
Ernoy Mattiello, um certo dia, apareceu de susto entre meus contatos. Aqueles pedidos que um historiador/jornalista não nega: "estamos produzindo o documentário do Ingo Penz, podes gravar um depoimento para a gente?"
Na gentileza que, ao menos, devia ser padrão dos colegas de imprensa, aceitei prontamente e abri o baú com o que podia ajuda-lo na produção. Fotos, palavras, transformar o estúdio da União FM num pequeno set de filmagem. Aquele dia de tarde transbordou em imagens, coisa que não sou muito afeito como cara de rádio, mas é parte do processo (trabalhoso mas prazeroso processo).
Certo estava depois que ele e o assistente saíram da rádio buscando encontrar o bom fotógrafo entre o verde do Ramiro Ruediger. E no meu pensamento rondava uma frase apenas que muito queria dizer: "não é só contribuição, é retribuição".
Lembro do Ingo comentando do projeto em 2023, numa conversa rápida ao pé do palco do Setor 2, num domingo de manhã daqueles que a animada Choppmotorrad dava o tom de mais um dia de Oktoberfest. Naquele dia, num ar jocoso, perguntara a o Paulinho, um dos veteranos do som, se não soava curioso para ele, numa carreira tão longa de palcos, "passar som para um cabo de vassoura", aludindo ao Ruck-Ruck de Penz.
Mas a piada é o de menos. Ali no palco, Ingo me prometera, meio por alto, de me chamar para contribuir com algo para o projeto, e tudo diante do próprio Mattiello. Assim se fez. E repito, não era contribuição apenas, era retribuição, e eu explico.

Lá por 2017, abri o baú o velho parceiro do saudoso Horácio Braun. Contou-me um pouco do tempo que prestava serviços de filmagem para a TV Coligadas, nas imagens que gravava para o "Municípios em Revista". Das longas viagens pelo estado colhendo imagens das cidades destacadas e outras tantas coisas mais.
O conteúdo? Valiosíssimo, parte do quebra-cabeça que montamos com o pouco restante que se podia trabalhar para resgatar, de alguma forma, a memória da primeira emissora de TV do estado. O que foi hilário, de alguma forma, foi o momento mais tenso: Ingo queria uma mesa para apoiar-se, com algum conforto mais para falar.
Seguindo o padrão da gravação dos depoimentos, não tínhamos como fazê-lo, e o veterano fotógrafo foi ficando levemente preocupado. Eu era a última pessoa que gostaria de vê-lo chateado por algo tão pequeno, e nessa hora só esperava que tudo saísse nos conformes. Dava pra sentir o valor que Penz dava para aquele momento: em quantas oportunidades ele trazia consigo o valioso chapéu cravejado de broches de tantas aventuras por este Vale, Brasil e mundo?
O Ingo não perde um fio de sorriso sequer. Talvez o dia pode ser o mais estressante do mundo, o que é quase como estourar o pino de uma granada para um alemão, mas um momento de graça e leveza sempre parte da palavra dele. No convite para esta mesma entrevista da TV Coligadas, feito via telefone e dentro de um Troncal 10 cheio, ele respondia ao famoso "tudo bem?" com uma frase que levo comigo até hoje: "firme, forte, faceiro e bonito".

Eu admito ao amigo e amiga que me lê, pouco conheço da trajetória de Ingo, e talvez o documentário vindouro conte bem mais. Mas impossível, para quem registra personagens e momentos da memória blumenauense com carinho e reverencia, ignorar uma figurinha tornada tradicional a cada marcha da Oktoberfest, a cada outubro destas quatro longas décadas: desfile sem Ingo não é um desfile completo, falta algo.
E faltava lá atrás? Quando ele e Horário Braun atreveram-se, dentro daquela "boa delinquência" do passado, invadir o desfile com uma curiosa bicicleta dupla, eles inventavam não apenas uma forma diferente de contemplar a cor e o contagio da festa, mas praticamente colocavam na pista de paralelepípedos da Wurststrasse o que pode-se dizer o primeiro carro alegórico de grande fama de todos os tempos.
A Bierfahrrad foi a primeira: simples, direta ao ponto, bem abastecida com o pão líquido, se permitindo um submarino lá e cá e com Ingo e Horácio lado a lado fazendo a folia. A necessidade de algo que "eliminasse os pedais" pediu uma Java 1951 e um sidecar apropriado para a função, com um barril mais parrudo e mais disposição para agitar na pista. O tempo se encarregou de transformar a Choppmotorrad em ícone da rua e do palco.

Horácio, velho boêmio maior da cidade, agitador de primeira, o cara do "olha aqui, meu, não é por nada não…", se foi há tempo, muito tempo diga-se e ainda é lembrado pelos boêmios sobreviventes como o próprio herr Penz, se é que o termo "boêmio" lhe serve na exatidão da palavra. Talvez esteja exagerando, mas a boemia passa também por essa coisa de agitar a cultura, observar a rotina e fazer algo que traga cor e música, em imagem e sorriso, coisa que eu sei que ele faz muito bem.
Hoje, depois de tanta evolução de vida de minha parte, os caminhos me levaram a ser parte desse tufão chamado Oktoberfest, e encontrar Ingo nas mesmas esquinas é como uma benção do passado ao presente, a mim e a tantos que vem à XV a cada desfile com as suas máquinas maravilhosas relendo linguiça, batata, luz, cachaça, porco, dirigível, cuca, bolacha e o que mais vem na telha, emanando o mesmo espírito descontraído e festeiro que agita o povo e chama-o à Vila Germânica iluminada de cada noite dos "dias de folia" de Helmut Hogl.
Em breve, com certeza, veremos com olhos ávidos por mais histórias a memória de Ingo Penz no documentário que virá em breve, começando as exibições pela distante Córdoba, na Argentina, terra da mais antiga Oktober do continente. Estou sentado na primeira fila do cinema, ansioso, ávido por captar mais registros para a história e, claro, reverenciar esta figura que tanto merece palmas dos que esperam montado na Java 1951, ladeado da fiel Marlene e cercado de um sem-número de foliões que repetem os mesmos versos "cavalinhescos" na voz sotaqueada de Michael Lochner.

No último dia 16, tive minha benção especial: na explosão de alegria no encontro de um amigo, Ingo deixou comigo uma alça de caneco de chopp que talvez nunca use. Não é todo dia que o próprio dono da Choppmotorrad lhe concede o abraço e deixa consigo a lembrança: "40 anos de Oktoberfest". Item para guardar com estima e reverencia.
Sem mais para tanto e gratidão por tudo. Assim, a vida segue na base daquela velha frase, entre o ronco e a buzina da valente Java: "Immer lustig e nunca traurig!"
Danke meine freunde, herr Penz!
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