
Parece dejà-vu, notícia repetida reatualizando a dor de quem perdeu alguém para a violência no trânsito. Amanhecemos tristes, estarrecidos, revoltados porque mais uma vez o dia não vai amanhecer, desta vez para os dois ocupantes de uma moto que trafegava pela rua Frederico Jensen, na Itoupavazinha. O condutor do veículo que invadiu a contramão e provocou a colisão foi encaminhado à delegacia. Os fatos serão investigados, os corpos sepultados, mas a dor não.
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As duas faixas de tráfego estão vazias por alguns segundos. Uma moto transita em baixa velocidade, só que o terceiro veículo que vem na faixa contrária avança em velocidade logo após uma curva, invade a contramão e o fato sela o destino de condutor e garupa.
Daí para a frente já se conhece os ritos em busca de respostas. Porquê a caixa de lata que pesa cerca de 1 tonelada avançou sem controle para cima de quem trafegava na contramão? Por parte do condutor do veículo de 4 rodas houve a intenção de ultrapassar na reta os dois veículos que iam à frente?
O motorista estava sob o efeito de álcool ou drogas? Foi mal súbito?
Caberá agora ao Ministério Público denunciar ou não com base na previsão legal que caracteriza o homicídio e ao condutor defender-se no processo caso seja instaurado.
Mas, não é tão simples e linear assim.
Estamos falando em como a vida vai seguir para os familiares de condutor e garupa da moto, pois esse é um tipo de dor que só conhece a exata dimensão quem passa. Infelizmente, ainda vivemos em um país sem uma plataforma cultural voltada para a segurança no trânsito e casos assim, por mais recorrentes que sejam, não fazem mudar as práticas em via pública.
Enquanto a prevenção não for levada a sério e adotada como norma de conduta muitos ainda pagarão com a própria vida. Essa história não se acabou às 19h30 na rua Frederico Jensen e ainda vai longe! Se denunciado, é bem provável que o então réu responda ao processo em liberdade e só fale sobre o que sente nas letras frias do processo criminal.
Ainda que a sentença dos homens de toga possa levar anos para que a família tenha a certeza de que a punição amenizará o sentimento de impunidade, são justamente eles que começarão a cumprir a pena perpétua da ausência e da saudade que maltrata o tempo todo.
Mas é importante que todos saibam que essa não é só a dor dos familiares das duas vítimas neste acidente. É a dor de uma legião de órfãos que sofre com a espera lenta por uma punição que sempre se anunciou branda e desproporcional a importância do bem jurídico maior a ser tutelado: a vida!
Eles não são só manchetes, só estatísticas, só notícia repetida. Essa dor é (ou deveria ser) de uma sociedade inteira que ainda não se deu conta de que é o seu comportamento no trânsito que decide quem vive e quem morre.
Nossos mais profundos e sinceros sentimentos a todos os órfãos do trânsito.

Márcia Pontes é escritora, colunista e digital influencer no segmento de formação de condutores, com três livros publicados. Graduada em Segurança no Trânsito pela Unisul, especialista em Direito de Trânsito pela Escola Superior Verbo Jurídico, especialista em Planejamento e Gestão do Trânsito pela Unicesumar. Consultora em projetos de segurança no trânsito e professora de condutas preventivas no trânsito. Vencedora do Prêmio Denatran 2013 na categoria Cidadania e vencedora do Prêmio Fenabrave 2016 em duas categorias.
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