
"Lotérica é uma coisa efêmera, não deve ter tanta história registrada como pensamos", dizia o pesquisador. E nesse caso, amigo leitor, o pesquisador é o próprio escriba que escreve essas linhas.
Sim, estou começando por me penitenciar um pouco por esta. Talvez por uma visão rasa, a gente tende a subestimar a nós mesmos e o que temos em mãos. Pura mina de ouro? Nesse caso, diria até que sim, estamos falando de referencial do Centro da cidade, coisa que vem de mais de 50 anos, detalhes inéditos, histórias como gostamos de ouvir.
Quiseram o Rogério e a Maria Rita, o casal que toca a renovada Lotérica O Periquito de Ouro, me provar o contrário da minha percepção rasa. O que uma casa lotérica, dentro da efemeridade de uma aposta simples, pode contar de história? Que motivação para desentocar um passado que, pelas passagens de mão entre proprietários, corria o risco de não possuir nada?
O Periquito de Ouro, tão falado e decantado nas curvas da Rua XV e que, hoje, está na mão do casal, é um ponto inicial tão maior do que a dita efemeridade da aposta. Ela nasceu do "por acaso" tornado bom negócio, encarando todas as dificuldades de um começo entre a ilegalidade das contravenções (como o Jogo do Bicho) e o arcadismo da tecnologia que, hoje, permite apostas ao toque dos dedos via smartphone.

O Barbeiro e o vendedor da Federal
Fazia muito pouco tempo que a loteria havia sido legalizada no país. Bem no começo, poucos eram os vendedores e donos de casas lotéricas nas várias regiões do país, estes escolhidos por concorrência pública e tempo de concessão pré-estabelecido. Nomes como Luongo e Antunes de Abreu eram, nos grandes centros nacionais, referencias em venda das sortes lotéricas, mas ainda sujeitas a escorrer na ilegalidade de processos e dificuldades de registro de jogos e entrega de prêmios.
Então, o marco é 1961, ainda no curto governo de Jânio Quadros, com a regulamentação pelo poder público, tendo a Caixa Econômica Federal como organizadora e reguladora oficial. No ano seguinte, andava a roda o primeiro sorteio da Loteria Federal, a mais antiga entre os jogos da Caixa, agora sob a nova regulamentação. O primeiro prêmio? Cr$ 15 milhões, e nem me atrevo a converter este valor em Real.


Quase ao mesmo tempo desta "novidade", um salão de barbearia na Rua XV começava a se aproximar do ofício lotérico, isto na mão de dois cidadãos cuja amizade nasceu nessa rotina diária e frenética na antiga Wurststrasse: Renato Godzetwiski, o barbeiro, e Melentino Agustinho Teodoro (Cará), o vendedor de bilhetes da loteria.
Renato, paranaense da capital, vindo de Ponta Grossa trazendo quase que grifado na cabeça um destino que ouvia, repetidamente, de um dos clientes da barbearia que trabalhava naquela cidade nos Campos Gerais: "Blumenau, Santa Catarina". Na mala, além dos pertences, carregava consigo a habilidade de bom barbeiro, sendo o ofício o ganha-pão nos primeiros anos em que fez morada por aqui, no distante 1951.
Anos de serviço, tocando uma antiga barbearia na Itoupava Norte, fizeram com que Renato desacelerasse um pouco a correria: passou de gerente um dos quatro barbeiros do salão da Rua XV que referimos anteriormente. Para referencia, este salão estava localizado diante da antiga Lojas Hering, onde hoje está - curiosamente - uma agência da Caixa.
Quase que naturalmente, como esses encontros e conversês que levam a algo na Rua da Linguiça, a vida na atividade lotérica entrou no caminho daquele paranaense por intermédio do astuto Cará que, do outro lado da rua, já vendia bilhetes da Loteria Federal, de forma bem simples e direta para uma multidão que o acorria como referencia neste ofício há algum tempo.

Uma amizade, algumas conversas e, logo, Renato e Cará dividiam o mesmo espaço comercial. O barbeiro paranaense guardou as tesouras na gaveta e não mais as tirou. As contas, agora, eram feitas com base nas vendas de bilhetes do sócio. Da barbearia fomos a lotérica e, passados alguns anos mais, surgida discreta e solidamente a então Casa Lotérica "O Periquito da Sorte", ocupando o espaço do salão e sendo registrada, oficialmente, em 1969.
Exato, dos encontros da vida e da efemeridade da aposta nascia uma grande história, e como toda história pioneira marcou aquela ave símbolo da sorte como a primeira casa lotérica criada e registrada em Blumenau. E começou com sucesso, já referenciada pela atividade de Cará antes do espaço, a movimentação era grande, uma referencia nos jogos, até mesmo do tão polêmico Jogo do Bicho, a contravenção que existia ante aos olhos de dúvida da lei.
Da sorte para o ouro (e a memória)
Lembremos, eram tempos rudimentares. O registro dos jogos e bilhetes vendidos eram levados até São Paulo, na antiga Lotérica Metrópole. E tal como a sorte não escolhe onde cair, premiações saiam para muitos no Vale, mesmo que o recebimento do prêmio demorasse algumas semanas para chegar por aqui. Não era anormal se você derrubasse o rádio amigo ao saber, via a antiga Nereu Ramos, que você era dono de um bilhete premiado, o Periquito informava por ali seus resultados.
Em 1970, a febre da Loteria Esportiva era criada, e com ela também vieram longas noites de trabalho, sobretudo de Renato, para organizar todos os cartões perfurados no dia em que seriam levados a Florianópolis, para registro (já se tinham postos na capital do estado para isto nesta época). Só que, nem tudo seriam flores: alguém bateu na porta e disse diretamente: vocês estão proibidos de serem "Periquito da Sorte", a marca já tem dono.

Exatamente isso. Um problema de registro de marca com uma lotérica de São Paulo lhes proibido usar o nome já consagrado no estabelecimento. E a boa regra do marketing é clara e não deixa espaço para desculpas: uma marca que "pega bem" não sai da cabeça das pessoas. Mudar de nome podia ser o fim de tudo, os apostadores confiaram no Periquito, não em outra ave ou artimanha como nomenclatura neste ramo.
Renato era o cara mais preocupado neste sentido. Enquanto Cará vendia, o paranaense pensava febrilmente na questão-chave: "qual será o novo nome da casa lotérica?". Cará lhe perguntava, a resposta não vinha. Só que, as vezes, esse tipo de coisa não nasce pensando, mas relaxando, deixando a mente funcionar sem a cefaleia da pressão.
Um sonho noturno, foi o estalo que Renato precisava. Recordando dos tempos de infância, de um idílico tocador de realejo com seu periquito de penas amarelas reagindo à musica, que o nome surgiu em sua mente. No outro dia, respondeu seco a mais uma das tantas perguntas preocupadas de Cará sobre o novo nome: "Periquito de Ouro". Estava feito.

Para o bem da história, o Periquito de Ouro cristalizou ainda mais o significado puro de lotérica na já movimentada Rua XV, seja como confiável casa lotérica ou como "o caminho da fortuna", como chegou a ter escrito em um de seus luminosos à porta, premiando incontáveis blumenauenses e moradores das cidades vizinhas, seja quantias pequenas ou grandes montantes de mudar a vida de tantos.
Do velho casario de madeira, a casa lotérica passou ainda para um espaço no Edifício Edelweiss ate chegar a uma pequena sala no Edifício Albor, mais abaixo da mesma Rua XV, sem perder o referencial que construiu ao longo do tempo. Outros proprietários vieram, as inovações surgiram, a lotérica ficou pequena e pediu, por necessidade, para sair do Centro, dar conforto, continuar sua história com uma imagem nova, sólida, repaginada.
Quem a procura, não a encontrará na Wurststrasse. Mesmo em seus dois atuais endereços (sim, dois endereços: no Água Verde e em Gaspar, no Bela Vista), o Periquito de outros tempos parece ainda voar no imaginário de tantos que ainda se recordam de idas apressadas a "cidade" para, entre outros assuntos, deixar escrita e apostada aquela "fézinha" amiga, na esperança que aquele "por acaso" se convertesse em um bom dinheiro, uma virada de vida das mais sonhadas.


E de volta as conversas com Rogério e Maria Rita, vindos de São Paulo para inspirar este resgate, me olho num espelho e falo para mim mesmo aquela lição que o Periquito de Ouro, veterano de voo e sorte, me deixou. Talvez este tão valioso quanto um prêmio de loteria: não importa de onde se busca a história, ela te surpreende com os meandros e a importância que ela traz consigo.
Ir numa lotérica nunca mais será a mesma coisa, especialmente se for para acorrer a'O Periquito de Ouro, a pioneira, primeira e única que não perde o titulo que o tempo lhe e deu e que ainda faz o que bem sabe: voar e levar a tal da "boa sorte" por ai.
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