
Se revisitarmos a história do Reino do Garcia, segundo as linhas do mentor Adalberto Day, talvez possamos perceber que, até um dado período, a segunda região mais populosa da cidade era quase como um universo paralelo dentro do município que o abrigava.
Este passado, permeado por histórias de criança, iniciativas industriais marcantes, grandes festas e até bola rolando era o que movia o ambiente, dava o clima da semana e do fim de semana e fazia justificar o nome de um de seus bairros: o Progresso.
No entanto, muita coisa mudou nesta realidade quando, num movimento empresarial, uma proeminente gigante têxtil absorvia as operações da vizinha de porta pioneira no setor na cidade. Foi com uma negociação pensada e longa que, em 1974, a já centenária Empresa Industrial Garcia (EIG) foi incorporada a Artex, o que, sem querer, causaria a metamorfose mais profunda que toda uma região viveria em sua história, seja na rotina, na geografia e, também, no esporte local.
Inícios
A Garcia nasceu em 1868, fruto do tino empreendedor de Johann Henrich Grevsmuhl, junto de August Sandner e Johann Gauche e um tecelão conhecido por Lipmann, que deram impulso às primeiras atividades da Johann Heinrich Grevsmuhl & Cia. Entre idas e vindas, fechamentos e aberturas de empresas, a EIG tornou-se o que seria de fato apenas em 1913, tomando emprestado o nome da região de onde viera a primeira família residente naquelas léguas: oriunda do Rio Garcia, em Camboriú.


Junto dela nasceu também sua identidade para os campos. Foi em 1911 que uma reunião de operários amantes do futebol fez surgir o Amazonas Esporte Clube, o "anilado", o "alvi-celeste" que protagonizava os grandes embates das tardes contra os primos ricos, nomeadamente Palmeiras e Olímpico. Seu estádio, ao lado da EIG, era considerado uma pérola, o mais bonito do estado, e era a praça de encontro da juventude, dos amantes do nobre esporte bretão e de uma comunidade toda em torno das grandes festas e solenidades.
Ao mesmo tempo que aqueles primeiros anos iam passando, surgia nos limites do Progresso o terceiro elemento dessa transformação, e aquele que seria responsável pela metamorfose que viria. Em 23 de maio de 1936, por iniciativa de Theophilo Bernardo Zadrozny, era fundada a Fábrica de Artefatos Têxteis, ou simplesmente Artex. Duelava de olho-com-olho no mesmo filão de negócio que a vizinha EIG e tinha nos seus primeiros quadros o tecelão que colocava ordem na casa: Otto Huber, vindo da porta ao lado.

Era assim que o Garcia vivia naqueles áureos tempos inocentes. No seu cercado, duas grandes empresas, um clube de futebol que era um trator na cidade e arrastava multidões. Um bairro que conviva com tragédias (como a enxurrada de 1961) e as superava quase de mãos dadas, refazendo suas instituições diante das dificuldades e das várias casas da vila operaria que formava-se.
E tudo ia bem, até que o progresso e as novidades dos anos 1970 começaram a bater a porta e entrar para nunca mais sair. E essa virada começa no 150 da Rua Progresso, em 1971.
Mudanças (e saudades)
Foi quando a Artex, mais bem estruturada e moderna tecnicamente, viu com bons olhos uma junção de forças com a vizinha centenária. Aquele começo de década não era tão fácil quanto a EIG pensava: mesmo com um Centro de Processamento de Dados (CPD) moderno, o maquinário antigo e as mudanças no panorama mercadológico daqueles tempos não eram mais os mesmos da época romântica.
No exterior, em Nova York, uma reunião de altos empresários colocou frente a frente os Hauer, administradores paranaenses da EIG desde 1918, e os Zadrozny. Seriam as primeiras conversas do que viria ser processado e finalizado em fevereiro de 1974, num movimento praticamente previsível: a incorporação das atividades da Garcia pela Artex. A casa dos Zadrozny passava a ser a maior indústria têxtil latino-americana, e a EIG, meramente, uma das marcas de seu portfólio.


Foi um movimento esperado? Diga-se que sim, embora os saudosos da EIG sintam as pontadas da saudade e indignação pelo fim de sua história como empresa independente. Tem quem diga que "a Artex jamais chegava aos pés da Garcia", mas são papos de paixão latente que as tabelas e ideias empresariais não conseguem entender.
Em torno das empresas, o grande Garcia e seus bairros mudavam: a velha passagem por dentro da EIG era fechada e trocada por um novo caminho "por trás", a Praça Getúlio Vargas era deslocada mais para o bairro Glória, a Rua Emílio Tallmann ganhava um novo acesso "indireto" para a Rua Amazonas, quase todo um quadro de funcionários trocava os uniformes e passava a emprestar sua força para a marca do cavalo-marinho.

Mas uma ferida ainda seria rasgada até o fim daquele 1974. Com a incorporação, também era dado um ponto final na história cheia de nuances emocionantes do Amazonas nas quatro linhas. Aquele 1974 marcaria a possível volta ao profissionalismo depois de anos no amador (e muitas conquistas citadinas), mas as máquinas da Construtora Triangulo não esperaram qualquer decisão antes de começar a aterrar o estádio sem dó e nem piedade.
A decisão do fim fez a sede do AEC ser invadida e muitas de suas relíquias pararam nas mãos de torcedores apaixonados. Os 5 a 1 da equipe diante do Humaitá (de Nova Trento), na final da Taça Governador Colombo Machado Salles, foi o último suspiro do anilado Guardado nos livros, fotos e memórias de quem viu no campo os lances hipnotizantes de Nena Poli, Antônio Tillmann, Ziza, Nino, Deusdith de Souza (ele mesmo, o ex-vereador), Nilson (Bigo), Tigi, Meyer, Tarcísio Torres e tantos outros craques de seu tempo.

Tudo aconteceu a luz de 1974, e olhar para trás depois de tudo, faz entender o porquê de tantos que moram ou conhecem este passado colorido do hoje "Reino" sintam as pontadas de orgulho, saudade, certas indignações e grandes reverencias. Os antigos recordam e os jovens, como eu e tantos outros, têm apenas o trabalho de tentar imaginar como era aquele Garcia tão diferente e de cotidiano tão único que existiu.
Muito desta história passada não sobreviveu ou continua nas mãos de terceiros, como a Artex e suas instalações, sob o controle da Coteminas e uso da própria prefeitura. Do Amazonas, apenas relíquias e memórias dos velhos torcedores que ainda devem ouvir a marchinha sempre que passam perto de onde era o antigo estádio. Do bairro velho, apenas três casas da vila operária sobrevivem como lembranças do dia-a-dia antigo.
Diante dos novos tempos da Hering e das promessas de que "não é o seu fim", impossível não lembrar que, pelas terras do Reino, algo parecido já aconteceu. E tanta coisa mudou - física e socialmente - na história e cotidiano do sul de Blumenau. A história continua, preserva e segue em frente, como o Garcia a cada dia que vai e vem.

André Luiz Bonomini (o Boina), “filho do Progresso, Reino do Garcia”. Jornalista graduado pela Unisociesc, atua desde 2013 no mundo da notícia. Amante do rádio, da música, do automobilismo e da boa roda de amigos. Apaixonado também por história e poeta “de fim de semana”, teve passagens no rádio pela 98FM (Massaranduba), Radio Clube de Blumenau, PG2 (Timbó) e atua como programador musical da União FM (96.5), de Blumenau. Boina também é “escritor de fim de semana”, blogueiro e colunista. Atua no jornal A Cidade (Timbó) com coluna própria e como entrevistador. Quase todos os dias, traz à Boina uma visão diferente do cotidiano em vários assuntos, com opinião, história e reflexões para todos os lados e gostos, além de apresentar gente muito boa na escrita em crônicas e opiniões dos colegas de jornalismo e afins.
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