumidores da corte nos tempos dos duques de um povo germânico ainda fragmentado, o grande salão cervejeiro de Munique atravessou os séculos assistindo um pais crescer, ser dizimado, bombardeado, dividido e, novamente, crescer ao seu entorno.
Sua marca e seu caneco caracteristico se espalharam pelo planeta e, saindo do cult cervejeiro alemão, passou a ponto obrigatório de visitação nos caminhos bávaros, seja de turistas comuns ou de personalidades famosas que desejavam sentir ali o gosto quase puro de uma autêntica casa de cervejas alemã no centro germânico da coisa.



(Fred Ullrich na Hofbrauhaus, em 1998 / Arquivo TV Galega)
No Brasil, a gloriosa Hofbräuhaus chegaria por aqui com sotaque mineiro, 11 anos atrás. No entanto, seria exagero dizer que os bávaros daquele salão meio que sabiam que por estas bandas do cone-sul tinha gente até bem mais aficionada pelo pão liquido e dominava as técnicas de produção como poucos no mundo, quase como eles. Não a toa, qualquer teuto-brasileiro cujo sobrenome "obrigava" uma visita a "heimat" passava por aquele canto alegre as margens do rio Isar.
A chegada definitiva da marca bávara à Blumenau talvez não fosse a demanda mais esperada (a exceção dos que visitaram a matriz, creio), mas uma espécie de justiça poética na capital nacional da cerveja e, por conveniência, num endereço que emanava em livros de história um pouco daquilo vivido pela velha casa alemã nos tempos de antanho: as grandes reuniões de amigos em torno da praça do saudoso Biergarten tem algo parecido com o clima alegre dos dias e noite do salão-matriz da cervejaria.
Tem quem lembre daqueles dias com raro saudosismo sem se prender cegamente a volta ao passado. O entorno de uma praça histórica como a Hercílio Luz reunindo, no mesmo teto verde, blumenauenses e turistas para um caneco a mais, um momento descontraído e sem horário embalado por alguma bandinha típica perdida em um canto do restaurante.

A Hofbräuhaus vem ocupar o antigo prédio que já foi casa de nomes como Continental, Expresso e da ainda fresca saudade da Thapyoka e de almoços tornados confraternização no meio do dia. E como todo mundo bem sabe, a experiência de estar num espaço que emula o berço cervejeiro de Munique tem seu prazer, mas terá seu preço.
Os termos do contrato prometem a revitalização do espaço em até seis meses e fala-se na produção da famosa cerveja aqui mesmo, sem tirar e nem por da receira tão antiga quanto os duques que a beberam pela primeira vez.
Por hora, o tempo é de esperar, em definitivo, a chegada de uma nova cervejaria à cidade. Ou melhor fraseando, a vinda de uma marca que, pelo ar da cidade a sua volta, estava começando a fazer falta na carta de cervejas.
“In Blumenau steht ein Hofbräuhaus! oans, zwoa, g’suffa!”
Mín. 18° Máx. 29°