As primeiras 48 horas depois do resultado foram longas para o PT. Flávio Bolsonaro saiu das urnas à frente de Lula, com cerca de 2,2 milhões de votos de vantagem. Um baque numa campanha que alimentava a esperança de liquidar a eleição no primeiro turno. O petismo começou a segunda etapa atônito, obrigado a rever uma estratégia que não entregou o resultado esperado.
Trocar o marqueteiro
Lula sondou João Santana e discute mudanças na comunicação. É o velho impulso de procurar no marketing a explicação para um problema político. Trocar o responsável pela propaganda altera a embalagem. Não apaga o desgaste do governo nem resolve a resistência do eleitor. Antes de procurar um novo vendedor, o PT deveria examinar o produto.
A receita do medo
A reação também passa por alertar que Flávio ameaça programas sociais, embora o candidato tenha prometido manter o Bolsa Família. Ressuscita-se a receita conhecida: assustar o eleitor com aquilo que ele poderia perder.
É o velho nós contra eles, embalado pela urgência de recuperar terreno. Programa social é política pública, não propriedade eleitoral do PT. Tratar o beneficiário como voto cativo revela uma arrogância que o partido insiste em cultivar.
Temer se posiciona
Michel Temer declarou apoio a Flávio e vinculou o resultado ao desejo de mudança. É um ex-presidente com experiência, trânsito político e influência no MDB.
Uma eventual neutralidade da direção partidária não anula esse gesto. Siglas com bases regionais distintas podem liberar seus integrantes, enquanto lideranças escolhem um lado. O carimbo nacional tem peso, mas não controla sozinho os palanques.
Caiado e Zema
Ronaldo Caiado declarou apoio em Goiânia, ao lado de Daniel Vilela e Tarcísio de Freitas. Romeu Zema também se posicionou a favor de Flávio. Adversários do primeiro turno agora reforçam o campo antipetista.
Kassab manteve o PSD no muro. Caiado desceu e escolheu seu lado. A neutralidade da cúpula não impediu uma de suas principais lideranças de entrar na campanha liberal.
Tarcísio articula
A Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, formalizou apoio a Flávio. Tarcísio trabalha para consolidar também a adesão do Republicanos, ainda em negociação.
Flávio procura transformar a dianteira eleitoral numa aliança mais abrangente. Enquanto o PT remexe na comunicação, o adversário abre portas e reúne forças para o segundo turno. A diferença de ritmo político é evidente.
Voto não tem dono
Lula e Flávio concentraram pouco mais de 92% dos votos válidos. Isso não significa que 92% de todo o eleitorado esteja definitivamente decidido. Há os votos dos demais candidatos, os brancos, os nulos, os ausentes e quem pode mudar de escolha.
Caiado e Zema oferecem pontes para Flávio, não procurações sobre seus eleitores. O silêncio de Augusto Cury ou Renan Santos tampouco equivale a apoio. A afinidade conservadora favorece a aproximação, mas a transferência precisa acontecer na urna.
Vento favorável
Flávio começa essa etapa com vantagem e uma sequência relevante de adesões. O vento político sopra a seu favor. Uma abertura de cinco a oito pontos seria uma projeção desse impulso, não um resultado de pesquisa já conhecido.
O histórico desde 1989, sem virada presidencial no segundo turno, serve de referência, não de sentença. Lula tem estrutura e capacidade de reação. Subestimá-lo seria oferecer ao PT a oportunidade que procura.
O Sul se mobiliza
Jorginho Mello, Sergio Moro e Luciano Zucco podem organizar uma frente regional forte. O governador catarinense, reeleito, soma experiência aos novos comandantes do Paraná e do Rio Grande do Sul. As articulações incluem encontros em Brasília e uma passagem de Zucco e Moro por Florianópolis, possivelmente nesta quinta-feira
O objetivo é ampliar a vantagem de Flávio no Sul. Jorginho entra com a musculatura conquistada em Santa Catarina. A eleição continua aberta, mas os campos largaram em ritmos distintos: Flávio amplia alianças; Lula tenta estancar o estrago.
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